resumindo e substituindo o mundo

Um espaço para comunicação e expressão sob todas as formas

Marina Baitello

Sou médica, escritora e observadora do ser humano em suas mil e uma formas de existir. Trabalho com o presente, com a concretude das palavras e do discurso; trabalho com a potencialidade que cada ser humano traz em si de modificar seu futuro, isto é, trabalho para que pessoas encontrem um sentido maior para suas próprias vidas.

Walter Benjamin e a pandemia por coronavírus: reinterpretando o mundo

Em tempos de uma pandemia pelo coronavírus, os escritos de Walter Benjamin apresentam uma pertinência apocalíptica sobre a sociedade e sobre a forma como narramos nossas histórias. Os vencidos ocupam os espaços privados neste século e permanecem cada vez mais isolados e calados, compartilhando cada vez menos suas experiências individuais. Neste cenário, como será a narrativa do que está acontecendo hoje? Existirão vencedores reais após tantas perdas?


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A mente caleidoscópica e múltipla de Walter Benjamin, através de muitos fragmentos e pensamentos colocados em questão e postos em movimento, apresenta uma visão crítica da teoria da história e da "ilusão de progresso" vivida a partir do século XIX. Benjamin criticou ferozmente o determinismo científico-cultural e o otimismo cego, apontando uma crença confortável no progresso infinito, baseada na acumulação de bens, na dominação da natureza e aparecimento de forças produtivas infinitamente. O homem moderno vive um tempo vazio, de forma mecânica, narrado como história. Este tempo linear, medido matematicamente e computado em horas, minutos e segundos não leva em consideração a percepção deste tempo por quem o vive, um homem dotado de capacidade de rever o que viveu e romper com esta continuidade com uma ação humana no tempo vivido.

Benjamin tentou contar uma história sob o ponto de vista dos vencidos, criticando a narrativa histórica feita a partir de uma sucessão gloriosa de altos fatos políticos e militares, narrada sob a ótica dos "herdeiros" da história passada, isto é, dos vencedores que "caminham sobre os corpos dos vencidos". Os vencidos, na Paris do séc. XIX, ocupavam o espaço público, enquanto os vencedores (burgueses) desfrutavam do espaço privado, domiciliar, aristocrático. A catástrofe é colocada por Benjamin como o contínuo da história, como o sinônimo do progresso, pois o passado, para os vencidos não é senão uma série de intermináveis derrotas catastróficas. "O inimigo nunca cessara de vencer", segundo Benjamin em sua crítica à historiografia tradicional.

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Vivemos atualmente uma conjuntura mundial ímpar, causada pela pandemia do coronavírus e Benjamin, falecido antes de assistir ao genocídio praticado durante a segunda guerra mundial e antes de observar a destruição causada por armas nucleares, novamente mostra uma lucidez apocalíptica em seus escritos e pensamentos sobre o homem, as cidades e a vida moderna. Primeiramente, os vencidos continuam não narrando; há muito barulho, por parte da imprensa, de políticos, de autoridades espalhadas em todos os cantos do globo e não existe silêncio, tampouco falas. Além disso, a grande massa de vencidos calados encontra-se refugiada em seus espaços privados, isolados e amontoados, escutando muitas vozes dominarem o espaço público, muitas autoridades, muitas opiniões, pois o desejo de destacar-se da massa vencida toma as mesmas proporções da própria pandemia: ninguém deseja ser um mero vencido em sua casa; todos precisam ditar condutas e opiniões de respeito em meios de comunicação e redes sociais. Todos desejam ter voz desesperadamente, em um momento no qual há muitas vozes ecoando ao mesmo tempo. Ao final, temos uma minoria de vencedores de fato dentre a massa de vencidos e os vencedores são os que realmente falam e ditam ordens, globalmente.

