renzo mora

Cultura Pop, Pretensão e Água Benta

Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo"

Marlon Brando e o Diabo

Grandes artistas, cuja principal matéria prima é o talento - fenômeno frequentemente relacionado com empatia e sensibilidade – podem ser monstros na vida pessoal.


Brando.jpg As obras de François Forestier não primam exatamente pela precisão histórica. Seu livro "Marilyn e JFK" era uma combinação eficiente de fato e ficção que embaralhava propositalmente as linhas, usando dados reais e acrescentando invenções para dar um tom de roman noir à narrativa. Ele repete a técnica em sua biografia de Marlon Brando. a_face_sombria.jpg Mas, por maiores que sejam as liberdades literárias adotadas pelo escritor, um fato central é inegável: Brando era um monstro, um homem que seduzia e abandonava amantes de ambos os sexos, um pai relapso, um amoral que espalhava desespero e morte entre os que conviviam com ele. Nada de muito original: Pablo Picasso era outro gênio que tornava a vida de seus familiares e amigos um inferno: seu primeiro neto Pablo cometeu suicídio no dia do funeral do avô, ele destruiu emocionalmente várias de suas amantes - o quadro "The Weeping Woman" é uma representação cruel de sua ex Dora Maar chorando. “Dora, para mim, era sempre a mulher chorando.. e é importante porque mulheres são máquinas de sofrimento” explicou o pintor. Mas, mesmo para os padrões estabelecidos por Picasso, Brando era um instrumento insuperável para disseminar devassidão e miséria. Um amante em série que nunca chegou a saber exatamente quantos filhos tinha gerado (16 é o número mais convencionalmente aceito). Brando infernizou a todos com quem conviveu - incluindo colegas, diretores e roteiristas. Quando o produtor Robert Evans e o diretor Francis Ford Coppola decidiram levar o livro “O Poderoso Chefão” às telas, discutiram qual deveria ser o ator para interpretá-lo. A primeira escolha do diretor foi o ator shakespereano Sir Laurence Olivier. Como ele não estava disponível, surgiu o nome do antigo namorado do mestre inglês: Brando. O caso entre ambos era surreal. Durante as filmagens de “Uma Rua Chamada Pecado”, Marlon Brando manteve um romance com a atriz Vivien Leigh, na época morando com o marido Laurence Olivier em uma mansão em Coldwater Canyon, onde dormiam em quartos separados. Como ela mesma contou ao diretor Elia Kazan “às vezes eu vejo uma luz no quarto de Larry e eu assumo que ele e Marlon estejam fazendo as coisas que os homens fazem quando vão para a cama juntos... mas uma coisa eu tenho que falar do Marlon: quando se trata de casais, ele é um sedutor democrático. Muitas noites ele sai do quarto de Larry e vem para o meu.” O ator David Niven chegou a flagrar Brando e Olivier nus e aos beijos na piscina da mansão do inglês. O complicado arranjo teria terminado depois de uma cena de ciúmes de outro namorado de Olivier, o ator Danny Kaye, que estapeou Brando em uma festa. Depois disso, Brando escreveu um bilhete endereçado ao casal, agradecendo a hospitalidade e dizendo que era hora de seguir em frente. Desapareceu da vida dos dois - como faria com muitos de seus casos. Na época da seleção de elenco do Chefão, Marlon vinha de uma fase ruim, com seguidos fracassos de bilheteria incluindo "Os que Chegam com a Noite" e "A Volta do Parafuso". Foi quando Mario Puzo, autor da obra, começou a campanha por sua contratação. Brando leu o livro enviado por Puzo e desdenhou dele como ficção barata. Evans, o produtor, não parecia entusiasmado: “Brando é complicado e pouco cooperativo. Além disso, ele é capaz de trepar com sua mulher ou com sua amante logo atrás de você”. Puzo insistiu e Brando passou pela humilhação de um teste de vídeo (pouco habitual para um ator consagrado), realizado em sua própria mansão, na qual teve a ideia de rechear as bochechas com lenços de papel. No final, a crítica e o público, em um raro consenso, provaram que Puzo estava certo e que Brando era a melhor escolha para o chefão inventado pelo escritor. Foi quando emergiu o Brando sedutor para uma audiência completamente nova e perigosa. De repente, mafiosos de verdade queriam conhecer Brando. Uma delegação da Cosa