resumindo e substituindo o mundo

Um espaço para comunicação e expressão sob todas as formas

Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando.

Assédio Moral - Você sofre em silêncio?

Você já se sentiu humilhado em seu trabalho? Já sofreu algum assédio no trabalho ou menos que isso, você sofre no trabalho? Esta dor nasceu com o trabalho mas está ficando muito maior que ele. Onde se deve gastar nosso tempo: trabalhando ou driblando relações de trabalho tóxicas?


grief-927099_1920.jpg

As constantes modificações nas relações de trabalho e hierarquizações cada vez mais complexas, aliadas a um profundo desrespeito ou até apatia perante o ser humano, fizeram com que o assédio moral, uma entidade que sempre existiu, porém nunca gerando tanta incapacidade laboral e danos financeiros com indenizações e processos jurídicos longos e onerosos. Esta violência perversa do cotidiano, uma jornada de humilhações que pode destruir um profissional por danos em sua carreira ou até danos físicos e psíquicos (podendo culminar em suicídios relacionados ao trabalho).

womens-1838149_1920.jpg

Primeiramente: o que é humilhação?

Humilhação é um sentimento de ser ofendido, menosprezado, rebaixado, sentir-se um ninguém sem valor, inútil, magoado, revoltado, perturbado, envergonhado, mortificado, traído, indignado e com raiva. A humilhação gera tristeza e sofrimento psíquico. Uma humilhação ou comentário eventual depreciativo não configuram assédio moral no trabalho isoladamente, contudo pode haver DANO MORAL, outro crime passível de indenização. Humilhações repetitivas no ambiente de trabalho por uma ou mais pessoas de qualquer ordem podem configurar assédio moral.

the-work-2166128_1920.jpg

O que é assédio moral no trabalho?

É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego.

Caracteriza-se pela degradação deliberada das condições de trabalho em que prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização. A vítima escolhida é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o ’pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, ’perdendo’ sua auto-estima.

Em resumo: um ato isolado de humilhação não é assédio moral. Este, pressupõe:

1. repetição sistemática

2. intencionalidade (forçar o outro a abrir mão do emprego)

3. direcionalidade (uma pessoa do grupo é escolhida como bode expiatório)

4. temporalidade (durante a jornada, por dias e meses)

5. degradação deliberada das condições de trabalho

Entretanto, quer seja um ato ou a repetição deste ato, devemos combater firmemente por constituir uma violência psicológica, causando danos à saúde física e mental, não somente daquele que é excluído, mas de todo o coletivo que testemunha esses atos.

O desabrochar do individualismo reafirma o perfil do ’novo’ trabalhador: ’autônomo, flexível’, capaz, competitivo, criativo, agressivo, qualificado e empregável. Estas habilidades o qualificam para a demanda do mercado que procura a excelência e saúde perfeita. Estar ’apto’ significa responsabilizar os trabalhadores pela formação/qualificação e culpabilizá-los pelo desemprego, aumento da pobreza urbana e miséria, desfocando a realidade e impondo aos trabalhadores um sofrimento perverso.

despair-513529_1920.jpg

O que é VIOLÊNCIA MORAL no trabalho?

Violência moral compreende desde apelidos indesejados e desconfortos isolados no ambiente de trabalho até o assédio moral instalado, violência máxima contra o trabalhador. Os comportamentos de violência psicológica mais freqüentes estão relacionados à: pressão exagerada para cumprir metas, supervisão constante e rígida, uso de estratégias de exposição constrangedora de resultados e comparação entre membros do mesmo grupo, competitividade para além da ética, avaliação de desempenho somente pelos resultados e não pelos processos, ameaça de demissão constante e humilhações direcionadas para o grupo de trabalhadores diante de resultados abaixo do esperado. A violência moral, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), será o décadas do ’mal estar na globalização" das próximas duas décadas, onde predominará depressões, angustias e outros danos psíquicos, relacionados com as novas políticas de gestão na organização de trabalho e que estão vinculadas as políticas neoliberais.

Estou sendo muito exigido em meu trabalho. Estou sendo assediado?

Nem sempre exigências no trabalho, por mais agressivas que possam parecer, constituem assédio moral. Porém configura-se assédio quando exigências são direcionadas contra uma pessoa de modo repetitivo ou em forma de represália, comprometendo a integridade física, mental ou até mesmo a identidade do indivíduo, engessando o trabalhador e causando uma perda de referências do mesmo no ambiente de trabalho e em sua vida pessoal.

