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Marina Baitello

Médica, psicanalista e escritora. Escrever é abrir os olhos, como janelas de nosso corpo e poder refletir o mundo, um mundo já refletido e pensado por muitos, porém cheio de lacunas onde crescem nossas fantasias e verdades individuais, nossa personalidade, nosso inconsciente - uma língua só nossa, específica para cada ser.

Objetos no reto e estigma: você faz o que realmente deseja na cama?

Você é realmente livre para determinar como ter prazer? Algumas práticas sexuais consensuais e comuns ainda são vistas como variações sexuais aberrantes e estranhas, tais como os casos de objetos introduzidos no reto, que ocorrem em diversos contextos socioculturais. A sexualidade se mostra uma invenção social e não uma condição natural do indivíduo. Não há sujeito sem poder e seu prazer pode não ser somente sua escolha individual.


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Guangdong, na China, radiografia de idoso de 60 anos com uma garrafa de vidro de 18 centímetros inserida no reto.

Em uma noite fria eu estava em um plantão de pronto-socorro e atendi um senhor de cerca de 60 anos em uma cadeira de rodas, alegando impossibilidade de andar e muita dor abdominal. Este homem mostrava-se calado, muito pálido, sem demonstrar disposição para diálogo e pouco cooperativo para fornecer dados sobre si e sobre seu estado de saúde. Observando cuidadosamente, notei um pouco de sangue em suas calças, um moletom cinza claro, surrado e simples. A pobreza de dados obrigou a realização de muitos exames, porém, um raio X simples revelou um frasco de shampoo no reto, de cerca de 20 cm de comprimento, que estava causando a perda de sangue e a dificuldade de deambulação. Foi realizada uma cirurgia para retirar tal objeto. Este homem perdeu uma grande parte de seu intestino por complicações cirúrgicas. Tratava-se de um caso ocorrido no contexto de uma relação sexual com seu parceiro, em busca de prazer anal e a prática fora consentida e consensual entre ambos.

O constrangimento deste paciente era visível e perdurou durante toda a internação. Tal ocorrido era apresentado como prática homossexual, perversão, parafilia, desvio da norma, loucura e até “fraqueza moral”. Infelizmente existem muitos casos como este na literatura médica, que se apresentam das mais diversas formas, porém apresentam um ponto em comum: o constrangimento sofrido nos serviços de saúde quando se procura auxílio médico.

Não existem dados epidemiológicos sobre a ocorrência de incidentes de corpos estranhos no reto então é impossível saber a frequência desta prática. Além disso, talvez os casos extremos – como o do homem que apareceu num hospital de Hong Kong com perfuração retal por uma enguia – estejam supervalorizados na literatura médica, em detrimento de uma análise de uma prática sexual cotidiana, talvez vulgar e consensual entre parceiros homo ou heterossexuais. Também já foram descritos casos envolvendo guarda-chuvas, canos de escopeta, velas, pepinos, cabos de vassoura, tubos de aspirador, cabos de martelo, garrafas e, obviamente, vibradores, que acidentalmente se invaginaram para o reto por uso inadequado. O primeiro objeto no reto descrito em uma revista médica, a norte-americana JAMA, data de 1919: um copo. Quase qualquer objeto imaginável já serviu para proporcionar prazer anal a alguém. Em uma avaliação de 30 casos de objetos inseridos no reto, a equipe médica salienta que em cinco dos casos a homossexualidade era um “fator associado. Curiosamente os heterossexuais não são classificados como um grupo no qual se possam observar corpos estranhos, embora só 5 dos 30 pacientes, ou 17%, tenham sido identificados como homossexuais. Este tipo de análise reforça ainda mais a ideia de que esta prática sexual não está ligada a gênero ou orientação sexual.

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Objetos no reto: uma prática não exclusiva de homossexuais, não estando ligada a gênero ou orientação sexual.

