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Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando.

STALKING - Atração fatal na vida cotidiana

Stalking ou perseguição obsessiva: você já foi uma vítima? Quem são os stalkers e por que perseguem? O perseguido adoece e o perseguidor pode estar doente. Sendo o stalker ou o perseguido, o que se deve fazer nesta situação? Ninguém está livre de um dia cometer um crime por doença, amar demais ou de menos...


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"Não importa o quanto você mude. Ainda terá que pagar o preço pelas coisas que fez. Eu tenho um longo caminho... Mas eu sei que eu vou ver você de novo. Desse lado, ou do outro."

(" Atração Fatal", o filme)

"Atração Fatal", filme de 1987, estrelado pelos astros Michael Douglas e Glenn Close, onde Dan Gallagher (Michael Douglas) é um advogado conceituado que acaba se envolvendo, casualmente, com a sedutora Alex Forrest (Glenn Close). Mais tarde, Dan, achando que foi um equívoco, considera o affair encerrado, mas Alex não aceita ser ignorada, "nem hoje, nem amanhã, nem nunca... nem que isso signifique destruir a familia de Dan para ficar com ele". O filme causou grande polêmica ao retratar um homem adúltero perseguido por sua amante, que aparenta ser uma psicopata capaz de cometer atos frios e cruéis, mas trata-se de uma mulher com transtorno de personalidade tipo borderline. O filme apresentou o stalking nas telas de forma chocante e já apontou para uma realidade: a maioria dos stalkers são pacientes e não só criminosos. A realidade é tão alarmante quanto o filme.

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Stalking, perseguição persistente ou perseguição obsessiva, é um termo que define uma forma de violência, na qual o sujeito invade repetitivamente de forma inesperada a privacidade de uma vítima causando danos à mesma. Praticar stalking é crime, porém pouco se considera o estado patológico do agressor.

Não há dúvidas que uma perseguição obsessiva pode causar danos graves à vítima em um crescendo com o tempo de duração a perseguição, visto que as táticas de perseguição podem adquirir uma violência crescente à medida que o perseguidor se sente rejeitado ou frustrado. Nem sempre, porém, o stalker é um psicopata perigoso; o agressor pode um obsessivo frustrado em um ou mais campos de sua vida e, neste último caso, a buscar a vítima é só uma forma de alívio para pensamentos intrusivos e perturbadores. O espectro de transtornos obsessivos é muito vasto e um comportamento repetitivo, pensamentos não controlados pelo sujeito e ruminações podem levar um paciente obsessivo a perseguir alguém - um ex-namorado, um amigo, um ex-cônjuge, etc. O obsessivo é o stalker que possui a chance de parar a perseguição sozinho caso tenha apoio médico, orientação jurídica sobre seus atos e apoio de familiares e amigos. Quando pensamos em um stalker de perfil psicopático e paranóide, falamos de um paciente mais resistente a brecar o Stalking e também mais invasivo e com tendência a intensificar a perseguição se frustrado. Assim, temos stalkers que são frágeis emocionalmente, que oferecem pouco risco à vítima e outros mais paranóia e delirantes, com menor crítica ao que fazem e mais perigosos socialmente.

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A palavra stalking, utilizada na prática de caça, deriva do verbo to stalk, que numa tradução aproximada para o português, corresponde a 'perseguir incessantemente'. No contexto de caça, ocorre quando o predador persegue a presa de forma contínua e indesejada. O termo stalking começou a ser usado no final da década de 1980 para descrever a perseguição insistente a celebridades pelos seus fãs. Em 1990, nos Estados Unidos, inicialmente na Califórnia, a conduta foi criminalizada. Atualmente, vários países criminalizam esse tipo de conduta inoportuna. Altas são as estatísticas da ocorrência de stalking nos países desenvolvidos. Anualmente, na Inglaterra, cerca de 600 mil homens e 250 mil mulheres são vitimados.

