resumindo e substituindo o mundo

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Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando.

SENTIMENTOS DE UM CIDADÃO BRASILEIRO... A UM AMIGO

Um cidadão brasileiro olha o mundo e seu país. É impossível não olhar a política brasileira, com escândalos sucessivos de corrupção e um possível impeachment do presidente da república sem pensar no povo brasileiro que padece com a crise. Como descrever o sentimento de um cidadão brasileiro comum a um amigo europeu? Como o brasileiro se sente? Este cidadão fotografa e tenta explicar ao mundo.


fotografia1.jpg Fotografia: net Faço de minhas lentes meus olhos, meu amigo querido... Para que você entenda o Brasil.

Brasil, São Paulo, março de 2016

Meu amigo,

Estava a escrever para você ontem mas interrompi. Desde já peço desculpas por meu atraso mas eu estava em um minuto de folga em meu trabalho e tive que retomar minhas funções. Que funções? Não importa amigo. Meu ofício? Também não importa meu amigo querido. Tenho um ofício pequeno e honesto, com pessoas reais e problemas reais. Tenho pessoas diante de mim, também trabalhando, e outras pessoas que dependem de meu trabalho. Acho que na vida, o que importa mesmo, são as pessoas. É verdade que eu estava triste, que eu estava oprimido, que eu tinha muitas agonias e preocupações em meu peito mas, na verdade, isto é um drama pessoal. Sou mais um a me sentir assim e meu ofício, seja ele qual for, é muito maior que meu drama pois, qualquer ofício honesto, mesmo pequeno, trata da agonia de muitos, salva vidas e permite que os outros tenham chances. Chances de errar e acertar na vida como pessoas normais.

Amigo, recebi sua fotografia em um dia de sol, na praia em Porto. A fotografia é linda e tu pareces bem; o mar estava magnífico e era possível ver as ondas quebrarem suavemente na praia limpa e deserta. Gosto muito de ver o mar de Portugal; lembro-me de Camões, das caravelas, do nascimento do Brasil colônia. Lembro-me também das dores e lágrimas históricas do Brasil colônia, o que não me deixa esquecer que meu Brasil vive ainda como colônia, com miséria, escravos e governantes patéticos. Sim, meu amigo, devo dizer a verdade a você sobre meu país, apesar de não ser a melhor pessoa a falar de política. Nosso povo é escravo e está morrendo; morre-se de tudo; por falta, por excesso, por omissão, por dor, por vergonha. Vergonha mata muito por aqui de modo vergonhosamente óbvio e justificável.

praia de francelos (2).jpg Fotografia: Marina Baitello: praia em Porto - Portugal Seu último postal da praia de Francelos, aí em Vila Nova de Gaia em Porto. Guardei com muito carinho esta imagem de teu país amigo. Temos postais lindos como este teu aqui também; nosso país é dolorosamente belo.

Sabes, meu amigo, minha única maneira real de defender a mim mesma de minhas dores e ajudar um povo é fazer o meu melhor a cada dia. Todo dia acordo como se saísse de um parto, trabalho com muita satisfação e alegria em uns momentos e com muita dor e lágrimas em meu rosto em outros. Finalizo o dia sabendo que eu produzi chances. Chances de escolha, chances de voto, chances de felicidade, chances de vida. Como eu fiz as chances? Ora amigo, você também as faz diariamente, no seu trabalho, através de sua integridade e esforço pelo melhor.

Amigo querido, saibas que nossas vidas não são um conjunto de dias sem razão de ser. Temos amores, poucas certezas, valores e muitas dúvidas. Temos uma história e vivemos numa pátria com uma história também. Convivemos com nossos erros e com erros históricos e dolorosos há séculos. Convivemos com pessoas que se ocupam em causar problemas ao invés de ajudar pessoas e causas legítimas e reais. Tantas coisas me deixam triste, de uma tristeza pelo mundo e não mais por mim. Hoje quando fui à feira, vi os alimentos praticamente apodrecendo nas barracas sem que ninguém pudesse comprar. Todos reclamavam do preço dos alimentos, porém os feirantes não conseguiam barganhar e vender. Imagine… O feirante passa fome e o povo também. Os alimentos viram lixo em um país de famintos. Sabes amigo, sempre fotografava os alimentos na feira e o movimento do povo a comprar. Hoje tive vergonha de fazê-lo e perpetuar o que vi, eternizar a miséria. A máquina fotográfica é um espelho dotado de memória mas incapaz de pensar… A máquina não pensa, mas minha inspiração me impede de captar e perpetuar esta cena infinitamente.

2015-12-01 11.09.54.jpg Fotografia: Marina Baitello - Feira livre São Paulo SP Brasil

2016-03-01 11.00.14.jpg Fografia : Marina Baitello - Feira livre em São Paulo, SP, Brasil

2016-03-01 11.00.57.jpg Fotografia: Marina Baitello - Feira livre em São Paulo, SP, Brasil

Amigo, para que servem minhas lentes então? Para criar fora do contexto mesmo, para trabalhar pelas molduras da vida. Minhas lentes e meus olhares servem para redescobrir um mundo duro. Pensei, meu amigo, em fotografar coisas em constante desaparecimento, às quais não temos recursos para retorná-las após o mesmo. Não temos como revelar ou copiar lembranças. Esta miséria secular vai durar décadas e nossa crise também. A feira não merecia minhas fotografias… Fui fotografar em um mercado de flores. Todas perfeitas, lindas e extremamente perecíveis… Fui eternizar a beleza das flores no caos brasileiro. Como escreveu em uma outra realidade política Geraldo Vandré: “Pra não dizer que não falei de flores”.

“(…) Pelos campos há fome

Em grandes plantações

Pelas ruas marchando

Indecisos cordões (…)”

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Fotografias: Marina Baitello - orquídeas criadas em estufa à venda em mercado de São Paulo

Entre um ruído ensurdecedor de protestos e o choro desesperado de uma nação inteira, amigo te envio nossas melhores flores de hoje. Talvez seja minha melhor maneira de mostrar-lhe o quanto estamos frágeis e perecíveis mas ainda somos um fruto da terra e com vida e, num habitat melhor poderemos viver de forma digna e bela como estas flores o fazem.

Amigo digo um adeus temporário. Na época de Vandré morria-se pelas palavras e isso não mudou muito. Sobreviverei a esta correspondência e seguirei recebendo fotografias lindas de seu mar e enviando fotografias de orquídeas de estufa do mercado de flores. Você saberá o que eu realmente vejo quando receber estas fotografia de meu país.

Muitas saudades de um ombro amigo

Um cidadão


Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando..
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