retalho de luz

Conteúdo fotográfico interessante, para quem se interessa.

Eliane Terrataca

Jornalista, SM, viciada em música, apaixonada por livros e tarada por fotografia. Acompanhe também seu blog - Fós Grafê (www.fosgrafe.com)

Para compreender a fotografia - a reflexão sígnica de Fernando Pessoa

A compreensão da teoria sígnica proporciona um olhar diferenciado e aprofundado a quem se dedica à fotografia.


Há alguns anos atrás, enquanto eu realizava pesquisas pelo site Domínio Público, deparei-me com um texto muito interessante de Fernando Pessoa. Confesso que fiquei surpresa por encontrar uma reflexão do autor a respeito da teoria sígnica (e não estou falando de astrologia!). Gostei tanto que guardei o texto comigo e, hoje, escolhi para inaugurar o espaço que ganhei aqui no Obvious.

Trata-se de uma reflexão sobre o processo de interpretação que as pessoas têm ao observar um símbolo. O texto é uma introdução de uma série de poesias que Fernando Pessoa escreveu sobre Portugal. Não é nada fácil compreender esta teoria, mas ele fez algo complexo parecer simples! Acho importante que qualquer pessoa que se dedique à fotografia (profissionalmente ou não) alimente o pensamento crítico sobre a imagem. Resumindo, a fotografia é um símbolo, uma coleção de signos, que possibilita infinitas interpretações a cada pessoa que a observe. Leia e reflita!

Fernando Pessoa

"O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo."


Eliane Terrataca

Jornalista, SM, viciada em música, apaixonada por livros e tarada por fotografia. Acompanhe também seu blog - Fós Grafê (www.fosgrafe.com).
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