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Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando.

O menininho triste - a história de Vincent

O que seria da humanidade se pudéssemos ter ajudado uma criança triste que deixou os girassóis e as estrelas mais lindas da arte como sua herança? Ele nunca modificou sua arte em suas piores crises e achava que nada era mais artístico do que amar verdadeiramente as pessoas. Sofrer a vida toda é realmente admissível e normal?


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Era uma vez um menininho triste e pobre chamado Vincentinho. Vincente deveria ser o nome do filho mais velho da família, mas este filho mais velho morreu e, no ano seguinte, nasceu o nosso menininho triste que nunca gostou de herdar o nome do irmão morto, mas viveu mesmo assim. Vincentinho já entendia que a vida era como um balão; o balão nunca muda a força do vento para se chegar onde quer, mas se submete às forças e chega mesmo assim.

A criança séria, quieta, introspectiva e infeliz tentou ser comerciante e estudar teologia mas falhou. Falhou também no amor... Sim, apaixonou-se duas vezes por prostitutas e tentou casar-se com as mesmas. Uma destas mulheres era mais jovem e grávida e outra bem mais velha que nosso menino, casada, grávida como a primeira, portadora de varíola e vivendo em um abrigo de caridade... Outros amores fracassados existiram, faltou muito afeto e amor próprio em sua vida, mas mesmo assim Vicentinho virou artista.

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Retratos de mulheres do campo; nenhuma mulher queria ser retratada por nosso menino; era uma arte estranha, disforme, rude até...

Nas noites no prostíbulo, nosso menininho triste por dentro e um homem triste por fora, desejava fazer retrato das moças, porém seus retratos nunca eram certinhos e qualquer mulher, prostituta ou não, tinha medo de aparecer desfigurada e feia pelas mãos deste pintor desajeitado.

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Os girassóis mais lindos do mundo...

Vincentinho decorou uma casa inteira de amarelo para morar e pintou os girassóis mais lindos do mundo. Teve um único amigo pintor que fugiu! Nosso menino era doce, entusiasta e muito bom de coração mas o desabrochar do pintor marcou o início de suas crises psicóticas, quando ele se transformava em um ser brusco, vociferante e silencioso. Estas crises amedrontaram seu único amigo, que não entendia as mudanças no humor de Vicentinho. Vicentinho perdeu a razão, atacou o amigo com uma navalha e perdeu uma parte do rosto... Perdeu uma parte de sua orelha e quase morreu.

Vicentinho questionou o mundo:

"Todos são loucos. Todos vão ter alguma coisa um dia.

Por que meu amigo não ficou se sou tão louco?

Eu não sou o único.

Por que não me ajudou? Por que não cuidou de mim?"

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A cadeira de nosso menino... Simples, com assento de palha e sem braços, seu cachimbo e tabaco, em um piso simples de lajotas e iluminação natural

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A cadeira do amigo de nosso menino que fugiu... Assentos estofados, com braços e em um tapete, iluminada por uma vela. Quanta diferença entre amigos que pensaram noites e noites em voz alta até que uma convivência insustentável se instalou entre eles.

Todos passaram a ter medo de Vicentinho. Nosso eterno menininho passou a viver a solidão ajudado pelo irmão de longe. As psicoses, o medo irracional de ser envenenado e a intoxicação constante por aguarraz levam Vicentinho a muitos confinamentos. Vicentinho teve um psiquiatra que amou muito, o DR UM, para quem fez um retrato e o mesmo usou sua tela como aparador de ar em sua cozinha... Vicentinho, a esta altura, implorava para ser internado para poder pintar.

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Retrato do DR UM na vida de nosso menininho... O aparador de ar da cozinha.

Com 34 anos foi internado voluntariamente em um Hospital Psiquiátrico e Vicentinho pinta e deixa suas obras que não valiam nada no hospital mesmo, como restos de momentos de crise. Muitos dos quadros serviram para alvos de tiros de rifle, um hobbie do filho do dono do hospital... Ele tentava presentear pessoas de todo coração com obras, mas os presentes eram negados de forma humilhante em mais de uma ocasião. O pintor questionou se os humildes não entenderiam sua arte... Não entenderam. Todos recusavam seus quadros.

Vicentinho conhece um novo médico, DR DOIS, posteriormente. Bem, ao menos este médico, foi um dos poucos homens que verdadeiramente gostou de seu jeito de pintar. Intoxicado por tintas e aguarraz, voltou a beber com o médico! Vicentinho alterna seu estado de humor e possui episódios de agressividade intensa, chegando até a pensar e tentar agredir seu médico mais querido com um revólver.

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Retrato do médico, não especialista mas amigo e querido DR DOIS.

Mas enfim? Qual era o problema de Vicentinho?

Um epiléptico perigoso? Um esquizofrênico?