Os stalkers perseguem insistentemente outra pessoa, porém nem sempre há um motivo claro além da obsessão. No entanto, um stalker (ou seja, o obcecado) muitas vezes pode ter o intuito de amedrontar sua vítima. Portanto, perseguidor é uma boa tradução em português para o termo. Não se trata de uma prática claramente definida, logo, as atitudes de um perseguidor podem variar. Ele pode simplesmente permanecer à espreita, apenas observando a vítima. O stalker pode fazer ligações telefônicas repetitivas, enviar mensagens de texto via telefone ou correio eletrônico, publicar fatos ou boatos na internet (cyberstalking). No entanto, outros casos envolvem atitudes mais diretas e amedrontadoras, como entregar objetos indesejados, esperar a vítima em lugares que frequenta ou trabalha, resultando dano à sua integridade psicológica e emocional, restrição à sua liberdade de locomoção ou lesão à sua reputação. As atitudes de um stalker podem também facilmente ser confundidas com atos sem maldade, até mesmo gestos românticos. Um ramo de flores enviado insistentemente, depois de se ouvir um “não”; mensagens ou telefonemas diários, carinhosos e amigáveis, porém indesejados; provocar encontros amorosos, sem nenhuma violência ou hostilidade, são comportamentos que se enquadram no crime de stalking também.

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Casos extremos envolvem a intimidação explícita com ameaças e atitudes violentas por parte do perseguidor, como por exemplo, quebrar bens da vítima e até mesmo agredi-la. Os motivos dessa prática são os mais variados: erotomania, violência doméstica, inveja, vingança, ódio ou até simples brincadeira. Seja qual for a forma de perseguição e os motivos que levam uma pessoa a ser um stalker, trata-se de uma violência e o stalker normalmente é um paciente que necessita de atenção.

O crime é configurado pela limitação e dano sofrido pela vítima e não pela forma com que é realizada a perseguição. Assim, um paciente obsessivo com comportamentos repetitivos e estereotipados, mas que incomodam a vítima de forma importante, são tão criminosos como pacientes mais invasivos e psicopáticos. O dano e o sentimento da vítima determinam a maior ou menor gravidade penal do stalking. É bom lembrar que, em caso de violência doméstica ou qualquer forma de violência contra mulheres, muitos casos de stalking acabam sendo enquadrados na “Lei Maria da Penha”, o que foge da definição de perseguirão obsessiva pura e se encontra em outra disposição do Código Penal.

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A maioria de casos de stalking envolve pessoas conhecidas entre si. “Ex” de um relacionamento turbulento são casos clássicos, por exemplo. Uma pesquisa nos Estados Unidos revelou que stalkers desconhecidos representavam apenas a minoria dos casos. É muito comum a ocorrência do stalking no caso de rompimento de um relacionamento amoroso em que o homem ou mulher irresignados, e movidos por sentimento de perda que transborda para o ódio, patologia do apego, promovem uma perseguição infernal ao ex. Em casos de ciúmes patológico, o stalker persegue sua vítima violentamente, sendo muito comum o desfecho fatal de tal perseguição (patologia muito comum em alcoolistas de longa data e com histórico de violência contra o cônjuge por décadas, com sentimento de persecutoriedade e desconfianças infundadas).

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Embora se argumente que a maioria das vítimas documentadas são mulheres, não se pode dizer que o stalking é um crime de gênero. Homens também são vítimas de stalking, porém estes resistem a prestar queixa deste crime por convenções sociais, como se um homem “não estivesse sabendo como lhe dar com uma mulher apaixonada” por exemplo.

A psicologia forense classifica os stalkers nas seguintes categorias: rejeitado, perseguidor, retardado, vingativo, erotomaníaco e sádico. As ações dos stalkers são vistas como perigosas em diferentes níveis, conforme o sentimento da vítima e às agressões físicas e/ou morais sofridas, como mencionado acima.

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É importante frisar que, do ponto de vista médico, a grande maioria dos stalkers não consegue parar sua perseguição contra uma determinada pessoa sem ajuda e informação e existe a possibilidade de violência; cerca de 25% dos casos de stalking terminam em agressão física e 2% há tentativa de assassinato da vítima.

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QUEM SÃO AS VÍTIMAS DE STALKING?

