Gustavo Ramos de Souza

Cinema, Literatura e outras coisas sem importância.

ESCREVER É SER MULHER

Costumava acreditar que a gravidez era maravilhosa, que o problema era parir o filho. Equivoquei-me: as duas experiências são difíceis, porém gratificantes. Estive gerando este texto durante um ano. Finalmente, ele veio à luz. Não é como esperava, mas precisava nascer...


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No princípio, era o Sexo. Não! no princípio, era a Linguagem. Naquele gozo delirante de significantes e significados estava contida a vida, naquele fluxo vertiginoso de existência estava um livro-devir, um lance de dados que confirmava o acaso. Então, um espermatozoide chamado ideia percorreu um longo caminho até encontrar o óvulo chamado palavra. Poderia ser qualquer outro, mas foi justamente aquele. Milhões de ideias foram em direção àquele óvulo, porém, sem conseguir alcançá-lo. Morreram pelo caminho por não serem fortes o bastante. Do encontro daquela ideia com aquela palavra formou-se um zigoto. Era a vida que nascia dentro de mim! Esse zigoto, que no início era apenas a fusão grosseira de dois elementos pelo acaso, multiplicava-se, através da mitose, em sintagmas, orações, frases, parágrafos, tornando-se um embrião. Era, pois, a vida que se formava dentro de mim! Na oitava semana depois da fecundação, esse embrião evoluiu para um feto. Eu via pelo ultrassom que aos poucos essa semente de vida e de linguagem modelava-se e ganhava forma. Sim, era apenas um esboço do que estava por vir; não sabia se seria um romance, uma crônica ou um poema. Não me importava o seu gênero, amá-lo-ia mesmo que fosse uma epopeia. O que me importava era que a vida crescia dentro de mim! A gravidez, é bom que se saiba, não é nenhum um mar de rosas. Porém, não eram os meus seios que inchavam, não era a menstruação que atrasava, não sentia vontade de urinar o tempo todo, não eram as cólicas, nem os enjoos. A minha gravidez era outra; e os sintomas, de outra espécie. Não sentia vontade de comer ou de interagir socialmente, passava as noites em claro, distraía-me com frequência, ensimesmava-me dia após dia, tornando-me irritadiço e entediado. Estava absolutamente só; na verdade, havia apenas eu e aquele feto que crescia dentro de mim. É claro que eu queria que o seu pai estivesse por perto, quando o bebê se movimentasse, me “chutasse”, demonstrasse que estava vivo e que queria conhecer o mundo aqui fora. Mas ele não estava... ou melhor, estava. Pois eu era sua mãe e seu pai. Amá-lo-ia duplamente, infinitamente. As semanas passavam, e sentia pesar sobre mim um terrível fardo: o medo de que fosse prematuro e imperfeito, de sofrer um aborto e vê-lo natimorto, de que não fosse forte e vigoroso, tal como os outros seres de palavras. Embora os sintomas anteriores atenuassem, era tomado por um inesgotável cansaço. Havia depositado todas as minhas forças, todas as minhas potencialidades, todas as minhas esperanças nesse filho que nascia e que seria o motivo de meu orgulho, a razão da minha existência. Era atormentado por dúvidas atrozes. Conseguiria dar conta? Seria moldado segundo a minha vontade? Ele seria um filho de que eu me orgulhasse? Eu assumiria as críticas que inevitavelmente viriam? Seria a mãe de que ele precisava? Enquanto fazia essas ponderações, senti as primeiras contrações em minhas mãos. Ele implorava para nascer, sair de mim e ganhar um rosto no papel. Finalmente ele nasceria, viria à luz, abriria os olhos! Era a vida que estava prestes a sair de mim! Mas não foi assim tão fácil. Foi um parto longo e demorado. Fiquei horas em frente ao computador, bebendo café amargo e ouvindo Chet Baker, a fim de fixar no papel esse filho que carreguei dentro de mim durante meses. No entanto, não foi preciso fórceps, nem cesariana. Saiu naturalmente. Depois de uma gestação ao mesmo tempo tão difícil e tão doce, respirei aliviado na sensação de um dever cumprido. Mas era apenas o começo. Precisava, a partir de então, estar por perto para velar o seu sono, amamentá-lo, protegê-lo e vigiar os primeiros passos que desse. Afinal, era um pedaço da minha vida que saíra de mim! Eis o problema em ser mãe: uma vez nascido o filho, há muito pouco que possamos fazer. O máximo que posso é estar por perto para atender ao seu chamado, acalmar o “choro”, mimá-lo com elogios e acalentá-lo na solidão. Apenas isso. Vejo uma frase que pretendia de outra forma, mas está lá exatamente como nasceu: imperfeita e definitiva. Um adjetivo impreciso, uma cacofonia, um verbo faltando, um advérbio sobrando... até uma vírgula que não deveria existir! Mas o filho já nasceu, está eternizado no papel, repleto de falhas e erros. Amo-o mesmo assim. Ele nasceu do meu ventre, tem o meu melhor e o meu pior. Sou ele, embora esteja distante do meu corpo. Morri nele para que ele nascesse em mim. Ele cresce fora de mim, independente de mim, diante de olhos severos ou indiferentes. Não posso mais intervir em sua vida, mas apenas acolhê-lo quando procurar o meu colo. E logo surgem as primeiras críticas, os primeiros insultos, as primeiras censuras. Dizem, com azedume: “Você viu o estrago que ele fez?”, tal como Goethe foi repreendido pela travessura do seu Werther. Culpam-me por todos os seus deslizes, por todas as reações que suscita. O meu pequeno se torna o meu orgulho e a minha preocupação. Por isso, quero estar sempre por perto para protegê-lo das agressões ou para ouvir um elogio. Afinal, sou uma mãe coruja. Ele é minha vida vivendo fora de mim! Porém, não tenho mais controle sobre ele. À medida que cresce, afasta-se de mim, anda pelas próprias pernas, ganha autonomia, torna-se algo diferente do que imaginava que seria. Quando um crítico o deprecia, sinto o meu coração sangrar. Quando o elogia, sou possuído pelo ciúme. Como dói ser mãe! E ele vai cada vez mais se desprendendo de mim, cada vez mais vivendo a sua vida sem necessitar do meu apoio, cada vez mais crescendo e amadurecendo longe do meu seio. É um sentimento de inutilidade... Não é exatamente como imaginava, na verdade, é melhor do que qualquer sonho. Devo admitir que fiz um bom trabalho, que fui uma boa mãe. Preciso apenas aceitar o fato de que ele vai ser lido, amado e odiado por inúmeros leitores, afinal, foi para isso que veio ao mundo. É provável que encontre algum leitor que o entenda melhor do que eu e que o ame mais do que um dia já amei. Essa é a maior felicidade que uma mãe pode desejar: ver o seu filho crescer e ser amado por alguém. E ele será. Pois nasceu para ser amado, para compensar a minha existência, para me restituir a alegria de viver. É por causa dessa alegria que escrevo. Quando escrevo, sou sublime: porque sou mãe, porque sou mulher.


Gustavo Ramos de Souza

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