Nostra foi aos estúdios para garantir que a palavra “Máfia” nunca fosse mencionada no filme, o que asseguraria a plena cooperação dos sindicatos na filmagem. Acompanhando o grupo, o chefão Joe Bufalino foi levado por Brando para um tour pelo estúdio e ficou encantado com o astro. Como escreveu Roger Ebert, em “A Magia do Cinema”: “A performance de Brando é justificadamente famosa e muitas vezes imitada. Sabemos tudo a respeito das suas balofas bochechas e sobre a utilização de escoras, como o gatinho na cena inicial. São as ferramentas dos atores. Brando as utiliza, mas não depende delas. Ele corporifica tão bem o seu personagem que no final, quando adverte o filho por duas ou três vezes que “o homem que vier marcar um encontro com você... este é o traidor”, não estamos pensando numa representação. Ficamos pensando que o Dom está envelhecendo e se repetindo, mas também somos levados a pensar que está absolutamente certo... Quando o velho homem cai morto no meio de sua plantação de tomates, sentimos que um gigante acabou de nos deixar...” Roger Ebert sempre se maravilhou com o uso refinado que Brando fazia das tais escoras. Além do gato em “The Godfather”, ele comentou outro momento do ator em “Sindicato de Ladrões”: “(Brando) ficou famoso pela sua escolha de gestos físicos durante cenas cruciais... Em Sindicato de Ladrões há um momento em que Terry (O estivador interpretado pelo ator) sai para dar uma volta no parque com Edie (Eva Marie Saint)... e ela deixa cair uma luva. Ele a apanha e, em vez de devolvê-la, a coloca sobre a mão de trabalhador. Um plano rápido no limite da cena, mas que proporciona textura”. Budd Schulberg, o roteirista de “Sindicato de Ladrões”, que estava lá acompanhando a rodagem, acrescentou outras informações sobre esta cena em especial: “Muitas e muitas vezes ele (Brando) acrescentou detalhes sensíveis. Quando ele anda com Eva Marie Saint através do parque do qual se avista o Rio Hudson, em sua primeira e indireta tentativa de cena romântica com ela, acidentalmente a luva longa e branca dela cai no chão, e, ao invés de devolver a ela com elegância convencional, Marlon surpreendentemente a coloca em sua própria mão e começa a balançá-la – uma simbolização adorável do lento despertar do desafio da pureza que começa a mexer com sua consciência. Isso não estava nas minhas anotações nem foi sugerido por (Elia) Kazan (o diretor). Era puro Brando – e o que Kazan queria dizer quando disse que Brando tinha algo indefinível. A palavra que vem a mente é usada com certo exagero em Hollywood, mas aqui vai: Gênio”. No início dos anos 90, quase 20 anos depois de estrelar “O Poderoso Chefão, filmando “Um Novato na Máfia”, uma comédia menor em que parodiava o Dom Corleone, ele foi convidado para encontrar-se com o criminoso John Gotti em um restaurante. O fascínio dos gangsters com o ator não tinha terminado. Como o próprio Brando contou em sua biografia “Gotti estendeu a mão mas não se levantou. Acho que não quis se humilhar diante dos outros demonstrando respeito, por isso continuou sentado e sorriu, depois me apresentando aos amigos, um grupo extraordinário de personagens saídos diretamente do anuário da Máfia.” Sem nenhuma razão, na falta de assunto melhor, Brando decidiu fazer um truque de cartas para Gotti usando um baralho marcado que levava no bolso. Para a maior parte dos seres humanos, talvez não fosse a melhor ideia do mundo testar o senso de humor de um dos últimos grandes chefes da Máfia, que tinha alcançado o comando de uma importante família nova-iorquina com base em uma série de assassinatos. Mas Brando, sabemos, não era feito da mesma matéria prima que a maior parte da humanidade. Feito o truque, “... a sala toda ficou silenciosa como um cemitério à meia noite; o único ruído era o de alguns pés mudando de posição. Subitamente, eu percebi o que todo mundo pensava: “Será que ele está tentando fazer o chefe de bobo na frente dos homens dele?”... Dava para sentir a energia na sala enquanto eles jogavam mentalmente os ombros para trás e se perguntavam “Será que este cara está tentando ser desrespeitoso com John?”