renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Casablanca como Peça de Propaganda

Como Uma Peça Insignificante Se Transformou no Filme Mais Amado do Mundo


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Timing é tudo na vida.

Uma peça de Murray Burnett e Joan Alison, com o título de “Everybody Comes to Rick's”, chegou às mãos do leitor do estúdio da Warner Stephen Karnot dia 8 de Dezembro de 1941.

Um dia antes, a frota Imperial japonesa tinha atacado os EUA de surpresa, naquela data que Franklin Roosevelt declarou que viveria para sempre como o dia da infâmia. E Karnot gostou do que leu. “Excelente melodrama” escreveu ele em um memorando para o produtor Hal Wallis, acrescentando “Excelente veículo para Bogart ou Cagney, ou ainda para Raft fugir dos papéis habituais, e talvez Mary Astor.”

Esta peça, devidamente retrabalhada por roteiristas profissionais, se transformaria no filme Casablanca, dirigido por Michael Curtiz e estrelado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman.

A inflação no preço de uma obra de valor até hoje discutido – e ainda por cima assinada por dois autores desconhecidos (20 mil dólares). Para efeito de comparação, Dashiell Hammett tinha conseguido apenas 8 mil dólares pelos direitos de “O Falcão Maltês”. Este foi o maior valor já pago por uma peça inédita até então) provavelmente estava ligada a razões que pouco tinham a ver com seus méritos. Havia uma carência de material satanizando os nazistas.

Como escreveu Colin Shindler no livro “Movies of The Forties” “... nos dois estranhos anos que se seguiram à deflagração da Guerra na Europa os filmes que se referiam à Itália ou à Alemanha tendiam a fazê-lo mantendo uma distância respeitosa. Escape, de 1940, de Mervyn LeRoy, ainda que passado em grande parte em um campo de concentração, conseguia a proeza de evitar as palavras “alemão” e “nazista”. O filme de Fritz Lang, Manhunt, de 1941, que começa com um caçador britânico (vivido por Walter Pigeon) checando a possibilidade de assassinar Hitler, rapidamente se transforma em uma história de perseguição. A crescente militarização do Japão conseguiu ter menos atenção do cinema hollywoodiano do que do Governo americano antes dos eventos de 7 de Dezembro de 1941".

Ou seja, a peça pousou na Warner exatamente quando se completavam 24 horas da busca de Hollywood por histórias que capitalizassem a entrada pra valer dos EUA no conflito.

Logo, Casablanca é uma peça de propaganda? Bem, sim, no mesmo sentido que a Capela Sistina – guardadas as devidas proporções - é uma peça de propaganda do Cristianismo e que Ricardo III, de Shakespeare, é uma obra pensada para desconstruir a imagem do monarca favorecendo a dinastia Tudor.

No outro extremo, “Lula, o Filho do Brasil”, também é uma peça de propaganda, prejudicada não apenas pela personagem central como pela falta de talento dos envolvidos. Peças com agenda podem ser obras primas ou fracassos risíveis. A régua para medi-las é o talento da execução e não as ideias que querem vender. E, claro, neste terreno não há nada de novo.

A CIA participou ativamente da costura do roteiro do premiado Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow, que narra a caçada pelo terrorista Osama bin Laden. Por interferência da agência, desapareceram as ameaças aos prisioneiros feitas com cães e mesmo a participação da personagem principal em cenas de tortura (na versão final, ela é uma mera observadora). Segundo David Talbot, em seu livro “Irmãos”, John Kennedy usou seus contatos em Hollywood para que fosse rodado o filme “Sete Dias de Maio” como ajuda para “despertar a nação para a ameaça de traição da extrema-direita”. O livro, escrito por Fletcher Knebel e Charles W. Bailey, foi dirigido por John Frankenheimer, uma das celebridades liberais de Hollywood. Ainda segundo Talbot “John Kennedy se agarrava ao poder de sonho de Hollywood para invocar os mais profundos medos e esperanças do público”.

Hollywood, antes de Pearl Harbor, ainda que não alinhada diplomaticamente à Inglaterra e dispondo de poucos armamentos (salvo os usados por John Wayne – e estes eram basicamente usados para matar índios nativos), bem que fez algumas tentativas de alertar o mundo para a ameaça nazista.

O filme de Anatole Litvak, “Confissões de Um Espião Nazista”, datado de 1939 - o primeiro a tratar os nazistas abertamente como inimigos - foi ignorado pelo público. Ainda assim, mesmo com uma repercussão próxima do zero. Um senador democrata chamado Burton Wheeler disse que a indústria cinematográfica estava incitando o público americano a se envolver na Guerra.

