renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Por que o Lobo de Wall Street virou uma comédia?

Como Hollywood só consegue tratar como piada as realidades mais loucas que a ficção


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O livro “O Informante”, escrito por Kurt Eichenwald, provavelmente é um dos mais fascinantes que já li. Não funciona como ficção, já que os acontecimentos são tão improváveis que desafiam o princípio de “suspensão da incredulidade”.

Nossa tendência seria a de rejeitar o livro, por ser muito irreal. Irreal em um nível demente.

O que nos prende ao livro é o fato dele ser uma reportagem sobre um evento verdadeiro: O envolvimento do executivo Mark Whitacre na formação de um caso contra a toda poderosa ADM, uma das maiores corporações do mundo. Whitacre confessou ao FBI que a ADM (com sua ajuda) participava de um cartel para fixar os preços da lisina, um aditivo alimentar.

Só que Whitacre, sem que o FBI soubesse, desviou 9 milhões de dólares da empresa ENQUANTO TRABALHAVA COMO INFORMANTE DO FBI e estava sendo vigiado e grampeado o tempo todo.

Nenhum ficcionista seria capaz de criar um cenário tão absolutamente demente.

Outro livro genial é The Hoax.

Um escritor chamado Clifford Irving ofereceu à sua editora, a toda-poderosa McGraw-Hill, a biografia do bilionário recluso Howard Hughes, que ele estaria escrevendo em parceria com o conhecido lunático.

Sua aposta é que Hughes não sairia de seu exílio para contestar a estória.

A biografia era uma fraude e Clifford acabou preso por 17 meses pela travessura.

Ambos viraram filmes infinitamente inferiores à realidade.

The Hoax é um filme esquecível (ainda que divertido) dirigido por Lasse Hallström e estrelado por Richard Gere. “Se eu fosse aquele cara do filme, eu me matava” disse Irving.

The Informant! Virou uma comédia ligeira dirigida por Steven Soderbergh e com Matt Damon no papel de Whitacre.

Pain & Gain também trabalha no terreno da comédia ao contar um crime inacreditável cometido por levantadores de peso. A história real é um drama complexo, com tortura, assassinato e mutilação de cadáveres.

Agora temos The Wolf of Wall Street, de Martin Scorsese.

Nele, a vida real de um conhecido criminoso e fraudador chamado Jordan Belfort (interpretado por Leonardo DiCaprio – que também viveu o vigarista real Frank Abagnale em Catch Me If You Can de Steven Spielberg - outro que caminha pela comédia, ainda que que com momentos dramáticos) se transforma em uma comédia de humor negro em um ritmo tão veloz que parece movido pelas toneladas de cocaína que Belford cheirava.

As vítimas dos golpes de Belford (hoje – acredite – palestrante MOTIVACIONAL!!!) , um repassador de papéis podres da bolsa, reclamaram do tom do filme, simpático ao vigarista - ignorando as perdas milionárias que os arruinaram.

Não que Wolf seja ruim – pelo contrário. É um grande Scorsese.

Mas ele apenas confirma uma tendência estranha: Quando a realidade é mais louca que a ficção, os cineastas adotam a linguagem da comédia.

Parece ser o único caminho para vender a loucura para os espectadores.

Quando a realidade se torna demasiadamente louca, rir talvez seja a única resposta.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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