* Sexo feminino (90,2%) | adultos (93,9%)

* Idade média (39,6 anos)

* Solteiros (33,1%), divorciados (22,6%), casados (22%), separados (12,4%)

* Família nuclear com filhas (29,6%) | monoparental (28,7%)

* Ensino superior (45%), ensino secundário (19,1%)

* Com emprego (64%)

* Tem ou teve relacionamento romântico com a vítima (74,7%): ex-companheiras (21,6%), ex-namorados/as (18,4%), cônjuges (16%), ex-cônjuges (11,7%)

Dados da APAV

1 - VÍTIMAS DE EX-PARCEIROS (AS)

A vítima de um/a ex-parceiro/a é normalmente uma vítima do sexo feminino que é perseguida e persistentemente assediada por uma pessoa com quem manteve uma relação de intimidade no passado como, por exemplo, um ex-namorado ou um ex-marido. Apesar de ser esta a situação mais frequente, o assédio persistente também pode ser perpetrado por uma mulher contra o seu ex-parceiro do sexo masculino, ou ainda entre ex-parceiros de casais do mesmo sexo. As vítimas de ex-parceiros/as são geralmente as que sofrem, por comparação com as outras vítimas, um maior número de comportamentos de assédio persistente, que tendem a prolongar-se e a persistir ao longo do tempo, verificando-se também um aumento na gravidade e na probabilidade de dano físico decorrente dos comportamentos dos ex-parceiros Estas vítimas são as apresentam maior risco de serem vítimas de ameaças ou agressões físicas e as que apresentam, igualmente, risco mais elevado de homicídio. Estas vítimas tendem a sentir-se mais culpabilizadas pela situação, uma vez que já haviam mantido um relacionamento íntimo com a pessoa que as tem assediado.

2- VÍTIMAS DE CONHECIDOS (AS) OU AMIGOS (AS)

As vítimas de assédio persistente nesta categoria são maioritariamente do sexo masculino. São geralmente homens com fracas competências sociais, isto é, dificuldade em estabelecer e manter relações de amizade tentando, através do assédio persistente, estabelecer um relacionamento íntimo com a vítima. Estas vítimas são assediadas por períodos relativamente curtos de tempo e têm uma menor probabilidade de estar expostas a atos de violência.

3 - VÍTIMAS EM RELAÇÃO A PROFISSIONAL DE APOIO

Determinadas profissões (i.e. profissionais de saúde, assistentes sociais, advogados/as, professores/as, psicólogos/as) implicam a realização de contatos regulares entre o/a profissional e a pessoa que este/a acompanha, bem como a construção de uma relação profissional que, em alguns casos, envolve o desenvolvimento de uma relação de confiança, de empatia e de confidência com vista à resolução das problemáticas apresentadas pela pessoa que se encontra a ser acompanhada ou intervencionada. Em alguns casos, o fim da relação profissional pode gerar situações de assédio persistente, pela dificuldade de a pessoa alvo da intervenção, acompanhamento ou tratamento aceitar o fim da relação e/ou de tomar decisões sem o auxílio ou aconselhamento anteriormente fornecido pelo profissional Nestas situações o/a profissional torna-se vítima de assédio persistente por parte do seu/sua cliente/utente que, sentindo-se rejeitado/a ou abandonado/a, tenta, por diversos meios, manter ou estabelecer uma relação de intimidade fora do contexto profissional.

4 - VÍTIMAS EM CONTEXTO LABORAL

O assédio persistente em contexto laboral é habitualmente praticado por empregadores, colaboradores, colegas ou clientes. A motivação dos comportamentos de assédio persistente poderá estar associada à vontade de estabelecerem com a vítima uma relação de intimidade ou, pelo contrário, por vingança ou retaliação perante alguma mudança na dinâmica ou na estrutura do contexto de trabalho (por exemplo, a vítima poderá ser persistentemente assediada por um/a colega de trabalho que discorde ou se percepcione como injustiçado/a face à promoção ou progressão na carreira profissional alcançada pela vítima). As situações de assédio persistente em contexto laboral podem escalar para situações de violência física, quer contra a vítima quer contra terceiros.

5 - VÍTIMAS POR DESCONHECIDOS (AS)

As situações de assédio persistente concretizadas por uma pessoa que a vítima desconhece estão habitualmente associadas a um menor de risco de perpetração de condutas violentas. Ainda assim, nos casos em que o/a autor/a dos comportamentos de assédio persistente age motivado pelo desejo de se envolver sexualmente com a vítima, o risco de violência (sobretudo sexual) é maior. As vítimas de assédio persistente por desconhecidos tendem a sentir-se mais vulneráveis e em alarme constante. Nestas situações, a ansiedade e a confusao são maiores pois as vítimas não compreendem as razões que motivaram a “escolha” do/a autor/a dos comportamentos de assédio persistente.