Estas descrições vinculam tais casos a práticas aberrantes, no contexto de um sistema “heteronormativo” cujo único modelo válido é a relação heterossexual tradicional. Por que não situar os corpos estranhos no reto no âmbito das práticas sexuais consensuais e saudáveis entre pessoas de vários gêneros e orientações sexuais? Muitos pacientes são totalmente sinceros ao procurarem um serviço de saúde, como uma mulher que chegou ao pronto-socorro e relatou ter introduzido um desodorante roll-on inteiro no reto enquanto “brincava com o marido” em busca de prazer anal. Normalmente, a condução de casos de objetos no reto, revela que médicos reforçam “o tabu do prazer anal” e contribuem para que pacientes, por vergonha, adiem a ida ao hospital, agravando casos mais graves e, até, colocando vidas em risco pelo estigma que envolve tais atendimentos. Há uma cultura da vergonha em torno do prazer anal. Cerca de 69% dos estudos médicos vinculam os corpos estranhos no reto a práticas sexuais “pervertidas ou aberrantes”. Observa-se que apenas 16% dos estudos analisados a reação médica apresentada foi completamente profissional e sensível.

A medicina e a psiquiatria se baseiam em dividir as coisas em normais e anormais ou patológicas. Infelizmente, o anormal frequentemente não se refere simplesmente a uma variação da norma estatística; esse anormal está envolto em ideias derivadas da cultura a respeito do que é um comportamento moral.

Michel Foucault analisou os dispositivos de produção da sexualidade e percebeu que o sexo e, portanto, a própria vida, se tornaram alvos privilegiados da atuação de um poder disciplinar que já não tratava simplesmente de regrar comportamentos individuais ou individualizados, mas que pretendia normalizar a própria conduta da espécie, bem como regrar, manipular, incentivar e observar microfenômenos como as taxas de natalidade e mortalidade, as condições sanitárias das grandes cidades. A partir do século XIX, já não importava mais apenas disciplinar as condutas, mas também implantar um gerenciamento planificado da vida das populações. Planificar uma conduta populacional é uma forma de determinar as práticas sexuais do indivíduo, reforçando a função biológica e reprodutiva do ato sexual.

Como a minoria que acredita deter o poder contém a maioria? Como os indivíduos reagem frente à dominação das instituições?

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As formas de discurso são também uma forma de regular o sexo, tais como o silêncio e a censura. O sexo não está explicitamente proibido, mas as formas de abordagem das práticas sexuais moldam o comportamento individual. A igreja, por meio das confissões, fala do sexo aprovado no meio cristão; a medicina, em conjunto com a psiquiatria e o judiciário, ao estudar perversões e a própria racionalidade, mostram a necessidade de regular o sexo por meio de discursos úteis e públicos sem proibir explicitamente o ato sexual. Classificar práticas sexuais como "fora da norma" e explicar a sexualidade individual racionalmente e cientificamente são meios potentes de regulação do comportamento dos indivíduos. A valorização do segredo em torno do sexo é, também, uma característica das sociedades modernas, que se inicia na educação infantil e já apresenta uma censura precocemente sobre a sexualidade, o desejo e o prazer.

Quando se qualifica o discurso sobre sexo, surgem sexualidades úteis e conservadoras. Entre elas está a monogamia heterossexual como regra, pois outras formas de sexualidade não vão de encontro à lei jurídica e natural. A homossexualidade aparece como personagem da sexualidade, como uma prática da sodomia, como podemos observar nos atendimentos de objetos introduzidos no reto, cuja maior incidência ocorre em homens de meia idade, de acordo com alguns estudos.

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Objetos no reto: uma prática consensual e comum na maioria dos casos, realizada tanto por parceiros homo ou heterosexuais (algumas vezes sem parceiros, apenas com o objetivo de obter prazer anal), com prevalência ligeiramente maior em homens de meia idade.