Ao lado de Litvak, uniram-se, de forma inesperada, os Três Patetas. O grupo rodou 190 curtas metragens entre 1934 e 1959. Destes, cinco eram abertamente contra o nazismo: You Nazty Spy! (1940), I’ll Never Heil Again (1941), Back From the Front (1943), They Stooge to Conga (1943) e Higher Than a Kite (1943).

O primeiro deles, diga-se de passagem, antecedeu em nove meses “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin – e enfrentou a ira dos simpatizantes da Alemanha, que ameaçavam colocar bombas nos cinemas onde o filme era exibido.

Filmado em uma semana, a partir de 5/12/1939, o curta foi lançado em 19 de Janeiro de 1940 pela Columbia, fazendo do descendente de lituanos judeus Moe Howard o primeiro ator Americano a reconhecer e explorar o infinito lado patético e canastrão de Hitler.

O velho Adolf, que não era conhecido pelo exuberante senso de humor, colocou Moe em sua lista de alvos ameaçados de assassinato. Não que o mais ambicioso e artístico “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, lançado em Outubro de 1940, tenha recebido menos resistência. O monólogo final (“Os ditadores escravizam o povo! Agora vamos lutar para libertar o mundo! Para acabar com as barreiras nacionais! Para acabar com a ganância, com o ódio e a intolerância! Lutemos por um mundo de razão, um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam à felicidade de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!”), hoje considerado um dos grandes momentos do cinema, atraiu diversas críticas e foi visto por alguns como o início da queda de popularidade de Chaplin entre o público americano.

Bem, se você acompanhou a história até o final, deve saber que, para o bem da humanidade e do cinema, felizmente, Hitler perdeu e Moe e Chaplin ganharam.

Mas, indiferentes à estas iniciativas cinematográficas isoladas, por ocasião da criação de Casablanca, mesmo com os eventos de Pearl Harbor, ainda havia uma parcela da opinião pública a ser convencida da necessidade de combater o Eixo. A América de então parecia ter adotado o lema do imortal dono de bar no Marrocos, Rick Blaine: “I stick my neck out for nobody!”.

Ou seja, “Eu não arrisco meu pescoço por ninguém”. Aquela guerra não era deles. Era do outro lado do mundo. E a maior parte da população definitivamente não queria que sua primeira visita à Europa terminasse com uma volta em body bags. Em 1941, três anos depois de iniciado o conflito – e no ano em que a estória do filme Casablanca se passa - 96% dos americanos queriam que seu país permanecesse neutro diante do conflito - de acordo com uma pesquisa do Gallup.

Aliás, como lembrou Paulo Francis: “Quem nasceu depois de 1945 provavelmente não tem ideia da antipatia que o Império Britânico provocava no mundo (igual à que os EUA provocam hoje) e que Hitler, em 1939, parecia a muita gente o Davi, o underdog que enfrentava o colosso Golias, em nome dos deserdados da Terra” Francis vai mais longe: “A guerra europeia de 1939, em 1941, se tornou mundial, atraindo os EUA, a URSS e o Japão. A aliança entre EUA, URSS e Inglaterra foi um casamento de conveniência que se desfez rapidamente na realidade da paz. Stalin queria segurança no Leste Europeu, em suma, uma esfera de influência soviética. Churchill pretendia, cego à ruína econômica inglês, manter o império de “bloco da libra” que obrigava colônias e domínios a negociar exclusivamente em termos favoráveis à Inglaterra . Uma quimera que a necessidade inglesa de obter auxílio dos EUA, em face da Alemanha, destruiu rapidamente tornando a Grã-Bretanha sócia menor de Washington, condição em que se encontra até hoje.”

Para conquistar estes corações e mentes mais recalcitrantes, o Departamento de Guerra criou uma divisão de Filmes de Guerra, para a qual contratou talentos como os de John Ford, Frank Capra, e os escritores de parte do script de Casablanca, Julius e Philip Epstein. Esse grupo criou uma série de sete filmes de propaganda intitulados Why We Fight. A Doutora Tanfer Emin Tunç escreveu em seu artigo Casablanca: The Romance of Propaganda: “Entre 1942 e 1945, Hollywood lançou 1.700 filmes, dos quais 500 tratavam diretamente de material relacionado com a guerra. O governo dos EUA teve um papel ativo na triagem (e, claro, na censura) desses filmes através do seu Gabinete de Informação de Guerra, e foi longe o suficiente para criar diretrizes que os estúdios foram obrigados a seguir. Elas incluíam uma lista de seis temas que "beneficiam o moral americano." Washington sugeriu produzir filmes que: glorificassem o "american way of life"; "retratassem o inimigo e sua filosofia"; "refletissem positivamente sobre nossos aliados"; "retratassem o esforço das indústrias domésticas na guerra no plano industrial"; "ilustrassem o que as pessoas podem fazer dentro do país para apoiar o esforço de guerra "e mostrar" nossas forças de combate no trabalho. Como previsto, os filmes produzidos sob essas diretrizes (Casablanca incluído) não só ofereceu entretenimento às massas, mas também reforçou o apoio da nação para o esforço aliado de guerra. Há quem defenda que Casablanca foi ainda mais longe no alinhamento à essas diretrizes e foi direcionado para ilustrar o princípio de que as prioridades pessoais devem ser abandonados em nome do bem maior, que é destruir o fascismo. Os Estados Unidos seriam o contraponto ao caos criado pelo eixo, um porto seguro para os que defendem a liberdade."

