resumindo e substituindo o mundo

Um espaço para comunicação e expressão sob todas as formas

Marina Baitello

Sou médica, psicanalista e escritora. Escrever é abrir os olhos, como janelas de nosso corpo e poder refletir o mundo, um mundo já refletido e pensado por muitos, porém cheio de lacunas onde crescem nossas fantasias e verdades individuais. Nosso inconsciente é uma língua e possuímos um complexo linguistico, chamado personalidade.

Mais conectados e mais infelizes: éticas individuais e a pandemia

A pandemia pelo coronavírus acelerou um processo já em curso, a modificação veloz nas relações humanas. A incapacidade de formar vínculos, afetos cada vez mais superficiais e a atomização dos valores, culminaram na formação de éticas individuais em massa. A ética funciona como forma de diálogo, como desejo sem servir à coletividade. Somos mais infelizes, solitários, fundamentalistas e incompreendidos. Existe retorno para o homem pós-moderno, com sua ética única, atrás de suas telas?


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A pandemia pelo coronavírus trouxe mais conexões. Nos conectamos mais profissionalmente, pessoalmente, com familiares que nem pensávamos em conversar com tanta frequência outrora e até com estranhos que passaram a ser amigos ou mais. As telas foram palco de nossas comemorações mais íntimas e foram palco até de comemorações que seriam impensáveis por vias digitais há um ano atrás, como cenas de parto ou aniversários de crianças muito pequenas, que não podem ainda entender o que é uma tela e a internet, porém passaram a ter alguma noção do abstrato universo digital. Ao colocarmos o avô nas telas para uma criança pequena, colocamos a ausência deste avô, sem explicar que a tela não é presença, trata-se da imagem espelhada de um real, de uma ausência e de um vazio que se expressa em forma de saudade para a criança e para os adultos que a rodeiam. Assim, talvez crianças se enganem menos em relação a seus sentimentos, pois quando lançam a pergunta: “Mas afinal, onde está o meu avô e por que ele não pode vir?”, já questionam uma ausência não suprida por uma tela e, nossa resposta, que nos parece obvia em tempos de pandemia, não conforta nem convence, pois a criança compreendeu claramente que aquela imagem não é seu avô e que este não está presente somente porque apareceu em uma videochamada. Toda aprendizagem se inicia com experiências afetivas, uma “fome que põe em funcionamento o aparelho pensador” (Rubem Alves). O ser humano tem fome de afeto, embora busque tal gratificação de formas muito tortuosas, certas vezes. Afeto, vem do latim “affetare”, que quer dizer “ir atrás”. É o ser em busca de seu objeto de desejo, o Eros de Platão buscando o sonho, o ideal. Somos seres de desejo, moldados por uma família, uma cultura e uma grande estrutura social; em um âmbito maior, somos um núcleo que se modifica com nossas experiências estéticas e elementos de cultura.

“Tudo o que é sólido desmancha no ar”

(K Marx e F. Engels)

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Nossos elementos de cultura estão cada vez mais nos chegando velozmente, por mídias digitais, que ditam novas formas de pensar, novos padrões de beleza e novas formas de nos relacionar. Nesta pandemia demos passos sem volta no que diz respeito às formas de relações humanas: afetos e vínculos que já eram fugazes podem tornar-se ainda mais frágeis, até invisíveis. Relacionamentos nascem e morrem nas telas. Podemos fazer reuniões de amigos em salas de bate-papo e desaparecer por completo. Vivemos um tempo ainda de isolamento social, onde muitos respeitam as orientações sanitárias e alguns nem tanto: busca-se a satisfação imediata e fugaz de um desejo (uma festa, um churrasco, uma temporada na praia) com o adelgaçamento das relações humanas em curso, sem o devido adiamento do prazer e consciência social. Nossa conectividade cria necessidades incessantemente, cria desejos, não gera certezas e nos apresenta um mundo sem formas. A individualidade e a intimidade deixaram de existir para muitos, pois afinal, com tanta interação e compartilhamentos, compartilha-se passeios, mimos, parceiros, intimidades até o desaparecimento completo do termo “violação da vida privada”, pois o ser exposto é o agente da exposição. Mensagens e dizeres são compartilhados sem nenhuma vivencia interna correspondente. Acredita-se em fatos porque estão na tela e ocorre a atomização da informação. Temos a ética como desejo e não como uma ética para o coletivo, com atomização de valores e a promoção de um mundo que ninguém pode sofrer ou frustrar-se (frustrar-se não está nos belos moldes de telas). A pandemia e sua hiperconectividade acabaram por auxiliar o naufrágio ético já em curso há algumas décadas, pois até o processo investigativo e a democracia foram postos em cheque com pessoas em suas casas, mergulhadas na mais profunda ambivalência, abrigadas em seus medos e postulando seus próprios fundamentalismos (compartilhados profusamente como verdade, sem nenhum crivo, pois quando a ética é própria, a moral e as leis também são; pode-se dizer tudo e fazer tudo em nome do desejo e em nome do eu).

