renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Emílio Santiago: Nat King Cole em Saigon

Talvez Emílio Santiago tenha sido maior que Nat King Cole. Mas o repertório imposto a ele deixa a questão em aberto.


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Quando Emílio Santiago morreu, muitas pessoas lembraram-se de Stephen Holden, crítico do New York Times, que escreveu em 2009: “A suavidade foi incorporada pelo Sr. Santiago, que é tido como o Nat King Cole do Brasil, que vem gravando desde o meio dos anos 1970 e que fez sua estreia no clube (O Birdland de NYC). Como sua voz é mais rica e profunda que a de Cole, a comparação só se justifica pelo fato de ambos serem refinados cantores de baladas. O canto do Sr. Santiago tem um lado fortemente inclinado para o samba”.

Santiago deve ter ficado orgulhoso de ter sua voz classificada como mais rica e profunda que a de Cole.

Mas Cole possivelmente também não ficaria incomodado em ser comparado a um grande artista como Emílio.

Quando Santiago apareceu no cenário brasileiro, estava no momento errado.

Era um tempo de cantoras.

Desde as excepcionais – como Elis e Gal; passando pelas divas dramáticas – como Bethânia e Nana Caymmi; as chatas engajadas – como Simone; as medianas – como Zizi Possi; até as excentricidades como Elba Ramalho.

As vozes masculinas – salvo as daqueles que escreviam suas próprias canções e que podiam ser grandes cantores (como Milton Nascimento ou Caetano) ou intérpretes apenas esforçados (como Chico Buarque ou Ivan Lins) – estavam em baixa.

A voz de Santiago era tão peculiar, tão rica, tão cheia de possibilidades, que as gravadoras não sabiam exatamente o que fazer com ele. O colocaram para cantar baladas sem sal (com arranjos de segunda categoria, cheios de teclados que as tornaram datadas quase que imediatamente depois do lançamento) ou "sambões-joia" que, pela própria estrutura rítmica, limitavam o cantor.

Veio o tempo das “Aquarelas”, grandes sucessos comerciais, onde canções eram aleatoriamente reunidas em pot-pourris que não faziam o menor sentido. Ganha um doce quem tentar entender o critério que fazia os produtores agruparam certas canções em uma mesma gravação (O autor? O tema? Sorteio?). Os arranjos mais uma vez eram medíocres, infinitamente inferiores ao que Santiago merecia. Mas vendiam. E muito. A coleção das aquarelas alcançou a impressionante marca de 4 milhões de álbuns.

Nos anos 2000, depois de se mostrar capaz de vender, Emílio pôde escolher o que queria fazer. Vieram o encontro precioso com João Donato (2003 - Emílio Santiago Encontra João Donato)

e os sofisticados De um jeito Diferente (2007) e seu testamento Só Danço Samba (2010) – álbuns que marcaram seu retorno ao refinamento de seu álbum em homenagem a Dick Farney - Perdido de amor, de 1995.

A canção mais associada a Emílio acabou sendo Saigon, que ele lançou em 1989.

Não que seja uma canção ruim, mas nosso Nat King Cole merecia uma marca à altura do Unforgettable do seu par americano.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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