renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Wadd. Johnny Wadd

A franquia cinematográfica mais lucrativa de todos os tempos e como John Holmes reinventou o cinema noir


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A franquia cinematográfica James Bond completou 52 anos com saúde exuberante. Resistiu à saída de Sean Connery, à desastrosa escalação de George Lazenby, ao deboche de Roger Moore, à falta de graça de Timothy Dalton, ao carro invisível de Pierce Brosnan, ao flerte gay de Daniel Craig com Javier Bardem e, no plano político, ao fim da Guerra Fria.

Enfim, parece um sucesso financeiro inquestionável.

Mas, em termos de retorno sobre o investimento, Bond não chega nem perto do maior fenômeno cinematográfico de todos os tempos: a série com o detetive Johnny Wadd, criação do diretor e roteirista Bob Chinn.

Wadd (uma combinação de Sam Spade, Philip Marlowe e o obelisco do Ibirapuera) aparece como protagonista em 10 filmes realizados entre 1971 e 1986 - Johnny Wadd (1971); Flesh of the Lotus (1971); Blonde in Black Lace (1972); Tropic of Passion (1973); Liquid Lips (1976); Tell Them Johnny Wadd Is Here (1976); The Jade Pussycat (1977); The China Cat (1978); Blonde Fire (1978) e The Return of Johnny Wadd (1986 - este ultimo dirigido por Patty Rhodes).

Se a série foi interrompida prematuramente não foi por desinteresse do público - e sim porque Wadd (ao contrário de Bond) é indissociável de seu intérprete, uma lenda chamada John Holmes.

O que distinguia Holmes – e o qualificava para ser o único intérprete aceitável do detetive Wadd, apesar de suas deficiências estéticas e de sua precariedade como ator – era um pênis que, quando animado, alcançava 33 centímetros.

Johnny Wadd editado em versão familiar

Biologia é destino, como cansava de lembrar o grande Paulo Francis.

Não fosse por esse detalhe anatômico, talvez Holmes estivesse aposentado da carreira de motorista de ambulâncias, ainda ao lado da enfermeirinha virgem com quem casou aos 21 anos (e, claro, sem os filmes, as vizinhas nunca teriam sabido a razão do sorriso de superioridade que, imagino, estampasse diariamente o rosto da Sra. Holmes).

Mas o destino o pôs no lugar certo, na hora certa - e com o tamanho mais que certo.

Após uma série de batalhas legais, no início dos anos 70 o pornô tinha finalmente chegado aos cinemas públicos – em 1972 “Garganta Profunda” arrecadou milhões e provocou um impacto cultural tão forte que acabou batizando o informante anônimo do caso Watergate.

Assistir “Deep Throat” tornou-se uma espécie de obrigação social, cunhando o termo “pornô chic”.

O ensaísta Christopher Hitchens coloca o filme entre as principais razões que tornaram a felação “tão americana quanto torta de maçã”, complementando “Dick Cavett declarou que nós fomos de olhar para uma marquise onde está escrito Garganta Profunda e torcer para aquilo não querer dizer o que nós achamos que dizia para “garotos que nem sequer consideram (a felação) como sexo de verdade”

Entre os espectadores que formaram filas na porta dos cinemas, estavam nomes como o do escritor Truman Capote, o apresentador de talk shows Johnny Carson e o diretor Mike Nichols.

O vice-presidente norte-americano Spiro Agnew assistiu à uma exibição privada na casa de Frank Sinatra em Palm Springs.

Sammy Davis Jr. fechou o cinema Pussycat em uma sessão privada para amigos como Shirley MacLaine, Lucille Ball, Steve Lawrence e Edie Gourme (O Trio Los Panchos não foi incluído - e não, você provavelmente não tem idade para pegar esta referência).

Ou seja – Holmes surge no cenário exatamente quando o pornô começa a virar cool.

Com a explosão do gênero, houve uma corrida para produzir novos filmes e Holmes rapidamente foi descoberto.

Com US$ 750,00 (de budget total - incluindo o salário de TODOS os atores) e apenas uma diária de filmagem, Chinn produziu o primeiro filme estrelando o astro no papel do detetive noir Johnny Wadd, cujo estrondoso sucesso gerou uma série e fez de Holmes, com seus terninhos apertados de três peças e indefectíveis óculos escuros Ray Ban, um ícone dos anos 70 e a quintessência do cool para toda uma geração.

