Gustavo Ramos de Souza

Cinema, Literatura e outras coisas sem importância.

OS MAIAS: QUANDO ARTE E TELEVISÃO SE ENCONTRAM

Adaptada do romance homônimo de Eça de Queirós, a minissérie Os Maias, de Luiz Fernando Carvalho e Maria Adelaide Amaral, demonstra que televisão e arte podem ser compatíveis.


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“Durante todo o tempo em que assisti ‘Os Maias’ na televisão pensei no termo musical ‘andante majestoso’. Não que o andamento da ação fosse invariável e pesado. Pelo contrário, a câmera extraordinariamente móvel de Luiz Fernando Carvalho ‘frequentou’, mais do que retratou, a frívola Lisboa da época e todas as atmosferas do romance. Mas no fundo havia aquela progressão majestosa, desde a primeira cena, para o desenlace, a câmera andante nos levando como um lento tema trágico que repassa uma sinfonia. Nunca uma câmera de TV foi tão cúmplice e envolvente, nunca a TV foi tão romântica.” Luis Fernando Veríssimo

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Quando foi ao ar, entre 9 de janeiro e 23 de março de 2001, a minissérie Os Maias, adaptada do romance homônimo de Eça de Queirós por Maria Adelaide Amaral e dirigida por Luiz Fernando Carvalho, foi considerada pela emissora que a produziu, a TV Globo, um verdadeiro fracasso econômico. Cada um dos seus 44 capítulos teria custado em média R$ 200 mil, e o retorno não foi como o esperado, visto que a média de audiência não ultrapassou os 17 pontos, quando a expectativa era de pelo menos 30 pontos. Na época, levantou-se a antiga discussão entre cultura erudita e cultura de massas, culpando a “falta de gosto” do público brasileiro em apreciar um material mais sofisticado, como aquele que foi produzido. Em 2004, a Globo Marcas e a Som Livre lançaram em DVD uma “versão especial do diretor”, com aproximadamente 940 minutos, subtraindo as passagens que envolviam A Relíquia e A Capital, as quais integravam a primeira adaptação.

Assistindo ao DVD, ficamos impressionados com a qualidade de Os Maias. A fotografia, a direção de arte, os figurinos, o elenco impecável, a belíssima trilha sonora e o primoroso trabalho de direção compõem algo até então inédito na televisão. De fato, tanto pela forma quanto pelo conteúdo, a minissérie evoca o cinema de Luchino Visconti, quer seja por seu ritmo lento, mas preciso, quer seja por seu retrato da decadência de uma família aristocrata em virtude do abismo das paixões. A propósito, a ousadia de Eça de Queirós em apresentar, ainda no século XIX, tabus como o adultério, o suicídio e o incesto é trazida com a mesma força por Luiz Fernando Carvalho na minissérie.

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Em relação à versão do diretor, há pelo menos três elementos que merecem destaque: a música, o elenco e a adaptação do texto. A trilha sonora composta por John Neschling também traz músicas de Wagner, Mozart, Chopin e Mendelssohn, ora evocando a atmosfera romântica novecentista, ora pontuando os acontecimentos como um leitmotiv; além disso, há canções da banda portuguesa Madredeus, como o belíssimo tema de abertura, “O Pastor”, e “Haja o que houver”, que acompanha os idílios amorosos de Pedro da Maia e Maria Monforte e de Carlos Eduardo e Maria Eduarda. Quanto ao elenco, a despeito dos diálogos demasiadamente fiéis ao romance, os atores encarnam de modo impecável os seus personagens: Walmor Chagas como o intransigente Dom Afonso, Osmar Prado como o poeta sonhador Alencar, Leonardo Vieira como o fraco Pedro da Maia, a estreante Simone Spoladore como Maria Monforte, Selton Mello como o anárquico João da Ega, os belos Fábio Assunção e Ana Paula Arósio como Carlos Eduardo e Maria Eduarda com os olhos negros dos Maias. Vale lembrar que a narração de Raul Cortez, com comentários irônicos ou meramente ilustrativos, tal como o coro nas tragédias gregas, dita o tom solene e majestoso da obra, que se constrói, afinal de contas, como “uma autêntica tragédia clássica”, apesar do seu subtítulo: “Episódios da vida romântica” – como aponta a Professora Beatriz Berrini nos extras do DVD.

É graças ao trabalho de adaptação de Maria Adelaide Amaral, porém, que Os Maias ganham forma. Apesar de fidelíssima ao romance, a minissérie traz poucas, mas significativas mudanças. A começar pela impactante cena de abertura, em que assistimos a uma tourada portuguesa. Essa passagem inexiste no romance, no entanto, como afirma a autora, entre os esboços e textos inéditos de Eça de Queirós, na Biblioteca Nacional, havia um romance que se iniciava com uma cena de tourada. Para ela, a primeira cena, na qual Pedro conhece Maria Monforte, tinha de ser inesquecível e, no livro, não possuía o mesmo impacto. Enfim, trata-se de uma citação, de uma homenagem. Outra cena importante que não tem no romance é a volta de Maria Monforte, envelhecida e tuberculosa, sendo a portadora das más notícias. No livro, a missão é incumbida a João da Ega. A propósito, muitas das falas de Ega são extraídas de outras obras de Eça, como ensaios, correspondências e artigos publicados na imprensa. Apesar de ousado, tal recurso coube perfeitamente no personagem interpretado por Selton Mello, que é uma espécie de alter-ego do romancista. Por fim, há ainda a cena da despedida entre Maria Eduarda e Carlos Eduardo, a qual, segundo Amaral, fazia falta no romance, pois ansiamos por ver uma confrontação final entre aquele comovente casal trágico. É óbvio que alguns admiradores de Eça enxergaram nessas mudanças um verdadeiro sacrilégio a’Os Maias, entretanto, por se tratar de um diálogo entre dois veículos distintos, a minissérie cumpriu admiravelmente o seu papel. A versão do diretor é uma verdadeira obra-prima.


Gustavo Ramos de Souza

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