Estamos mais conectados, porém cada vez menos relacionados. Temos mais conversas e mais contatos, porém as relações humanas ocorrem em tal velocidade, que vivemos em um emaranhado de contradições. A promessa de liberdade da modernidade não se cumpre, pois quando temos pressa, não conseguimos estabelecer vínculos e não nos relacionamos verdadeiramente. Não há trabalho e cultivo de afetos com tal velocidade de conexão, pois sempre estamos de passagem, em trânsito e sem possibilidade de amar e se afeiçoar. Nunca estamos disponíveis e podemos fazer e desfazer “laços” em segundos. Fazemos o que bem entendemos, com nosso mundo interno e o do outro, alegando ser a supremacia de nosso EU, preferindo sempre reinar no inferno do que ser servo do paraíso... Somos infratores da vida privada para experimentar a fugaz sensação de liberdade a qualquer custo, pois a invasão de tantas conexões permite a sensação de “popularidade”, “sucesso” ou "de não se ter tempo” (leia-se, não se ter tempo nem para sentir ou viver cada vínculo). Cada um possui sua microesfera de poder e sua ética individual, que proporciona uma vida possível de ser vivida. No mundo da hiperconectividade, “o inferno são os outros” (Jean Paul Sartre), pois existem tantos olhos virtuais que a infração, a aberração e a violência tornam-se diferenciais para muitos egos. Inúmeros sistemas éticos individuais estão em diálogo desta forma, porém delimitando poucos limites do que cada um pode vir a ser neste tipo de modelo de vida.

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Estar conectado não é um sinônimo de estar com o outro, não temos tempo para o outro e não compreendemos que espaço o outro demanda para estar em nossas vidas. Somos identidades em trânsito nos relacionando com outras identidades de passagem. Infelizmente a Modernidade traz consigo a promessa de felicidade intensa, porém esta mesma Modernidade não nos deixou o caminho das pedras. Almejamos um sucesso precoce e absoluto: uma carreira incrível, ser lindo (a), ter muitos amigos, estar sempre de bem com a vida... Queremos tudo e nosso “tudo” exige tempo, exatamente o que não dispomos. Como escrito por Freud “Somos seres incompreensíveis por natureza.” O ser humano não é racionalizável. Somos seres complexos e ambivalentes lutando com nossas características.

Enfim, o que poderíamos fazer em busca da felicidade? A felicidade pode estar no caminho de volta, onde as mesmas crianças que observaram que seus avôs não estavam nas telas, muito menos em suas casas, recuperem o valor da presença e de estar com, quando a pandemia permitir. A felicidade, após o naufrágio ético, pode estar com aqueles que fizerem seu sistema ético próprio reverberar com outros para a construção da coletividade dissolvida e pulverizada, onde pode-se desejar tudo como humano que somos, mas não se pode ter tudo, nem dizer tudo em nome do eu, singular e fraturado por tanta liberdade.


Marina Baitello

Sou médica, psicanalista e escritora. Escrever é abrir os olhos, como janelas de nosso corpo e poder refletir o mundo, um mundo já refletido e pensado por muitos, porém cheio de lacunas onde crescem nossas fantasias e verdades individuais. Nosso inconsciente é uma língua e possuímos um complexo linguistico, chamado personalidade..
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