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Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando.

Carisma: não se aprende na escola

Fama, riqueza, poder, beleza... Mas o que falta para se parecer um vencedor? Um brilho nos olhos, uma atitude, um comportamento... Falta o que não ensinam na escola e pode-se ficar uma vida inteira sem conhecer: carisma.


obama-reschedule-marijuana.jpg Barack Obama: um dos presidentes americanos mais carismáticos da história

Ao contrário do que se pensa, ser carismático não é necessariamente ser viril, sexy ou famoso. Pessoas carismáticas podem ser extremamente debilitadas porém sempre mostram uma atitude de mudar o foco negativo de sua deficiência para atributos positivos de conquista pessoal. Ao mostrar qualidades de persistência, coragem e resistência, pessoas frágeis se conectam com milhares de pessoas comuns e este elo é a chave do carisma.

Uma pessoa carismática consegue se parecer tanto com um “de nós” quanto “a favor” de nós. O carisma está longe de ser um dom, mas sim resultado de uma cuidadosa elaboração de atitudes e traços de personalidade, que ninguém ensina mas que muitas histórias de sucesso exigem como se fosse algo inato de nosso ser. O carisma aparece quando consegue-se reunir as esperanças e valores do grupo em uma história coerente e uma pessoa se funde de formas emblemática nesta narrativa. Esta fusão pode ocorrer de várias formas, pela perseverança, pelo sofrimento, pelos ideais, pela raça, pelo credo, pelo amor, pelo ódio e intolerância. Os ataques terroristas ocorridos em Paris na semana passada são um exemplo de como o carisma arrebata pessoas, mesmo pela intolerância e pelo absurdo do extermínio. Líderes de grupos terroristas são extremamente carismáticos, contextualizam bem suas ações, cativam adeptos e justificam até mesmo a morte em ação – “a favor” de uma causa comum.

000_par8069934.jpg Ataque terrorista ao Mercado Kosher em Paris dia 09/01/2015

6dcad8ef215f2dda708bc7c3cce7e6a0d2e83ed2.jpg Manifestação popular em Paris contra ataques terristas na capital francesa dias 7 e 9 de janeiro de 2015

Unknown.jpg Fundamentalismo islâmico: liderança carismática, engajamento, contexto e ideologias construídas para o terror

Charisma tem vários significados: o poder de fazer milagres, a habilidade de profetizar ou influenciar os outros. Assim o carisma é a essência da liderança, que consiste em um processo social, em oposição a uma característica pessoal, que permite alguém motivar outras pessoas para ajudar a atingir metas de um grupo. Nem sempre liderança e carisma foram visto como fenômenos sociais. Sócrates chegou a declarar há mais de dois mil anos atrás que apenas um número mínimo de pessoas tem a amplitude de visão e os dotes físicos e mentais necessário para comandar. Weber, no início do século 20, chegou a destacar que o líder difere dos demais e é tratado como se fosse dotado de qualidades sobre-humanas ou pelo menos excepcionais, considerado como se tivesse poderes mágicos. Assim, para Weber, os seguidores distinguem os líderes de outros e lhes concedem o carisma.

A liderança carismática, contudo, está intimamente atrelada ao sucesso da causa, empresa ou movimento. Quanto melhor o desempenho, mais os seguidores correlacionam o sucesso ao líder carismático, apesar das personalidades de muitos líderes, empresários ou estadistas serem semelhantes. Assim, James Meindl, da Universidade Suny, em Buffalo, concluiu que o carisma não é uma característica do líder, mas uma atribuição que este recebe de seus seguidores, o que ele denominou “o romance da liderança”. O carisma poderia ser então um truque, algo manipulável, mensurável e passível de tratamento como qualquer fenômeno social. O mito de que o carisma é uma característica pode estar caindo por terra.

A liderança contudo, surge quando um líder faz sucesso para nós. Do mesmo modo que um líder nos toca, ocorre um processo em cadeia que faz com que um grupo tenha uma identidade comum. Assim, quando M. Luther King discursou e bradou “I have a dream” (“Eu tenho um sonho”) em plena luta racial nos EUA nos anos 60, milhares de pessoas se identificaram com a coragem, com a luta e com o sonho de igualdade. As pessoas se definiram em termos coletivos e, quando nos consideramos parte de um grupo, passamos a entendê-lo como diferente e único. O líder do grupo, como ocorreu com Luther King, imediatamente aparece quando é reconhecido como um membro do grupo, como os outros e, de alguma forma, especial em relação aos outros. Luther King foi visto como especial por seus valores, por seu sonho de igualdade, por sua coragem no enfrentamento das resistências da época. Seu carisma era condicionado ao quanto os membros da sociedade sentiam que sua luta era legítima e apoiada.

dr-martin-luther-king-i-have-a-dream-speech4.jpg Martin Luther King em seu famoso discurso em que disse "I have a dream"

martin_luther_king-3.jpg Luther King: carisma e liderança pela igualdade

Deve-se ressaltar ainda que, mesmo que exista sucesso, se o líder não aparentar sintonia com o momento e com as ações realizadas, este não será tão carismático na opinião do grupo.

Mas enfim, quem são os líderes carismáticos? Se a liderança e o carisma são fenômenos sociais e o carisma pode ser um mero truque de poucos?

1. Líderes carismáticos refletem – estes líderes estudam a cultura do grupo, valores, arte, música, livros do mesmo. Aqueles que acreditam que não têm nada a aprender com a cultura grupal e apenas acreditam em aprendizado por conquistas pessoais (e não coletivas) raramente se sustentam como líderes e perdem sua aura de encanto.

2. Líderes possuem representação – líderes de sucesso precisam ser vistos tanto como líder como membros do grupo. Estes líderes sempre se destacam, tecem a narrativa ao redor de sua própria identidade mas também o faz com o grupo ao qual pertence. Assim a figura e história do líder são coerentes e consistentes com a história e valores do grupo. A representação requer aparência, palavras, tom de voz e postura adequadas para compor a imagem do líder de acordo com as exigências do grupo.

3. Líderes possuem realização, isto é, são capazes de transformar situações, buscando prioridades para o grupo como as citadas acima: igualdades de direitos, lutas políticas, religiosas, etc. Quanto mais carismático for o líder, maior sua capacidade de moldar valores e agir de acordo com sua conveniência e ideais. Desta forma uma mente que brilhe pode arrebatar milhares de pessoas em causas questionáveis. Estas mentes sabem fazer com que todos se sintam valorizados e, assim, ganham seguidores.

Líderes carismáticos, além de tudo, estão sempre atentos a oportunidades e prontos a agir em qualquer imprevisto, estando atentos ao risco sem temor. Tratam-se de pessoas que vivem sob pressão pois ser investido de carisma tem o seu preço – o grupo exige simpatia, atenção, coerência e sucesso constante.

Fonte - Mente e Cérebro set 2014 reportagem “O Brilho do Carisma” S. Alexander Haslam e Stephen D. Reicher


Marina Baitello

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