renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Robert Redford Nos Dá Um Dos Melhores Filmes do Ano

Essencialmente, All is Lost é Gravity no Mar. Mas é muito mais que isso.


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“13 de Julho, 04:50. Eu sinto muito ... Eu sei que significa pouco a esta altura, mas eu sinto muito. Eu tentei, eu acho que todos vocês podem concordar que eu tentei. Tentei ser sincero, ser forte, ser gentil, amar. Mas não consegui. E eu sei que vocês sabiam disso. De todas as formas possíveis. E eu sinto muito. Tudo está perdido aqui ... exceto a alma e o corpo ... isto é, o que sobrou deles ... e ração para meio dia. É imperdoável, realmente, eu sei disso agora. Como é que levou tanto tempo para admitir que eu não tinha certeza ... mas levou. Lutei até o fim, não tenho certeza de que tenha valido a pena, mas eu lutei. Eu sempre torci para que vocês conquistassem mais... Eu vou sentir sua falta de vocês. Sinto muito.”

Poderia ser o epitáfio de qualquer um de nós, mas estas são algumas das poucas palavras do “homem”, o personagem cujo nome não sabemos e que Robert Redford (com inacreditáveis 77 anos!!!) interpreta no grande “Até o Fim” (All is Lost, 2013).

O filme estreou em 25 de Outubro de 2013 nos EUA. Pouco antes, em 4 de Outubro, outro filme que contava a mesma estória chegou aos cinemas americanos: Gravidade, de Alfonso Cuarón.

Isto é importante para destacar que não houve plágio. Ambos contam a saga de um ser humano isolado cujo desejo de sobrevivência é testado até o limite. Gravidade é mais suntuoso, com grandes efeitos especiais, tem mais diálogos, interação entre personagens (até a desnecessária intervenção de um fantasma), entendemos quem é a astronauta Ryan Stone, vivida por Sandra Bullock. Sabemos que sua filha morreu em um acidente.

No caso da personagem de Redford, nada nos é oferecido. Ele não busca nossa empatia fácil. Sabemos que ele está sozinho no meio do mar. Ele é prático. Ao invés de rezar ou praguejar (exceto quando se torna compreensivelmente obrigatório), de tentar estabelecer algum diálogo com a audiência, fornecer algum background que nos aproxime dele, ele tenta apenas consertar seu barco. O filme de Redford é para baixo – desde o título, aliás. Todos os seus esforços de sobrevivência são anulados pela indiferença da natureza. Uma natureza tão indiferente quanto os navios que ele avista de longe, em seus esforços desesperados para ser notado e resgatado.

Como escreveu Stephen Marche na Esquire americana: “All is Lost contém uma daquelas raras performances realmente importam. Além de um monólogo de abertura, o personagem sem nome de Redford fala cinco palavras durante todo o filme. No entanto, Redford consegue nos envolver em uma narrativa longa e cativante usando apenas uma gama extraordinariamente limitada de movimentos ao redor do barco e o instrumento incrivelmente expressivo que é seu rosto. Mas seu desempenho também é uma escolha que exige uma coragem imensa. All Is Lost é um dos grandes filmes sobre o envelhecimento e a morte. Normalmente Hollywood prefere que suas velhas estrelas finjam que simplesmente não estão envelhecendo... Redford apostou alto com este papel e valeu a pena: É uma abordagem genuinamente original sobre a mortalidade.”

No final, o que resta é a declaração patética de que tentamos e fracassamos. Vale para a personagem solitária de Redford. De fato, vale para todos nós. Talvez por nos lembrar disto, um fato tão dramaticamente universal e verdadeiro, o filme não tenha tido o reconhecimento que merecia.

A mensagem é intolerável para a maioria. Mesmo se levada por uma obra tão essencial quanto “All is Lost”


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Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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