A identificação do indivíduo é feita, por muito tempo, de acordo com a referência que o mesmo possui através de vínculos que este tem com outros indivíduos (família, por exemplo). Em seguida, o indivíduo se identifica pelo discurso que este é capaz de criar sobre si mesmo, sua verdade pessoal. E, nesse aspecto de autenticação do indivíduo, a confissão, já citada, é um instrumento usado pelo poder para definir sua sexualidade. Portanto, por um lado temos a “interdição” (ou obrigatoriedade) de esconder o sexo e por outro temos o “dever” de confessá- lo a um dispositivo de poder maior. Pela confissão há uma medicalização do sexo. Ir ao médico é um ato confessional e indivíduos com sexualidade "fora da norma" são minuciosamente classificados, tratados e identificados. O médico assume a tarefa de decifrar, revelar o desejo e “tratar” ou “medicar” o desejo inconsciente "fora da norma", que se manifesta em práticas sexuais carregadas de estigma e vergonha para o sujeito. Assim é criado o dispositivo da sexualidade, fundamentado nos instintos que regulam os desejos (internos), moldando o sujeito através de dispositivos de poder externos e tido como legítimos, donos da "verdade" sobre a sexualidade e o comportamento de cada ser.

A sexualidade seria então um conjunto de efeitos produzidos nos corpos, nos comportamentos, nas relações sociais, por um certo dispositivo pertencente a uma tecnologia política complexa. Surge uma nova organização sobre a vida, que podemos chamar de biopoder, onde a sociedade normaliza a vida e o corpo. O dispositivo sexualidade é o precursor para que questões como desejo e questões relativas às relações sexuais, frutos da construção social e, portanto instrumento de separação de classes. Neste ponto, a separação de classes se manifesta pela maior ou menor privacidade “merecidas” no atendimento médico referente a questões sexuais e objetos no reto. Indivíduos de baixa renda são atendidos normalmente em serviços públicos, que atendem em alas coletivas, onde o diagnóstico e as observações sobre cada caso e sua intimidade são facilmente disseminadas, contribuindo para o constrangimento durante o tratamento médico. A disparidade de renda, também, limita o acesso a produtos eróticos específicos para o prazer anal, além de limitar o acesso a educação e informação que alertariam sobre o risco e a ocorrência de acidentes inerentes a determinadas práticas sexuais inseguras (não proibidas moralmente, mas que oferecem risco à saúde e à vida). 5.png

Existem contextos puramente sociais que compreendem a prática de introdução de objetos no reto, tratadas igualmente de forma estigmatizante e hostil, tais como o caso de um homem de 50 anos que introduziu uma cenoura de 20 centímetros no reto. Este homem passou horas sem mencionar o objeto, mas depois da operação relatou que a introduzira “porque tinha lido na Internet que era bom para as hemorroidas”. Este tipo de ocorrência é observada também em penitenciárias, em alguns transtornos psicológicos ou mentais, em tentativas de suicídio ou homicídio, em casos de estupro ou agressões sexuais, em pessoas com alteração da consciência sob os efeitos de drogas ou álcool ou em mulas que ocultam narcóticos.

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Ovo no reto, encontrado pelo médico Mohammad Taghi Niknejad em uma mulher de 56 anos. Neste caso o objeto estranho foi inserido como forma de cuidados paliativos para se aliviar o sofrimento ou a dor de determinadas condições médicas em alguns vilarejos de população carente. Neste caso há uma fratura total de colo de fêmur, fonte de dor e limitação para a paciente.

Historicamente, com a difusão do cristianismo ocorre uma alteração do cenário das relações humanas, quando ocorre a ligação entre o sexo e o pecado. O homem ocidental tornou-se o sujeito do desejo e indivíduos dotados de moral são convocados a serem sujeitos morais da conduta sexual. A sexualidade é um produto desta noção de poder exercida sobre o indivíduo, sendo por si só, uma construção onde se entrelaçam a preocupação com a moral e o prazer. Na Grécia Antiga o ato sexual era visto como algo positivo. Já para os cristãos, o ato sexual era associado ao mal, o que levou à instituição de uma série de atitudes visando a queda na infidelidade, homossexualismo e da não castidade. A partir daí, pregou-se uma abstenção, rigidez e respeito à interdição, sujeitando o indivíduo ao requisito cristão em torno do sexo. Inicia-se, neste momento, uma doutrinação sexual, codificando uma experiência moral em bases cristãs. Na sociedade helênica, a homossexualidade era livre, fazendo parte de ritos que eram mantidos por mestres e seus pupilos, tudo em nome da busca pela sabedoria. Havia era uma técnica de atenção voltada para o corpo, um cuidado de si que influenciava nas práticas sexuais. Os homens gregos podiam escolher livremente entre parceiros de ambos os gêneros, pois o homossexualismo era permitido pela lei e pela opinião pública, havendo uma grande tolerância para com o mesmo. O casamento era restrito ao espaço menos nobre.

