Gustavo Ramos de Souza

Cinema, Literatura e outras coisas sem importância.

NELSON RODRIGUES: A PROPÓSITO DO CENTENÁRIO DE SEU NASCIMENTO

Um revolucionário que se dizia reacionário; um conservador que queria romper tabus; um “filósofo” que não gostava de filosofia: essas são algumas facetas do polêmico dramaturgo, jornalista e escritor Nelson Rodrigues, cujo centenário de nascimento é celebrado este ano.


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Nada é mais difícil do que falar sobre um escritor que amamos. Da mesma forma que, ao confessar o nosso amor a uma mulher, o juízo confunde-se, e as palavras ora fogem, ora atropelam-se, quando falamos sobre um escritor que admiramos irrestritamente, corremos o risco de elogiá-lo pelos motivos errados, perdoar-lhe os defeitos mais graves e constatar levianamente um fato que diz mais sobre nós mesmos do que sobre ele. É preciso cuidado redobrado, ainda mais ao falar sobre alguém tão polêmico e paradoxal quanto este de que tratarei. Não obstante, sinto que preciso falar sobre Nelson Rodrigues no ano em que se celebra o centenário de seu nascimento – antes que chegue o mês de agosto (mês em que nasceu) e seja inundado por todos os lados de textos sobre ele, não ousando mais me aventurar em tal homenagem, se é que a modéstia me permite chamar esse texto de homenagem. Pretendo deixar de lado essa “admiração abjeta” e simplesmente falar um pouco sobre a obra deste que é, sem dúvida, um dos escritores brasileiros mais importantes da segunda metade do século XX. Não quero, porém, falar sobre o Nelson de A mulher sem pecado, Vestido de Noiva, Álbum de família, O beijo no asfalto e Toda nudez será castigada. No teatro, sua trajetória vai de autor maldito a dramaturgo mais prestigiado do Brasil. Aliás, é irônico o fato de que hoje Nelson Rodrigues seja considerado uma verdadeira unanimidade tanto nos palcos quanto na Academia, quando em vida era amaldiçoado por grande parte do público e da crítica. É provável que fosse o primeiro a discordar dessa “admiração abjeta”, a chamar de burra essa unanimidade que o enxerga como o nosso maior dramaturgo. Quanto à sua obra romanesca, confesso desconhecê-la, portanto, não vou comentá-la – embora, segundo a fortuna crítica, os seus romances não possuam a mesma qualidade do restante de seu trabalho. Com efeito, as duas facetas do escritor que me interessam são: o contista e o cronista. Quando li a seleção de contos reunida, em 1992, por Ruy Castro, de A Vida como ela é... – coluna que Nelson escrevia diariamente para o Última Hora, entre 1951 e 1961, sobre alguns temas recorrentes, a saber: amor, morte e adultério –, fiquei impressionado com a força e originalidade do autor que retratava a classe média carioca dos anos 50, em que maridos matavam e morriam, “Casanovas” seduziam donas de casa, e mulheres entregavam-se ardorosamente a amores bandidos e à fatalidade do destino. A sua prosa sóbria, precisa, às vezes epigramática, flui como música, envolve-nos até que venha o acorde derradeiro, pondo termo às obsessões de cada personagem. Os triângulos amorosos narrados são trágicos trios executados pelas paixões mais egoístas, tecendo sempre variações sobre o mesmo tema, além do acento irônico de leitmotivs tipicamente rodrigueanos: “é batata”, “ser ou não ser traído”, “homem fiel nasceu morto”, “mulher séria” etc. Para Nelson, “só dois valores existem – permanentes – para o homem: o amor e a morte. Em torno desses dois mistérios, gravita a vida humana”. Com efeito, esses mesmos temas repetem-se à exaustão, porém, sem cansar o leitor. Comenta-se sobre os contos de Machado de Assis ou Guimarães Rosa, mas ninguém soube narrar com tanta ironia e melancolia a vida suburbana brasileira, enquanto esmiuçava a psicologia de seus personagens: suas manias, taras e obsessões.

