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Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Quase 40 anos depois, Stephen King Revisita O Iluminado

É preciso coragem para voltar a um de seus principais livros. Mas Doctor Sleep não chega lá.


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Quase todo mundo considera “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, uma obra-prima – não do cinema de terror, mas da sétima arte, transcendendo o gênero.

Alguns poucos odeiam o filme. Entre estes poucos, um nome se destaca: o de Stephen King, nada menos que o autor do livro. “Eu venho admirando Kubrick por muito tempo e tinha grandes expectativas sobre este filme, mas fiquei profundamente desapontado com o resultado final... O que está basicamente errado com O Iluminado é que se trata de um filme feito por alguém que pensa demais e sente muito pouco” disse King.

Poderia ser ciúme da enorme repercussão do filme, que talvez tenha colocado seu livro em segundo plano?

Não acredito nisto.

Frank Darabont dirigiu 3 filmes baseados em obras de King, um deles digno de uma das melhores novelas do autor, The Green Mile, e dois que ampliaram e melhoraram seus contos - The Shawshank Redemption e The Mist (no último, aliás, o final criado pelo diretor é infinitamente melhor que o do escrito original).

King nunca se queixou.

O problema entre King e Kubrick parece ser de ordem pessoal.

The Shining (aliás, “A Aura” me parece um nome muito mais apropriado para o fenômeno descrito na obra) foi escrito como forma de exorcizar, a um só tempo, o alcoolismo do pai do autor e seus próprios problemas com álcool e drogas.

O pai de King era um bêbado chamado Stephen Edwin King que abandonou a esposa e os filhos quando King tinha apenas dois anos de idade.

E, como King admitiu, ele mesmo, quando bêbado, repetia o comportamento paterno e tinha impulsos de agredir seus próprios filhos. “Eu queria agarrar e bater neles. Mesmo que eu nunca tenha feito isso, eu me sentia culpado por estes impulsos brutais. Eu não estava preparado para a realidade de ser pai” contou King.

Então ele pensou que se escrevesse sobre as coisas terríveis que passavam por sua cabeça, aquilo poderia desaparecer e nunca acontecer de verdade.

Foi assim nasceu The Shining.

Kubrick entrou no meio do acerto de contas de King com seus demônios - uma guerra na qual ele talvez não pudesse admitir a presença de estranhos.

King escreveu quantidades industriais de livros – e, não surpreendentemente, a qualidade de seus trabalhos varia. Alguns são excelentes, como The Stand , Pet Sematary e a maior parte de seus livros de contos.

Outros, como Bag of Bones ou From a Buick 8, estão muito abaixo de seus pontos altos – ainda que mesmo o pior King seja superior ao melhor Haruki Murakami, para ficar em apenas um exemplo.

The Shining está, sem dúvida alguma, no topo da pirâmide. Por isso mesmo, não deixa de ser um gesto de coragem retomar a estória quase 40 anos depois.

E é justamente isto que ele faz em “Doctor Sleep”. Nele, reencontramos Danny Torrance, o menino com a aura, agora com 40 anos e trabalhando em um asilo onde ajuda idosos a realizarem a passagem (Daí o Doutor Sono do título). Dan, assim como o pai, tornou-se um alcoólatra agressivo. Alguns dos fantasmas do antigo hotel Overlook aparecem logo no início - mas a solução para se livrar deles parece fácil demais. A evolução dos eventos vai levar Dan – já sóbrio – de volta às ruínas do já destruído hotel para confrontar velhos fantasmas.

Doctor Sleep não é um livro ruim. King parece incapaz de produzir este tipo de coisa. Mas é uma continuação menor comparada à obra original- e não vai ficar na lista dos melhores trabalhos de King.

O antigo hotel era uma cápsula de medo, solidão e angústia.

O novo livro tem lá seus momentos, mas não nos leva nem de volta à vizinhança do velho Overlook.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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