Dentro de um convívio social temos diversas culturas, classes, histórias e sexualidades, posicionando-se em diferentes grupos sociais, formando também diversas identidades. Temos concepções que refutam as criadas pelo senso comum, pois se afastam da ideia de masculinidade e feminilidade hegemônica impostas, pelo simples fato de serem consideradas diferentes. Serão sempre as condições histórias específicas que nos permitirão compreender melhor, em cada sociedade específica, as relações de poder que estão implicadas nos processos de submetimento dos sujeitos, como a sexualidade individual. A construção da identidade de gênero é um processo histórico, moldada pela época e pelas microrrelações de poder a que está submetida, é um reconhecimento de si que o sujeito carrega, sendo mais fácil modificar sua forma anatômica (sexo) do que sua constituição psicológica (gênero). Gênero e de sexualidade são atribuições naturais, essenciais de cada ser humano. Não há essências, mas sim histórias, individualidades, corpos e subjetividades construídas a partir de uma inserção histórica, perpassada por relações patriarcais de poder.

Sexualidade e gênero não são destinos naturais, mas construções históricas e sociais que diferenciam e discriminam as pessoas. Do mesmo modo, permanece a esperança porque, enquanto construções culturais, podem bem ser desconstruídas em prol da igualdade. O processo de construção da identidade do sujeito é um movimento além do que pode ser visto em seu momento histórico. Assim, temos as práticas de liberdade, a renovação contínua do sujeito em sua identidade, que cria novas singularidades e, logo, novas formas de pensar sobre sua vida e seus propósitos. Esse movimento construtivo é uma construção não estática do que conhecemos e do que consideramos normal-anormal. O conceito de normalidade é móvel e deve ser sempre revisto e reavaliado de acordo com novos paradigmas.

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Sujeitos que se apresentam em serviços de saúde com objetos no reto não deveriam ser constrangidos ou estigmatizados, pois são pessoas com sua sexualidade única e singular, produto de um momento histórico e social, submetidos a dispositivos de poder e vítimas da disparidade de classes. Deve-se levar em conta que a introdução de objetos no reto nem sempre se dá pela busca de prazer, o que é mais um sintoma de um contexto social, nem sempre erótico. Não há sujeito sem dispositivos de poder e o prazer de cada um pode não ser somente fruto de sua escolha individual, mas sim um produto de forças em um determinado contexto histórico e social.

Fontes:

1. O último tabu médico: os objetos no reto – matéria publicada brasil.elpais.com Manuel Ansede 20/2/2017

2. Dispositivo da sexualidade em Michael Foucault: a história moldada pelo poder Kravczuk APR, Nielsson JC, VI Seminário Internacional de Direitos Humanos e Democracia, novembro 2018, UNIJUI, RS, Brasil.

3. FOUCAULT, Michel.

• História da sexualidade I: a vontade de saber. Graal, 2001. • História da sexualidade, II: o uso dos prazeres. Graal, 2007. • História da sexualidade III: o cuidado de si. Graal, 1985.


Marina Baitello

Médica, psicanalista e escritora. Escrever é abrir os olhos, como janelas de nosso corpo e poder refletir o mundo, um mundo já refletido e pensado por muitos, porém cheio de lacunas onde crescem nossas fantasias e verdades individuais, nossa personalidade, nosso inconsciente - uma língua só nossa, específica para cada ser. .
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