Do ponto de vista comercial, também não incomodava nada o fato do cenário da história remeter a Algiers, o hit de 1938 em que Charles Boyeur e Hedy Lamar vivem um amor proibido em uma cidade exótica. A personalidade da heroína permanecia, entretanto, um problema. Na peça, a protagonista feminina Ilsa – ainda com o nome de Louis Meredith - é uma femme fatale que mantém um caso com Rick mesmo sabendo que ele era casado e tinha filhos.

Bem diferente da casta Ilsa que chegaria às telas – e muita mais capaz de atrair a simpatia do público. O que é curioso é que embora houvesse uma clara diretriz do governo americano para que os filmes inspirassem o sentimento pró-guerra, como escreveu o crítico Roger Ebert: “O que é intrigante é que nenhum dos principias personagens é mau. Alguns são cínicos, alguns mentem, alguns matam mas todos se redimem.”

Bem, agora a Warner tinha uma história nas mãos alinhada com as diretrizes do governo. Não que ela fosse uma unanimidade. O diretor Robert Rossen dizia aos quatro ventos que a Warner estava pedindo contribuições para melhorar uma coisa chamada “Everybody Comes to Rick's”, que ele carinhosamente tratava como “um pedaço de merda”.

O “pedaço de merda” caiu nas mãos de Aeneas McKenzie e Wally Kline, que preparam um primeiro tratamento, que basicamente tornava o trabalho mais palatável para a censura. Este tratamento foi parar nas mãos dos geniais gêmeos Julius J. e Philip G. Epstein. Wallis já tinha escolhido Humphrey Bogart para viver Rick, então a questão do tempo era essencial. Os irmãos trabalharam no “pedaço de merda” entre 25 de Fevereiro e 16 de Março de 1942. O script ainda devia muito à peça. Ilsa não tinha mudado muito. Continuava uma mulher de moral duvidosa, perigosa, amarga, cínica. Rick, entretanto, tinha perdido um pouco da amargura e ganhado um pouco de senso de humor. Alguns olhares mais atentos poderiam observar que Rick tinha ganhado um verniz de Philip Marlowe, o detetive hard boiled criado pelo gênio Raymond Chandler em 1939: O cínico durão que no fundo é um sentimental cuidadosamente protegido por uma armadura de ironia e que usa o humor seco como instrumento de distanciamento (diferentemente de sua contraparte – Sam Spade – criado por Dashiel Hammet uma década antes, sem nenhum senso de humor e que finge ser meio filho da puta para esconder o fato de ser, bem no fundo, um completo filho da puta, a ponto de dormir com a mulher do sócio e mandar sua namorada para uma condenação quase certa à sentença de morte. Nem Rick nem Marlowe iriam tão longe).

Alguns exemplos do novo Rick visto pelos Epstein estão em diálogos como este entre ele e Renault: Renault “Que diabos te trouxe para Casablanca?” Rick: “Minha saúde. Eu vim pelas águas” Renault: “Que águas? Estamos no Deserto?” Rick “Eu estava mal informado”; Strasser pergunta para Rick sobre a possibilidade dos alemães invadirem Nova York. Rick: “Bem, Major, tem partes da cidade que eu recomendaria que vocês ficassem bem longe”. Rick não busca o confronto direto com as autoridades nazistas, mas muito menos adota uma postura subserviente. Se Philip Marlowe tivesse deixado seu escritório vagabundo em Los Angeles e aberto um bar no Marrocos, não seria muito diferente de Rick Blaine.

Ainda que pensada como uma peça de propaganda – e que não houvesse nenhuma expectativa sobre seu valor artístico – Casablanca ultrapassou sua finalidade básica e se transformou no filme mais amado de todos os tempos. Cidadão Kane pode ser mais admirado, mas nunca despertou a mesma paixão que o filme de Michael Curtiz. Rick e Ilsa sempre terão Paris.

E, graças a eles, nós sempre teremos Casablanca.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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