NELSON RODRIGUES 2.jpg E quanto ao cronista? Em O óbvio ululante, há uma seleção de suas melhores crônicas publicadas no jornal O Globo entre dezembro de 1967 e julho de 1968; em A cabra vadia, o efervescente ano de 1968 apresenta-se em crônicas publicadas entre janeiro e outubro daquele mesmo ano. Eis uma de suas constatações: “enquanto a esquerda que aí está não for substituída até seu último idiota, não vai acontecer nada, rigorosamente nada.” Engana-se, porém, quem acredita que suas crônicas são meramente uma crítica social, pois, assim como em sua obra ficcional, ele dá cor e vida a diversos personagens do período: D. Hélder, Dr. Alceu, Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Antônio Callado, entre outros. De fato, são mais do que crônicas – são confissões. Porém, as suas confissões quase agostinianas não expressam fé, mas o seu desalento em face do “anti-Brasil” a que assistia ascender: os grã-finos que veneravam Guevara, a esquerda festiva, o culto da imaturidade, o gênio Sartre dizendo tolices, o amor ao canalha, a degradação de Eros. Nelson é um profeta que enxerga o “óbvio ululante” do stalinismo, enquanto os ideólogos da esquerda faziam vista grossa para os massacres do regime soviético. Ele compõe, em suas crônicas, um verdadeiro painel da estupidez humana naqueles idos de 1968. O conjunto de sua obra não revela um escritor comprometido com a forma, mas um filósofo cujas ideias remetem a Freud e Dostoiévski, quer seja por seu pessimismo em relação à natureza humana, quer seja por seu sarcasmo brutal. Nelson é uma “flor da obsessão”, é obcecado pelos pecados, por Eros e Thanatos, é o menino curioso e obstinado “que vê o amor pelo buraco da fechadura”. Em suma, é um autor cuja filosofia se expressa tanto por parábolas (sob a forma de peças e contos) quanto por aforismas. Por trás de suas frases, reside toda uma filosofia moral. Eis algumas:

“Dinheiro compra tudo! Até amor verdadeiro.” “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo.” “O homem começa a ser homem depois dos instintos e contra os instintos.” “Eis a nossa degradação: – sofrer menos, cada vez menos, até esquecer.” “Deus me livre de ser inteligente.” “O homem precisa de utopias e direi mesmo: – são umas quatro ou cinco utopias que nos salvam.” “O gênio tem, por vezes, a nostalgia do imbecil.” “O mineiro só é solidário no câncer” “Amar é ser fiel a quem nos trai.” “Todo amor é eterno e, se acaba, não era amor.”

As suas máximas e epigramas demonstram todo o seu pessimismo, toda a sua desilusão com a humanidade. De fato, é um moralista da estirpe de La Rochefoucauld, La Bruyère e Chamfort. Mas Nelson é moralista na dupla acepção da palavra: faz uma aguda crítica aos costumes de sua época, ao passo que também é um conservador em defesa da moral e dos bons costumes. Enfim, é um reacionário, como se autodenominava – mas não o era como os tolos preconceituosos de hoje em dia, é um reacionário como Balzac e Dostoiévski. E talvez seja justamente tal postura, em descompasso com o espírito “para frente” da intelligentsia da época, que permitiu que observasse com sutileza e ironia os caminhos a que nos conduziam os “cretinos fundamentais”, os “idiotas sem modéstia”. O seu distanciamento, tido então como indiferença ou adesismo, foi providencial para compreender no calor da hora o Brasil que morria, e o Brasil que estava nascendo. Se ainda estivesse vivo, completando agora um século de existência, não precisaria rabiscar uma única palavra, pois a tolice que predissera outrora, apesar de algumas mudanças de papel, é ainda a mesma de hoje.


Gustavo Ramos de Souza

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