Gustavo Ramos de Souza

Cinema, Literatura e outras coisas sem importância.

A MULHER QUE CANTA: BARBARA, A ENIGMÁTICA

Barbara, "o enigma freudiano no coração da França", embora menos conhecida que Édith Piaf e Juliette Gréco, construiu uma carreira com belas e melancólicas canções, além de ter importante papel na reconciliação entre França e Alemanha na década de 1960. Em sua modéstia, porém, afirmou: "eu sou uma mulher que canta".


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“Je ne suis pas une grande dame de la chanson Je ne suis pas une tulipe noire Je ne suis pas poète Je ne suis pas un oiseau de proie Je ne suis pas désespérée du matin au soir Je ne suis pas une mante religieuse Je ne suis pas dans les tentures noires Je ne suis pas une intellectuelle Je ne suis pas une héroïne Je suis une femme qui chante”

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No ano passado, quando assisti no cinema a Film Socialisme, de Jean-Luc Godard, ouvi um trecho de uma canção que ficou durante semanas na minha cabeça, mas, porque não fazia ideia de quem era aquela voz, passei muitos dias pesquisando na tentativa vã de descobrir o seu nome. Porém, quando já estava me esquecendo daquela voz e daquela melodia, fiquei em êxtase ao descobrir por acaso que a canção era “Göttingen”, e que a cantora se chamava Barbara.

Fala-se muito de Édith Piaf ou de Juliette Gréco, mas é praticamente desconhecido o nome de Monique Andrée Serf, mais conhecida como Barbara, “o enigma freudiano no coração da França”, segundo o crítico musical britânico Norman Lebrecht. Filha de pais judeus de origem russa, ela nasceu em Paris a 9 de junho de 1930 e teve uma infância conturbada, marcada por constantes fugas dos nazistas sob o governo colaboracionista de Vichy durante a Segunda Guerra Mundial. Contudo, não será a guerra o evento mais traumático de sua infância, mas sim o comportamento incestuoso de seu pai – fato que só será tratado em seu livro de memórias, publicado no ano seguinte à sua morte.

Aos 16 anos, inicia suas aulas de piano e de canto; aos 18, o seu pai abandona o lar para nunca retornar, deixando-a com nada senão dívidas. Para realizar o sonho de se tornar cantora, deixa Paris em 1950 e vai para Bruxelas, onde começa a cantar em cabarés canções de Jacques Brel, Édith Piaf, Marianne Oswald, entre outros. Nesse período, adota o pseudônimo Barbara Brodi – como homenagem à sua avó, Varvara Brodsky; depois, abandona o sobrenome, passando a se chamar simplesmente Barbara. No fim de 1951, retorna a Paris e conhece Claude Suys, compositor com quem se casaria em 1953. Dois anos depois, o casal rompe e Barbara começa a cantar em pequenos cabarés e consegue atrair em pouco tempo um público cativo, composto especialmente de alunos do Quartier Latin. Em 12 de julho de 1958, faz sua primeira aparição na TV, no programa Cabaret du soir, e, a partir de então, a sua carreira musical decola: é contratada por uma gravadora e passa a compor as suas próprias canções.

O seu primeiro álbum, Barbara à L’écluse, foi gravado em 1959. Será, porém, com seu segundo álbum, Barbara chante Brassens, de 1960, que conseguirá a consagração, ao ganhar o prêmio de melhor interpretação pela Academia Charles Cros. Com o álbum Dis, quand reviendras-tu?, de 1964, emplaca pelo menos dois sucessos: “Dis, quand reviendras-tu?” e “Nantes”. Depois do sucesso, nos próximos álbuns vêm canções que se imortalizaram em sua voz, como: “À mourir pour mourir”, “La solitude”, “J’ai troqué”, “La dame brune”, “Une petite cantate”, “Ma plus belle histoire d’amour”, “L’Aigle noir”, “Le sommeil”, “Le Mal de vivre” – que foi regravada pela cantora de jazz Stacey Kent, no álbum Raconte-moi, de 2010 –, além de seu maior sucesso: “Göttingen”, canção que teve papel decisivo na reconciliação entre França e Alemanha na década de 1960, em virtude da invasão nazista na Segunda Guerra.

Barbara ficou 15 anos sem gravar inéditas, até que em 1996 lançou o seu último álbum: Il me revient. Quando dedicava o seu tempo a escrever suas memórias, morreu aos 67 anos, vítima de intoxicação alimentar, em 24 de novembro de 1997.

Site dedicado à cantora: http://www.barbara-perlimpinpin.com/


Gustavo Ramos de Souza

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