A partir da década de 30 passamos a viver longe do lugar onde morríamos e nos distanciamos mais da morte. O hospital ou instituições médicas abrigaram a morte e acabamos poupados dela e de muitos de seus rituais. O enlutado foi silenciado gradativamente ao longo do tempo. Atualmente, pela situação de calamidade em que nos encontramos, a morte foi isolada ao máximo do homem comum e de sua família, que não podem nem ao menos velar seus mortos, mas, contudo, esta mesma morte é anunciada repetidamente em meios de comunicação, gerando um grande mal estar ao termos que lembrar sempre da morte e de nossa própria finitude. Somos obrigados ainda a observar que, a despeito de um "enorme" progresso, milhares de pessoas morrem diariamente e somos notificados em nossos lares sobre estes óbitos. A morte não está em nossa casa mas é jogada para dentro dela contra nossa vontade. Estamos vivendo traumas da vida cotidiana sem sair de casa, algo não "contável", inenarrável, isto é, fatos que o cidadão comum não é capaz de contar; não se falam dos traumas e perdas e escuta-se somente uma reverberação estéril do que já foi dito durante todos os informes oficiais e não oficiais de meios de comunicação de massa. Não temos contato com nossas experiências e dores. Os vencidos continuam atônitos, de olhos vítreos, sem voz sob o discurso de quem pode dizer mais alto, mais alto que o barulho da própria cidade e de seus noticiários. Assistimos a uma face catastrófica do nosso tão desejado progresso, quase vencidos por um agente biológico.

Temos muita informação que envelhece em segundos e poucas histórias sendo contadas em um momento importantíssimo, no qual escreve-se a história do homem e do mundo. Não suportamos o tédio, não suportamos nada que acreditamos poder ser abreviado e sempre acreditamos que qualquer sofrimento ou privação podem ser abreviados. O isolamento imposto pela pandemia é sentido duramente pelo homem moderno mecânico, que observa seu relógio funcionar e sente-se um pecador por não seguir seus ponteiros. A sociedade do "tempo é dinheiro", do tempo como mercadoria, foi retratada por Benjamin ao descrever a Paris do séc. XIX em "Passagens". Atualmente há um questionamento mais profundo sobre o tempo: o tempo "perdido" salva vidas e diminui o colapso dos sistemas de saúde. Precisa-se aceitar "perder" tempo (e dinheiro) por uma coletividade. Os vencidos devem aceitar perder mais e serem cada vez mais vencidos para não se perder tudo.

"O tédio é o pássaro de sonho que choca os olhos da experiência" (Walter Benjamin)

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Neste contexto, seremos capazes de narrar no futuro, tal como os fatos estão acontecendo, sem interpretações e sem direções pré-moldadas? A dignidade de um narrador reside em poder narrar sua história de forma completa, após ouvir verdadeiramente a história de outros diferentes dele. Ouvimos muito pouco, ou quase nada e cada pessoa possui suas próprias histórias, algumas delas tão dolorosas que não podem ser suportadas, tampouco narradas. Acabamos cumprindo, durante nossas vidas, as histórias que narraram sobre nós e narramos a nossa história da mesma forma que escutamos todas as histórias durante nossa vida, isto é, sempre pelo viés das vitórias e ganhos. Infelizmente, desta vez, estamos todos perdendo como civilização e cada um terá que reescrever sua história de uma forma menos confortável do que o faria. Somos todos vencidos neste capítulo; até mesmo os vencedores são vencidos quando se trata de doença e morte.

Cada um poderá narrar o tempo e o espaço que viveu no futuro e, como todo narrador, segundo Benjamin, cada um poderá deixar suas marcas e seus conselhos. Mas, como seriam estas narrativas e nossos conselhos futuros? A narrativa é como o curso de um rio, segundo João Cabral de Melo Neto e, para narrarmos, é preciso entrar em contato com nossas próprias experiências e observá-las como um rio, cujo curso fluido se quebra em pedaços e estanca em poços de água com suas palavras paralíticas, isto é, locais onde nossa narrativa cessa e cala. Após entrarmos em contato com nossa própria narrativa, devemos ouvir o que o outro fala, alguém diferente de nós, com diferentes crenças e opiniões, e devemos, enfim, continuar a história que este outro não foi capaz de seguir. Seguindo a história dos que passaram, a humanidade segue. Cresceremos se formos capazes de ouvir a voz dos calados e vencidos, isto é, da massa na qual estamos mergulhados e inseridos. O conselho tecido da experiência é sabedoria e este deve ser o nosso legado aos que virão para escutar nossa história e nossa narrativa individual e coletiva.


Marina Baitello

Sou médica, escritora e observadora do ser humano em suas mil e uma formas de existir. Trabalho com o presente, com a concretude das palavras e do discurso; trabalho com a potencialidade que cada ser humano traz em si de modificar seu futuro, isto é, trabalho para que pessoas encontrem um sentido maior para suas próprias vidas..
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