6 - CELEBRIDADES COMO VÍTIMAS

Tratam-se dos primeiros casos de Stalking descritos formalmente. Em muitas situações, o/a autor/a dos comportamentos de assédio persistente poderá ser um/a fã que tem como objetivo estabelecer uma relações de intimidade com a sua figura pública de eleição. Existem, contudo, situações em que o/a autor/a dos comportamentos de assédio persistente atua motivado/a pelo desejo de vingança (ex.: perante o ressentimento de ver não correspondido o seu fascínio pela outra pessoa ou pelo facto de não conseguir concretizar o seu desejo de estabelecer uma relação mais próxima/íntima) ou em busca de algum favor (de âmbito profissional, por exemplo). O risco de violência é menor nestes casos, o que poderá ser explicado pelo fácil acesso que estas figuras públicas têm a medidas protetoras (por exemplo, contratando equipas de segurança ou guarda-costas que acompanham o seu dia-a-dia).

7 - FALSAS VÍTIMAS

Os casos de falsas vítimas acontecem com pouca frequência e são, normalmente, situações em que os papéis se invertem, isto é, em que o/a autor/a dos comportamentos de assédio persistente acusa intencionalmente a sua vítima de o/a perseguir/assediar, como forma de retaliação ou com o objetivo de prolongar ou manter os contatos com a/o mesma/o. Há outras situações em que a vítima, em consequência de uma vitimação por assédio persistente anterior e movida por sentimentos de alerta constante e desconfiança, interpreta comportamentos “normais” como sendo de assédio persistente. Nestas situações, a percepção de se estar a viver uma experiência de assédio persistente não é intencional, nem movida por desejos de vingança, tratando-se de um desajuste na leitura que é feita dos atos de outras experiências prévias de natureza traumática.

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QUAIS AS CONSEQÜÊNCIAS PARA A VÍTIMA?

O carácter persistente e imprevisível dos comportamentos impostos pelo/a autor/a do assédio persistente tem efeitos altamente penalizantes na saúde física e mental, no bem-estar emocional e no estilo de vida da vítima.

As vítimas veem-se frequentemente confrontadas com a necessidade de ajustar as suas rotinas diárias, sentindo-se cada vez mais aterrorizadas e sem controlo sobre as suas vidas.

Podem surgir na vítima alguns sintomas físicos e psíquicos como consequência do assédio persistente, tais como:

• distúrbios digestivos

• alterações de apetite

• náuseas

• dores de cabeça

• insonias

• pesadelos

• fraqueza

• cansaço

• exaustão

• alterações na aparência física (exemplo: mudar a cor e/ou cortar o cabelo)

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CONCLUSÃO

Um stalker pode estar brincando, mas muitas vezes pode ser uma pessoa que está precisando de ajuda, pois além de estar praticando condutas criminosas e poder causar dano grave a terceiros, o stalker lesa a ele mesmo. A fragilidade do stalker pode levar à auto-agressão, esgotamento, e outras comorbidades psiquiátricas, sem contar às consequências legais de seus atos. O stalker precisa ser visto por um profissional e a vítima, sem sombra de dúvida, deve preservar sua segurança, nunca confrontando ou subestimando um stalker (não se sabe o quanto esta pessoa pode estar mentalmente comprometida). A vítima deve evitar se comunicar com o stalker e deve informar sua família e amigos que está sendo perseguida. Quem está sendo perseguido deve atentar à sua rotina, seguir outros caminhos que não os habituais, registrar incidentes suspeitos e consultar a polícia caso se sinta ameaçada em sua integridade física ou se sua rotina estiver muito tolhida pelo perseguidor. Como sempre, existem os dois lados - a vítima sofre e, na maioria das vezes quem persegue também. Não tento descriminalizar certas atitudes nem o stalking, pois tudo que invade a esfera privada do outro é penoso e inadmissível, porém tento alertar que o stalker deve ser brecado e visto com atenção. O perseguidor pode ser uma outra pessoa que está sendo perseguido por ele mesmo, suas patologias, seus pensamentos e sua história de vida. Caso o stalker seja um paciente portador de doença mental, deve pagar pelo dano causado, mas deve também ter acesso a tratamento médico geral e atenção psiquiátrica adequada.

FONTE DE DADOS: APAV


Marina Baitello

Sou observadora de vidas. A vida não é o que lhe acontece, mas aquilo que se recorda e a maneira como se recorda. A vida é um monte de acasos que fazem sentido... Escrevo apenas olhando..
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