renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Confesso que ouvi

Meio século caçando os maiores músicos do planeta


cnv sinatra.jpg

Ficar velho.

Não recomendo para ninguém.

O único consolo está nas palavras de Everett Sloane para Willian Alland em “Cidadão Kane”: “Velhice... a única doença da qual você não quer ficar curado”.

No meu caso, porém, há um consolo adicional:

Eu assisti ao vivo alguns dos melhores músicos do planeta.

Sarah Vaughan no Palácio das Convenções de São Paulo cantando Misty.

Billy Eckstine cantando I Apologize no 150 Night Club do Maksoud Plaza de São Paulo – e, pouco antes do show, tomando sozinho um uísque no balcão do bar, ao meu lado, como se fosse um ser humano normal e não Billy "Fucking" Eckstine.

Aliás, na década de 1980, as melhores noites de jazz de minha vida foram passadas no 150, lugar em que ouvi Anita O'Day, Leny Andrade, Bobby Short (que mais tarde reveria em sua casa e templo, o Café Carlyle de NYC), além da maravilhosa e perpetuamente ranzinza Carmem McRae - cortesia do gosto irrepreensível do empresário Roberto Maksoud. Depois, ao que consta, ele se desentendeu com o pai e o 150 foi uma das primeiras vítimas.

Francis Albert Sinatra, 3 vezes. A primeira, naquela que ele disse ser a noite mais emocionante de sua vida profissional, diante de mim e mais 149.999 pessoas no Maracanã do Rio de Janeiro.

ingresso-f.jpg

Nas duas últimas, de forma mais intimista, no Desert Inn de Las Vegas (o primeiro cassino de lá onde ele cantou), uma semana antes de 77º. Aniversário, ele interpretou Angel Eyes - e foi saindo do palco enquanto deixava atrás de si os últimos versos da canção (“Excuse me while I disappear...”).

re e frank.jpg

Miles Davis em São Paulo, excepcionalmente gentil com uma audiência branca, em sua fase pop, tocando Human Nature de Michael Jackson (“Sabe porque eu não toco mais baladas? Porque eu amo baladas” disse ele para justificar a busca do novo, a fuga constante de sua zona de conforto). Tony Bennett (que parecia pouco impressionado com meus elogios enquanto assinava a capa de um LP que levei para ele) cantando “How do You Keep The Music Playing?”.

Mais gentil, Michel Legrand fingiu levar a sério minha opinião de que ele e Jobim eram os maiores compositores da segunda metade do século (“Jobim? Adoro Jobim. Tentei levar ele para a França para um especial de TV, mas ele fugiu” contou-me Michel). Antes de nossa conversa nos bastidores do Bourbon Street de São Paulo, ele nos brindou com uma leitura comovente de “Papa, Can You Hear Me”, que mesmo quando meu pai era vivo me arrepiava – e que se eu ouvir hoje será um vexame.

Tom Jobim, no antigo Palace de São Paulo, tocando ao piano Luiza, sem acompanhamento da banda – e se perdendo muito brevemente em uma passagem ("Que eu sei que embaixo...").

Este show, aliás, um tributo a Jobim ancorado por Herbie Hancock, com diversos astros internacionais, foi especialmente penoso, já que foi antecedido por uma “apresentação” de Carlinhos Brown batucando em latas de lixo. (Quem coloca Carlinhos Brown antes de Jobim ao lado de Shirley Horn?)

Felizmente, este show foi filmado exatamente quando eu estava lá.

Felizmente, a porção com Carlinhos Brown foi generosamente excluída.

Chico Buarque no Canecão do Rio cantando sua melhor canção, Futuros Amantes.

No Blue Note de NYC, vi Lionel Hampton, logo depois de um derrame, no bis cantando “What a Wonderful World”.

Toots Thielemeans, no palco de Free Jazz, no Palace, ao lado de Chico Buarque e Edu Lobo, que cantaram juntos (ao que me consta, pela única vez) Beatriz.

Naquele mesmo Palace, vi também Milton Nascimento cantando a mesma canção, só com o acompanhamento ao piano, no show O Planeta Blue na Estrada do Sol. Mais tarde, ele lançou o registro da apresentação em CD. Mas nós ouvimos antes.

João Gilberto reinventando e descobrindo novas possibilidades para Estate, diante de mim no Tom Brasil de São Paulo. Este, aliás, como Miles Davis, inusitadamente simpático, pedindo ao público que cantasse com ele - e tirando o medo da plateia de fazer qualquer barulho, por menor que fosse, que incomodasse o gênio e fizesse com que ele interrompesse o show. Antes dele deixar o público à vontade, as pessoas tinham medo até de mexer as pedras de uísque no copo.

Glenn Close, que eu só conhecia com atriz, me surpreendendo como cantora, em Sunset Boulevard, em Los Angeles, arrepiando a plateia com "As If We Never Said Goodbye", pouco antes de descobrir que sua volta ao estúdio era apenas para emprestar um carro e não para ser redescoberta como estrela. (aliás, esta é a única peça que presta já escrita pelo cafona Andrew Lloyd Webber). Johnny Alf tocava “Eu e a Brisa”para mim e para um pequeno grupo de privilegiados no minúsculo Trianon Piano Bar do Maksoud Plaza. Cauby cantando Bastidores no Beco de São Paulo. Dick Farney em um decadente teatro do centro de São Paulo, cujo nome esqueci.

Barry Manilow, o meu maior guilty pleasure, no Radio City de NYC, o homem que a Rolling Stone chamou de o maior showman de nossa geração, cantando a Mandy de infinitos bailinhos.

re e barry.jpg

Vi Madonna do Estádio do São Paulo e achei que toda a pirotecnia do show servia apenas para esconder sua falta de talento. (Lembro dela na entrega do Oscar de 1991, tremendo como vara verde ao tentar a canção do Sr. Stephen Joshua Sondheim para Dick Tracy "Sooner or Later" - alegadamente, ao ouvir a canção pela primeira vez, ele teria perguntado "Que merda é isso?").

Dois me escaparam: Mel Tormé cancelou de última hora sua visita a São Paulo, me privando da única chance de ouvir pessoalmente The Velvet Fog. Keith Jarrett implicou com o piano colocado à sua disposição no Palácio das Convenções de São Paulo e cancelou o show.

Bem, depois de tudo isso, o que lembro com mais emoção?

Foi no velho Teatro Bandeirantes, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio, de São Paulo.

César Camargo Mariano ao piano. Começava a tocar Tatuagem. Elis Regina caminhava por trás dele, o abraçava, e cantava a canção como nunca mais ninguém será capaz de fazer. Só quem viu Elis ao vivo sabe que aquela mulher baixinha, com pouco mais de um metro e meio de altura, conseguia virar uma gigante no exato instante em que tocava o microfone. Subitamente, não havia ninguém maior que ela no palco.

Alias, ainda não há. Se eu tivesse que rever apenas um dos momentos que vivi diante de um palco, seria uma pena.

Mas eu escolheria este.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/// //Renzo Mora