. Obviamente, ninguém tinha achado aquilo engraçado. -Muito obrigado, Sr, Gotti – eu disse, depois de uma pausa incômoda – foi bom falar com você – E saí sem dizer nada, a não ser adeus. Mais tarde um mafioso me ligou dizendo que Gotti queria me convidar para assistir a uma luta de boxe profissional”. Gotti também estava fisgado pelo charme do veterano ator. Lidar com mafiosos – correndo o risco de enfurecê-los no primeiro encontro – era típico de Brando, um artista incapaz de levar qualquer coisa a sério, incluindo seu ofício, ainda que seja o maior ator todos os tempos. Como escreveu Truman Capote “Brando fez a primeira viagem à Costa Oeste em 1949, quando ganhou o papel principal em The Men... Foi acusado na época de conduta antissocial, criticado pelo seu estilo de se vestir, com jaqueta de couro preto, por sua preferência por motocicletas em vez de Jaguar... ademais, os colunistas de Hollywood rechearam seus textos com comentários hostis por causa da atitude dele em relação à indústria cinematográfica... como dizer: 'A única razão para eu estar aqui é não ter coragem moral para recusar o dinheiro' Nas entrevistas ele sempre repetia que se tornar 'um simples ator de cinema' era a coisa mais distante possível de seus planos”. Quando Liv Ullman anunciou o vencedor do Oscar de melhor ator em 1972, quem subiu ao palco não foi Brando, o ganhador por “O Poderoso Chefão” mas sim uma índia falsa (Maria Cruz, que dois anos antes tinha ganhado o prêmio de Miss Vampira América e se apresentou com o nome de Sacheen Littlefeather) para recusar o prêmio em seu nome, alegadamente pela forma como os índios americanos eram apresentados nos filmes. “Não censuro quem pensa de outra forma, mas nunca dei muita importância à atribuição de prêmios a atores; acho isso impróprio. A cerimônia de entrega dos prêmios da academia e todo o estardalhaço que a cerca eleva a representação a um nível que considero indigno” escreveu Brando em sua autobiografia, acrescentando: “A pior coisa que pode acontecer quando alguém fica famoso é acreditar nos mitos criados sobre ele, coisa que nunca fiz... eu poderia ter escolhido uma trilha menos pútrida para seguir, mas sem ter contado com uma educação secundária e sem ter ideia de que ao me tornar famoso me aproximaria de uma usina de lixo; fui obrigado a cultivar uma indiferença diante das consequências de tudo isso... nunca tive paixão por representar, a não ser para suprir as necessidades de minha vida... se um estúdio cinematográfico oferecesse a mesma quantia que eu ganho para representar para varrer o chão, eu varreria.” Brando não se levava a sério em nenhuma circunstância. Nunca se preocupou em fazer o mínimo esforço para preservar sua imagem. Além do desprezo pela sua profissão (uma lembrança interessante para quando o leitor for arrastado para uma daquelas palestras motivacionais – não raro apresentadas por atletas semianalfabetos - onde é “revelado” que a chave do sucesso é a paixão pelo trabalho...), deixou-se fotografar fazendo felação em seu melhor amigo, Willy Cox (foto, aliás, que decorava o quarto de seu mais tarde namorado James Dean); apareceu nas telas recebendo um fio terra da atriz Maria Scheneider em “O Último Tango em Paris” e em seus últimos anos encerrou uma entrevista com Larry King beijando-o na boca. Sua maior tragédia – que ocupa boa parte do livro de Forestier – não apareceu nas telas ou nos palcos: Foi o caso envolvendo seus dois filhos, Christian e Cheyenne 220px-Cheyenne_Brando_en_1993.jpg, o preço que pagou por uma vida de distanciamento emocional de seus filhos e de suas mães. Cheyenne queixou-se ao meio irmão Christian que seu namorado, Dag Drollet, abusava fisicamente dela. Christian resolveu intervir e matou Dag com um tiro na cabeça na casa de Marlon em 16 de Maio de 1990. Ficou preso entre 1991 e 1996. Sobreviveu na cadeia com a proteção da gangue de motociclistas Hell’s Angels, que admirava Marlon por seu papel em O Selvagem, de 1953. No julgamento de Christian, reencontramos Brando. É uma sombra do homem absurdamente bonito que surgiu nas telas em seu início de carreira. Morbidamente obeso, recluso, solitário, é uma figura patética, dobrada pelo tempo. Por horas, questionado pelo advogado de defesa Robert