resumindo e substituindo o mundo

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Marina Baitello

Médica, psicanalista e escritora. Escrever é abrir os olhos, como janelas de nosso corpo e poder refletir o mundo, um mundo já refletido e pensado por muitos, porém cheio de lacunas onde crescem nossas fantasias e verdades individuais, nossa personalidade, nosso inconsciente - uma língua só nossa, específica para cada ser.

Quando a maternidade é um projeto para não acontecer

Quando nasce uma menina, nasce a expectativa que ela seja uma futura mãe. É muito comum que meninas escutem ainda a famosa frase "Quando você tiver seus filhos você vai ver"... A medicina mostrou que nem todas mulheres nasceram para parir e serem mães, por diversas questões médicas e psicológicas. Quando deve-se repensar a maternidade?


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Todas as mulheres nascem com inúmeros óvulos e, desde a infância, espera-se que aquela menina que brinca e balbucia suas primeiras palavras, um dia tenha seus filhos. Aquela menina normalmente pensa em sua velhice com filhos, idealiza-se comumente netos ao redor de seus pais, imagina suas crianças correndo e brincando com os filhos de suas amigas sob o seu olhar. Chega a parecer uma ousadia pensar que justamente ela poderá ser feliz sem este cenário. A natureza preparou o corpo da mulher para um dia ter seus filhos, procriar-se, formar uma família muito feliz e com um companheiro, algo para se colocar em muitos porta-retratos da sala. A natureza não alerta sobre a possibilidade de se desgastar e ferir-se irremediavelmente tentando ter filhos ou de ser extremamente infeliz neste sonho dourado chamado maternidade.

Poucas pessoas narram projetos de maternidade que castigam e matam a mulher. Um filho pode ser a atitude mais narcísica de uma futura mãe: o desejo de um projeto, um projeto que já nasceria predestinado a ser como ela ou como o pai, predestinado a aprender e realizar inúmeras projeções de um casal feliz, que está gerando este filho. O primeiro castigo seria notar que filhos nascem e seguem seu próprio script, se constituindo, muitas vezes, diferente do que seus pais desejavam. Que casal desejou um dia ter um filho ou filha doente? Que pai ou mãe desejaram um dia ter um filho ou filha fora da lei? Por fim, que pai ou mãe desejariam ter uma criança muito diferente do que imaginam como bom, perfeito e feliz? Isso não estava escrito no sonho feliz de maternidade ou paternidade.

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Projetos de maternidade são sonhos e sonhos nem sempre acontecem. Existem os sonhos que se realizam, mas acabam com todos os outros sonhos já sonhados e até já realizados. São os sonhos que destroem. Neste caso estão os filhos que separam seus pais, não porque estes possuem este poder, mas sim porque seus pais não estavam preparados para receber este presente, um terceiro elemento na família. O estresse de criar uma criança pequena, as pequenas divergências do dia a dia, os cônjuges que se distanciam com discordâncias sobre como sobreviver a uma rotina com um filho. Assim, um bebê lindo e saudável pode vir para o casal errado e na hora errada, destruindo muitas uniões que não estavam prontas para suportar a maternidade. Seria possível dizer não nestes casos? Seria possível abdicar ou esperar mais para ter este bebê?

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Projetos maternidade que envolvem risco materno são projetos que nascem já para serem desfeitos, sem serem realizados, muito menos cogitados ou pensados. Trocar uma vida por outra sempre será inaceitável. Abrir mão deliberadamente de qualquer vida é inaceitável. A morte tem sua hora e, se uma gestação significar a morte de uma mulher, não seja romântico (a); O preço a pagar é alto demais.

Existem ainda doenças maternas que são ditas “reversíveis”, mas que também podem significar a morte existencial da vida da mulher. Como se poderia matar uma existência? Uma existência é posta em risco quando perde-se a vontade de viver e empreender, desligando a mulher de seu sentido da vida. O sentido da vida está além de apenas existir. O sentido da vida está no propósito que nos move a cada dia e que nos faz cumprir tarefas duras por um objetivo maior, que varia de pessoa para pessoa. Doenças psiquiátricas pós parto, tais como depressão pós parto ou psicose pós parto, depressão ou luto complicado após abortamento espontâneo ou depressão severa durante a gestação são exemplos de problemas que podem causar uma descontinuidade na linha da vida e perda do sentido de viver e da pulsão de vida. Mulheres que sofrem neste caminho, podem perder sua capacidade de trabalho e perder também sua capacidade de se relacionar, pois sempre haverá um sentimento de incompletude, da uma mãe que não aconteceu ou de uma mãe que aconteceu, mas que foi insuficiente para seu marido e para seu bebê. A melancolia ou o distanciamento mãe-bebê por uma doença materna (mental ou não), dificultam todo o processo de maternagem e podemos, neste contexto, ter crianças com dificuldades de apego e com falhas na estruturação da personalidade.

