renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

O Maior Cantor da Argentina

Não, não Carlos Gardel. Um senhor chamado Benjamin


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Não, não era Carlos Gardel.

Este nasceu em algum lugar que não era a Argentina.

Pode tanto ter sido no interior do Uruguai quanto na cidade francesa de Toulouse.

Ninguém sabe ao certo e Gardel aumentava o mistério dizendo: "Nasci em Buenos Aires aos dois anos e meio de idade".

Tudo bem, hermanos porteños.

A brasileiríssima Carmem Miranda era portuguesa de Marco de Canaveses, do Distrito do Porto.

Mas quem nasceu para valer em Buenos Aires, incontestavelmente, com todos os devidos registros, foi Richard Benjamin "Dick" Haymes, mais precisamente em 13 de Setembro de 1918, o que faz dele o maior vocalista legitimamente filho de solo argentino.

Para se ter uma ideia do peso do hoje quase esquecido Haymes, quando Francis Albert Sinatra (Você sabe, aquele senhor que pode ou não ser o pai do filho de Woody Allen) abandonou a banda de Tommy Dorsey em 1942, quem ocupou seu lugar no microfone foi ele.

Haymes era um grande barítono, no nível de Bing Crosby ou mesmo de Sinatra.

E, claro, não atrapalhava muito o fato de ainda por cima ser bonitão.

O fato de nunca ter recebido o reconhecimento que merecia pode ter a ver com o local de seu nascimento.

Não, nada de preconceito contra latinos.

Simplesmente, para evitar a convocação durante a Segunda Guerra Mundial, Haymes alegou que era argentino, país neutro na época. As serpentes venenosas que cobriam Hollywood – as infames e poderosas colunistas de fofocas Louella Parsons e Hedda Hopper – começaram a questionar seu patriotismo.

E talvez seus problemas tenham piorado quando encontrou uma deusa de origem latina nascida em Nova York chamada Margarita Carmen Cansino – que você deve conhecer por seu nome artístico de Rita Hayworth.

Rita era uma ótima parceira de copo. Excelente.

Talvez boa demais para a saúde do casal, que mergulhou junto em uma piscina de bebidas.

Casaram em 24 de Setembro de 1953.

Haymes estava então em seu terceiro casamento - com a ex-esposa de Errol Flynn, Nora Eddington.

Haymes largou Nora para ficar com Rita.

E Rita largou Aly Khan por Haymes.

Separar do Príncipe Aly Khan, filho do sultão e líder islâmico Mahommed Shah, não foi, como você deve imaginar, muito fácil.

Khan queria manter a custódia da filha deles.

E era rico.

Imensamente rico.

Dick, por sua vez, não era exatamente rico.

Esta é uma forma gentil de dizer que ele estava totalmente quebrado ao cruzar seu caminho com o de Rita.

Suas duas ex-esposas estavam processando o cantor por pensões alimentícias atrasadas.

A situação ficou tão caótica que Haymes não podia pisar no Estado da Califórnia sem ser preso.

Rita acabou pagando as enormes dívidas de Haymes.

Não muito grato à nova esposa, Haymes estapeou Hayworth no rosto em 1955.

A agressão ocorreu no concorrido nightclub Coconut Grove de Los Angeles - não exatamente o lugar mais discreto para este tipo de escândalo.

Rita afagou o rosto estapeado e achou que tinha passado da hora de desembarcar da relação de dois anos.

A repercussão do caso não fez exatamente maravilhas para a já decadente reputação do cantor.

A década de 1950 viu Haymes se afundar ainda mais em álcool e dívidas – desta vez, entre outros credores, estava o implacável Imposto de Renda americano (que, como Al Capone poderia te contar, era o pior inimigo que alguém poderia arrumar).

Foi quando ele decidiu partir para a Europa na década de 1960.

O sucesso por lá foi modesto e Haymes voltou aos EUA para ser apenas um coadjuvante eventual em seriados de TV dos anos 1970 como McCloud, McMillian & Wife, The Merv Griffin Show e The Dinah Shore Show.

Na época de seu retorno aos EUA, Haymes já não entrava em um estúdio há muito tempo.

Em 1976, ele voltou a gravar e o resultado está em seu álbum testamento, Keep It Simple, uma maravilha em que ele é acompanhado apenas por um trio de piano, baixo e bateria.

Pode ter sido uma opção artística. Manter a coisa simples, como diz o título do disco.

Pode ter sido falta de dinheiro para contratar arranjador e banda.

O resultado, entretanto, é nada menos que extraordinário.

Indiferente ao caos de sua vida pessoal, a voz continuava lá.

Perfeita. Precisa. Emocionante.

Impossível pensar em tudo o que perdemos nestes anos em que Haymes ficou afastado das gravadoras.

Poderia haver uma retomada com estas novas gravações? Uma redescoberta de seu valor?

Não saberemos.

Não houve tempo.

Em 28 de março de 1980, aos 61 anos, ele morreu em Los Angeles vítima de câncer de pulmão.

Mas a música que ele interpretou nos deixa em dívida eterna com a Argentina.

Ela nos deu um dos maiores cantores da história.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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