Shapiro, o velho Brando testemunhou em defesa de seu filho e, diante do mundo, confessou suas falhas como pai. Ele chorou no banco de testemunhas. Às vezes suas respostas eram meros murmúrios incoerentes, até diante de perguntas simples. Brando se responsabilizou pela criação falha de Christian, mas jogou boa parte da culpa na mãe dele, Anna Kashfi, que não estava presente. “Ela foi provavelmente a mulher mais bonita que já encontrei na vida, mas foi uma mulher muito negativa” Brando disse. “Eu vivi uma vida de devassidão.” ele reconheceu, emocionado. “Corri atrás de muitas mulheres. ...Talvez eu tenha falhado como pai,” ele acrescentou. “A tendência é sempre culpar os outros. Houve coisas que eu deveria ter feito diferente, mas eu fiz o melhor que pude” Então ele ficou com raiva, balançando o braço enquanto dizia: “Esse é o caso de Marlon Brando. Se Christian fosse negro, mexicano ou pobre, ele não estaria nesta corte. Todo mundo quer uma fatia do bolo.” Finalmente, Marlon virou-se para os familiares do finado Dag Drollet, incluindo sua filha de cinco anos, que estavam reunidos na corte, e desculpou-se com eles. Em francês, nada menos: “Je ne peux pas continuer la haine dans vos yeux. Je suis désolé avec mon coeur entier.” (“Eu não posso continuar com o ódio em seus olhos. Eu lamento de todo o coração “) Até hoje se discute se o que o mundo testemunhou foi um pai arrependido ou Marlon em sua maior interpretação. Ao sair da cadeia, Christian casou com Deborah Presley, atriz que ganhou na justiça o direito de usar o nome de seu suposto pai, Elvis. O relacionamento foi anulado em 2005 devido a agressões mútuas influenciadas pelo uso constante de álcool e drogas. Christian morreu de pneumonia em 26 de Janeiro de 2008, aos 49 anos, não sem antes se envolver em outro crime: Ele estaria saindo com a mulher de Robert Blake, Bonny Lee Bakley, quando ela foi assassinada (muito possivelmente pelo próprio Blake). Christian não tinha dinheiro nenhum e sua esposa não tinha recursos sequer para pagar o enterro. Ao que consta, ele vivia de favores. Sua mãe, Anna Kashfi , no momento em que esta matéria é escrita, vive na miséria em um trailer na Califórnia. Cheyenne, filha de Brando com Tarita Teriipaia, não chegou a ver nada disso. Suicidou-se em 16 de Abril de 1995, depois de uma batalha perdida contra as drogas e a insanidade. Quando viva, escondiam as facas da casa para que ela não atacasse ninguém durante suas crises. Marlon Brando morreu em 1º. de Julho de 2004, aos 80 anos. Não recebia mais nenhum amigo. Sua casa parecia um forte, isolada por muros, cercas de arame farpado e alarmes. Sua famosa amizade com outro excêntrico, o cantor Michael Jackson, servia apenas para o velho Marlon tirar um dinheiro fácil do ingênuo cantor, cobrando fortunas por suas participações em vídeos e clipes musicais. Como diz Forestier em seu livro “Marlon Brando semeia a destruição e a morte entre suas mulheres, seus filhos, seus próximos. Cheyenne o diria: ‘É o diabo’”. Trata-se de um homem que nunca teve o menor pudor em usar sua beleza e charme excepcionais para envolver, seduzir e abandonar as pessoas, sem a menor preocupação com o rastro de destruição emocional que deixou pelo caminho. Claro, julgar talentos fenomenais como Picasso, Brando ou Caravaggio (este um delinquente e assassino) por suas vidas pessoais é um equívoco. Quem trilhar este caminho por bom-mocismo deixará de apreciar obras que definiram o seu tempo. Ler sobre suas vidas, entretanto, serve como curiosidade psicológica: grandes artistas, cuja principal matéria prima é o talento - fenômeno frequentemente relacionado com empatia e sensibilidade, com a capacidade de se colocar no lugar do outro – podem ser monstros na vida pessoal. Mas, claro, o que devemos a eles é infinitamente maior que suas eventuais falhas de caráter. Mesmo aos que se confundem com o diabo diante daqueles que os conhecem melhor.


Renzo Mora

Renzo Mora é escritor e roteirista. Publicou os livros "Cinema Falado"; "Sinatra - O Homem e a Música"; "Fica Frio - Uma Breve História do Cool" e "Frank, Dean & Sammy: 3 Homens e Nenhum Segredo".
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