Um menino com Transtorno Bipolar?

Alguém que bebeu, se intoxicou com tintas, solventes e a “fada verde”(absinto)...

Com 37 anos Vicentinho se suicidou com um tiro no peito e suspirou: A TRISTEZA DURARÁ PARA SEMPRE.

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Desenhos sobre o desconsolo, o abandono e a tristeza na vida da criança que cresceu triste e morreu triste. Feitos pelo Vicentinho chamado Vincent...

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“Old man in sorrow” reflete a condição depressiva e psicótica de van Gogh em um contexto de loucura, mas mostra também o senso humano de ter que conviver com incertezas, dúvidas e falta de respostas. Alcoolista e psicótico ele ainda acreditava em continuar e fazer arte com suas incertezas.

A tristeza não durou para sempre, apenas não chegou a tempo para Vicentinho. Vicentinho morreu apenas 30 anos antes do uso da eletroconvulsoterapia para controle de crises psicóticas em psiquiatria, 57 anos antes do lançamento do primeiro antipsicótico, a clorpromazina (AMPLICTIL ou LARGACTIL). Vicentinho conheceu o hidrato de cloral e o brometo de potássio, substâncias rudimentares muito sedativas e hipnóticas, mas nunca conheceu o haloperidol (HALDOL), que só chegou ao mercado em 1959. Vicentinho nem sonhou que poderiam existir coisas melhores que a “fada verde” e o ópio; seria como imaginar o homem na lua pensar em drogas modernas, como os antispicóticos de segunda geração como a clozapina, lançada de 1988 (apesar de descoberta em 1970) e a olanzapina, risperidona e outros que apareceram apenas após 1990. Vicentinho não sofreu nem adoeceu sozinho, pois numa prole de 5 irmãos, fora ele, 4 faleceram com síndromes demenciais e psicóticas.

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Philippe Pinel (1745-1826) no Hospital da Salpêtrière ou Pitié-Salpêtrière - Paris - fundador da psiquiatria moderna com o conceito de "tratamento moral"aos doentes mentais que consistia na mudança de comportamento das atitudes de doentes mentais por meio de atitudes humanas e firmes por parte da equipe técnica, tentando abolir práticas violentas e correntes para com "pessoas em que se encontram em doloroso estado"como ele mesmo descreveu. Foram as primeiras vezes que palavras como "repressão", "filantropia", "compaixão" e "doçura"passaram a ser encontradas no vocabulário técnico. Anos antes de Vincent van Gogh a psiquiatria já tentava tratar melhor seus doentes.

Vicentinho, nosso menininho triste, foi Vincent van Gogh, e todo seu sofrimento, sua coleção de fracassos e sua desorganização mental foram reais. Ele amou, tentou ter amigos, tentou ter sucesso e teve uma coleção de frustrações, afastou todos de si e não suportou viver. O pintor que descobriu o amarelo, retratou a tristeza e o asilamento. Sua genialidade deixou muita beleza, seus lindos girassóis, os campos de trigo e um céu de estrelas... Vincent era um doente mental que nunca sofreu deformação de seu estilo pela doença ou pelas crises. Vincent só vendeu um quadro em vida e, se a história da humanidade permitisse que algum tratamento chegasse ao menininho triste, 10 anos após sua morte um marchand percebeu o valor crescente da obra do insano suicida e procurou a família do DR UM, Dr Félix Rey, para comprar o aparador de ar da cozinha. O amigo de Vicentinho – Paul Gauguin, também morreu miserável, com muitos filhos, promíscuo e falido. Não se pode medir arte com dinheiro mas no “mercado da arte” o último Gauguin leiloado chegou às cifras de cerca de R$ 5 milhões; uma destas telas tão negadas, guardadas nos porões por serem estranhas, recusadas de forma humilhante por muitos, chegou a US$ 71 milhões em leilão e, vale a pena lembrar que, pelo valor artístico, um Van Gogh raramente é vendido – é um patrimônio da humanidade. O DR DOIS, Dr Gachet, doou suas e as telas da família do pintor ao Louvre.

Se alguém ainda tem dúvida sobre a necessidade de medicar o menininho triste, é bom lembrar que a humanidade inteira seria grata por ter a sensibilidade do dono do amarelo por mais tempo na Terra. Se alguém pensa que a psiquiatria é rudimentar, que o eletrochoque é uma violência e que as drogas são ineficazes por doparem pessoas, posso assegurar que qualquer psiquiatra gostaria de ter tratado a criança psicopática chamada Vincent, que afirmou que “a consciência é a bússola do homem”. Ajudar quem necessita a achar sua bússola é mostrar a estas pessoas o caminho de suas vidas e não o fim delas.

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"Quando sinto uma necessidade de religião, saio à noite para pintar as estrelas"

Vincent van Gogh


Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando..
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