Estou em um conflito de interesses muito grande dentro do ambiente de trabalho. Estou me sentindo isolado e sem reação. Isto é assédio moral?

Conflitos são sempre delicados e muito frequentes; sempre existem muitas verdades em jogo e muitas vezes todas as soluções são ruins ou trazem prejuízo para alguém. Caso a discussão ocorra de forma aberta e todos os envolvidos possam defender suas posições não há assédio. Caso exista uma parte em desvantagem, mais fraca, haverá assédio se houver coerção repetitiva sobre esta, causando sofrimento e dano. Contudo, a demora em resolver conflitos pode fortalecê-los e, com o tempo, passam ocorrer práticas de assédio moral que não existiam no início da discussão, tais como: perseguições, manipulações e intenção de prejudicar uma parte específica, além de exclusão do indivíduo do ambiente de trabalho.

Quando eu posso estar sofrendo assedio moral ou dano moral no trabalho?

Todos os comportamentos listados abaixo podem ser considerados atos de agressão psicológica, mesmo que não ocorram de forma repetitiva ou intencional mas somente a repetitividade e intencionalidade determinam se há assédio moral ou não.

1) Deterioração proposital das condições de trabalho

• Retirar da vítima a autonomia.

• Não lhe transmitir mais as informações úteis para a realização de tarefas.

• Contestar sistematicamente todas as suas decisões.

• Criticar seu trabalho de forma injusta ou exagerada.

• Retirar o trabalho que normalmente lhe compete e dar novas tarefas sistematicamente.

• Pressioná-la para que não faça valer seus direitos (férias, horários, prêmios).

• Agir de modo a impedir que obtenha promoção.

• Não levar em conta recomendações de ordem médica indicadas pelo médico do trabalho.

• Induzir a vítima ao erro.

2) Isolamento e recusa de comunicação.

• Superiores hierárquicos ou colegas não dialogam com a vítima.

• É posta separada dos outros.

• Ignoram sua presença, dirigindo-se apenas aos outros.

3) Atentado contra a dignidade

• Utilizam insinuações desdenhosas para qualificá-la.

• Fazem gestos de desprezo diante dela (suspiros, olhares desdenhosos, levantar de ombros).

• É desacreditada diante de colegas, superiores ou subordinados.

• Atribuem-lhe problemas psicológicos (dizem que é doente mental).

• Criticam sua vida privada.

• Atribuem-lhes tarefas humilhantes.

• É injuriada com termos obscenos ou degradantes.

4) Violência verbal, física e sexual.

• Ameaças de violência física.

• Falam com ela aos gritos.

• Invadem sua vida privada com ligações telefônicas ou cartas ou mensagens digitais.

•É assediada ou agredida sexualmente (gestos ou propostas).

• Não levam em conta seus problemas de saúde.

cooperative-1246862_1920.jpg

Como comprovar o assédio moral na realidade?

Tudo pode estar acontecendo no ambiente de trabalho e nada pode ser comprovado… Infelizmente para o processo e o desfecho indenizatório de assédio moral o trabalhador deve se munir de provas e testemunhas sobre as agressões repetitivas no ambiente de trabalho. Nunca é demais procurar ajuda profissional - médica e jurídica.

Comportamentos de violência psicológica menor no trabalho - que não se configuram assédio - ocorrem com uma frequência gritante e preocupante, causando afastamentos e incapacidade. Fala-se neste caso da “banalização da injustiça” como inerentes ao capitalismo globalizado e competitivo. A INJUSTIÇA DIÁRIA raramente é discutida e adoece tanto quanto o assédio moral em si.

Referências bibliográficas

OIT - site - Organização Internacional do Trabalho

ARTIGO - NET - Lis Andréa P. Soboll - Psicóloga (UFPR), Especialista em Psicologia do Trabalho - UFPR, Mestre em Administração - UFPR, Doutoranda em Medicina Preventiva - USP, atuando na área Saúde & Trabalho, como professora universitária, psicóloga clínica, perito judicial e consultora em organizações


Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando..
Saiba como escrever na obvious.
version 5/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Marina Baitello