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Porque a imprudência e a ambiguidade trazem angústia, mas são as forças criadoras

Ivan Oliveira

Queria sonhar até ficar incoerente. Mas que não passasse de uma noite.

Brígida Baltar, em busca do efêmero

Atrás dos mistérios do tempo e do espaço, a artista carioca Brígida Baltar saiu de casa para tentar capturar elementos naturalmente transitórios: a neblina, a maresia e o orvalho


59974826.jpg Coleta da Neblina, 2002

Às vezes o artista apenas especula. Mergulha em atividade misteriosa, procurando responder a uma inquietação, e é no meio do caminho que a obra se realiza. Mesmo para quem já possui os mais precisos mapas, é difícil determinar as coordenadas do sentimento estético. Aceitando o enigma, alguns criadores reconhecem e encaram a poética como ligeira o suficiente para escapar diante de qualquer desatenção.

Brígida Baltar é uma artista plástica carioca que resolveu investigar o tempo e as dimensões do efêmero. Por meio de um gesto inusitado e aparentemente gratuito, investiu na tentativa de coletar amostras de 3 fenômenos, comuns ao cotidiano do Rio de Janeiro: a neblina que, no inverno, se forma diariamente na região serrana do estado, a maresia das praias e o orvalho das manhãs. A série de tentativas ganhou o nome de Umidades.

Para capturar esses 3 fatos naturais – a rigor, são configurações diferentes para montantes de gotículas diminutas de água –, Brígida preparou até uma roupa especial. Acoplados às suas costas, em um colete feito com plástico bolha, estão os recipientes coletores, tais como frascos de vidro e tubos de ensaio; bases para as tentativas de reter algo que é naturalmente fluido, passageiro. No caso da maresia, são bolhas de vidro. Para o sereno, era usado recipiente igual ao da foto abaixo.

dsc02239_1273522237.jpg Coletor de Orvalho, 2005

900-brigida-baltar1.jpg Coleta da Maresia, 2001

A escritora Adélia Prado usava e abusava desse olhar que transforma o comum em raro. Em suas poesias, é elemento fundamental a valorização do instante, da espreita na caça pelo elo entre o transcendente e o humano. Para ela, achar significados era questão de parar e sentir o arranjo do momento, ainda que ele parecesse banal.

Em Umidades, a atitude poética de Brígida é de ímpeto semelhante por apostar na potencialidade sensorial do que chamamos de contemplação. Ficar...encarar a circunstância. Ao perseguir a neblina, por exemplo, a artista acaba brincando com as fronteiras entre o material e o imaterial. Seu empenho possui registro vídeo-fotográfico único, cuja intenção é ilustrar o vigor com que se desaloja a certeza de tempo e espaço, substituída pela indefinição dos horizontes. Na névoa que difunde quaisquer contornos, a própria Brígida ora desaparece, ora reaparece, como se sua figura ou seu papel como artista fosse também insustentável.

arteimg-30823cafdbfd0684fd413d3e8d9ec8b7.jpg Coleta da Neblina, 2002

arteimg-abdebaa0d6bdf5dadc3bf6173377e13e.jpg Coleta da Neblina, 2002

Saiba mais sobre a obra de Brígida Baltar aqui ou aqui.


Ivan Oliveira

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