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A maternidade tóxica, enfrentada por mulheres mais velhas férteis ou mulheres jovens com problemas de fertilidade, além de passar pelo funil biológico das possibilidades de fracasso para a mãe e a criança, passam também pelo funil das possibilidades de fracasso de ordem social impostas neste trajeto chamado maternidade; não é raro que muitos parceiros abandonem suas parceiras gestantes em casos de gestações complicadas. Também não é raro que relacionamentos não resistam à primeira infância da criança (por complicações relacionadas a educação de um filho pequeno ou problemas de saúde remanescentes da gestação ou puerpério da mulher). Se antigamente casais nadavam junto, atravessando um oceano até chegarem à margem calma, com seu bebê (concebido por vias naturais ou não), superando todas as terríveis vicissitudes, atualmente casais completam somente os cem primeiros metros e, caso ocorra o nascimento de um bebê, este ficará boiando no mar, no meio de um casal desfeito tentando suplantar a falta de pais presentes para este bebê à deriva. Frequentemente um dos pais é predominante, deixando uma figura parental vicariante. Nesta configuração alguém estará sempre sobrecarregado, exercendo o papel de pai e mãe e o outro terá, consequentemente menos vinculo com a criança. Esta é a narrativa das inúmeras mães solteiras, embora existam os pais que cuidam sozinhos de seus filhos (algumas vezes por problemas maternos, em certos casos por gestações tóxicas e equivocadas que deveriam ser repensadas antes de serem planejadas).

Sim, a maternidade pode matar e a maternidade não deve ser uma condição para uma mulher ser feliz e completa. A maternidade pode matar uma mulher deixando-a viva e absolutamente infeliz e perdida. A maternidade pode matar por um aborto, um luto interminável, pode matar por um divórcio, que pode marcar a ferro a autoestima de uma mulher com ou sem um bebê recém-nascido ou muito pequeno. A maternidade pode matar quando a mulher passa a valer menos por não gerar mais filhos. A maternidade é algo bonito e sublime em determinadas condições para a mulher, mas há um contexto social e pessoal que deve ser analisado; neste contexto, a vontade da mulher deve vir em primeiro lugar, pois esta é responsável pelo gestar e responsável irrefutavelmente por uma dimensão enorme do mundo da criança. Caso a mulher esteja com capacidade reduzida de gestar (por ser madura demais ou por qualquer causa médica) o peso da infertilidade não deve recair sobre a mulher, como esta estivesse desrespeitando um destino mandatório que a vida impõe como adequado. A infertilidade é um termo que deve ser discutido a DOIS e, analisando-se friamente, não existe infertilidade absoluta. Sempre há uma forma de ser mãe (ou de ser pai), basta cada mulher ter este desejo e descobrir qual melhor forma para receber uma criança (gerada com recursos médicos ou não) em sua vida, entendendo que este ser dependerá absolutamente de tudo de sua mãe, mas que também trará todas as suas glórias para esta mãe que o recebe e o deseja.

"Quem tem porquê viver aguenta quase todo como"

F. Nietzsche

Existem mil e um tons de existir, logo existem mil e uma maneiras de ter um filho e criar uma criança. Existem ainda um milhão e uma maneiras de ser um bom pai ou mãe para cada criança existente no mundo. Considerando todas as formas de maternidade e paternidade, temos um bilhão de formas de formar famílias felizes e adequadas. A configuração familiar mudou muito ao longo do tempo e, com tais mudanças, existem muitas formas de suprir as necessidades de filhos, biológicos ou não. Caso a medicina feche todas as portas para você, existe ainda a adoção: seu filho, seu sonho, seu projeto de maternidade pode nascer de outra pessoa e pode estar esperando por você, no momento que você estiver maduro (a) e pronto (a) para recebe-lo como SEU, sem nem analisar repetidamente de onde seu bebê veio. Filho é filho e seu filho nunca será seu, seja qual for a barriga que o abrigue e permita que ele venha ao mundo. Filhos são uma ânsia da vida para o mundo.

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"Vossos filhos não são vossos filhos.

São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.

Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós, Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados. Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.

O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe. Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria: Pois assim como ele ama a flecha que voa,

Ama também o arco que permanece estável."

Khalil Gibran

Uma homenagem a médicos: ginecologistas e obstetras, que incansavelmente cuidam da saúde da mulher e acolhem toda e qualquer questão difícil e humana sobre fertilidade e a continuidade da vida.


Marina Baitello

Médica, psicanalista e escritora. Escrever é abrir os olhos, como janelas de nosso corpo e poder refletir o mundo, um mundo já refletido e pensado por muitos, porém cheio de lacunas onde crescem nossas fantasias e verdades individuais, nossa personalidade, nosso inconsciente - uma língua só nossa, específica para cada ser. .
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