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Com o sucesso do filme, os produtores pediam cada vez mais filmes com Wadd – e o salário de Holmes escalou até 3000 dólares (um ultraje, perto dos milhões que estes filmes fizeram nas bilheterias, mas uma fortuna perto do que ganhavam os demais atores do gênero)

E, então, você já viu este filme.

Grana e adulação em excesso acabam levando a um pouco de maconha de vez em quando e, na sequência, à toneladas de cocaína e Valium diárias.

Holmes, segundo alguns amigos, começou a embaralhar a realidade e a ficção. Às vezes pensava que era um detetive de verdade, capaz de solucionar crimes.

Nos difíceis anos pré-Viagra, o consumo paquidérmico de substâncias não controladas pelo FDA acabou comprometendo o desempenho do astro (parafraseando Gay Talese, Holmes impotente é um Picasso sem tinta, uma Ferrari sem gasolina...)

Meio afastado das telas, Holmes buscou fontes alternativas de renda e se aproximou de traficantes – não raro trocando os favores de sua namoradinha (então com quinze anos de idade) por mercadorias.

Neste processo ele conheceu uma gangue de traficantes que se reunia em Los Angeles em uma casa na rua Wonderland (ou “País das Maravilhas”, para usar a tradução do título do livro mais conhecido de Lewis Carroll)

A passagem de Holmes pelo mundo de Alice foi traumática. Encarregado pelos traficantes de transportar uma carga de drogas, ele desapareceu com a encomenda narinas abaixo.

A falta de profissionalismo do performer não deixou felizes os comerciantes, que o obrigaram a surgir com algum tipo de reparação.

Esta veio através da facilitação do acesso à mansão de outro traficante – o libanês Eddie Nash, que poderia passar facilmente por irmão gêmeo do mafioso ítalo-brasileiro Tomasso Buschetta – o que, convenhamos, não chegava a ser uma vantagem para nenhum dos dois.

Depois de uma visita, Holmes saiu da mansão e deixou a porta aberta para a entrada da carrolliana troupe, que o assaltou e cometeu o erro de deixar o concorrente vivo e um pouco irritado.

Os informantes de Nash rapidamente o levaram até Holmes e este até a sede da organização.

O reencontro entre Nash e os homens que o tinham assaltado não foi bonito.

Resultou em um banho de sangue com quatro mortos, espancados com um pedaço de ferro. A impressão da palma da mão de Holmes na parede sobre uma das vítimas sugere que ele tenha sido mais que um mero espectador no massacre.

Ironicamente, o primeiro crime de verdade com a presença de Johnny Wadd foi um dos mais selvagens que Hollywood já viu - e ele (ao contrário da ficção) estava ao lado dos criminosos.

Mas, como nada ficou provado no tribunal, Holmes saiu livre da prisão e pronto para um novo relacionamento – desta vez com uma atriz pequena e especialista em sexo anal (aliás, duas características que o bom senso recomendaria manter o máximo de distância do astro) chamada Laurie “Misty Dawn” Rose, que se tornaria sua última esposa.

Em busca de novas formas de expressão de sua arte, Holmes fez um filme gay com um ator que pouco tempo depois morreria de AIDS.

Holmes descobriu que estava contaminado em 1986, o que não o impediu de continuar a atuar sem proteção – incluindo um filme em que contracenava com a parlamentar Cicciolina – a coisa mais embaraçosa que já tinha acontecido na política italiana até a eleição de Silvio Berlusconi (Cinicamente, ele dizia que todos no ramo iam morrer de AIDS de qualquer forma, então ele não se importava de ameaçar a vida dos parceiros de cena)

A morte chegou em 13 de Março de 1988, depois de dois anos de ingestão suicida de todas as drogas disponíveis na cidade dos Anjos.

Em uma tentativa meio desastrada de homenageá-lo, a não muito brilhante Laurie declarou: “Saibam todos que o coração e a alma dele eram muito maiores que o seu pau”.

Holmes, a mais definitiva lenda do pornô, merecia partir com uma eulogia melhor.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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