réu confesso

Filmes, livros e discos que fizeram a minha cabeça

Rafael Monteiro

Sou o que soa. Eu não douro pílula

Os 12 melhores álbuns do meu ano - Parte 2

Dois velhinhos e dois rappers da nova geração estão na segunda parte da lista dos melhores discos do ano do Réu Confesso. Veja quem são os artistas que ocupam a oitava, sétima, sexta e quinta colocação do ranking do autor.


Channel-Orange1.jpg8º - Frank Ocean - Channel Orange Antes de lançar o disco mais comentado do ano em julho, Frank Ocean já era bastante comentado por aí. E não era por conta do seu primeiro disco, “Nostalgia, Ultra”, nem por conta da linda “Made in America”, com quem dividiu os vocais com os seus padrinhos Kanye West e Jay Z no disco “Watch the throne” - o melhor de 2011, para mim. Cerca de uma semana antes do lançamento de “Channel Orange”, Ocean assumira em uma das suas redes sociais que era gay. Muitos acreditaram ser uma ação de marketing. Nunca um rapper havia declarado ser homossexual. Mas o que tinha tudo para ser só mais um produto do show business conseguiu se sobressair como produto pop: o rapper fez, sim, um ótimo disco comercial. Bastante ambicioso, apresentando 17 músicas que seguem um roteiro convicto (mais um álbum que opta por ser apresentar e despedir do ouvinte: a primeira música se chama “Start” e a última, “The End”), o trabalho conta com músicas que fogem totalmente dos clichês da música negra. “Pilot Jones”(We once had things in common/Now the only thing we share is the refrigerator), “Forrest Gump” (com várias citações do livro e filme, como I wanna see your pom poms from the stands Come on, come on e I re-mem-ber you/If this is love, I know it's true) e a épica “Pyramids” (Set the cheetahs on the loose/ There's a thief out on the move/ Underneath our legion's view/ They have taken Cleopatra) - uma espécie de Living in the city, do Stevie Wonder, moderna – contam três das melhores incomuns histórias escritas pela música nos últimos tempos. As inúmeras listas que hoje colocam o “Channel Orange” como melhor disco do ano noticiam o que os jornais não se deram podiam imaginar: Ocean havia superado preconceitos e feito história naquele mês de julho.

Por outro lado: “Channel Orange” é estritamente pop. Os arranjos fáceis e a voz chorosa de Frank Ocean podem enjoar alguns ouvidos depois de um tempo. Além disso, no meu caso, as grandes músicas do álbum funcionam melhor sozinhas, como se fossem capítulos soltos. Até agora o disco inteiro não funcionou para mim por inteiro.

Ouça primeiro: Pilot Jones As melhores: Pilot Jones, Forrest Gump e Pyramids

7º - Leonard Cohen - Old Ideas leonardcohenoldideascapa.jpgO locutor erótico septuagenário já mostra na primeira faixa a que veio: em “Going Home”, provavelmente a minha música favorita do ano, Leonard Cohen diz no primeira estrofe que adora conversar com um tal Leonard, mesmo ele sendo um preguiçoso dentro daquele terno. É o modo genial do compositor brincar consigo mesmo e se apresentar ao público, mesmo sabendo que todos já o conhecem. Ele está voltando para a casa com todos os seus defeitos, como diz a música. Não tão diferente como anuncia o lindo coro feminino ainda na primeira música, mas ele está ali, narrando ao nosso pé do ouvido as suas velhas ideias. Diante de uma "Darkness", um dos melhores rocks da sua carreira, cabe a nós apenas sentarmos no chão e ouvirmos como bons netos.

Por outro lado: muita gente não gosta do velho jeito sussurado de Cohen cantar. Se você é um deles, esqueça. “Old Ideas” não foi feito para ninguém mudar de opinião sobre o compositor. O álbum só reforça as qualidades de sempre, incluindo a interpretação das músicas. Mas só quem já gosta pode concordar.

Ouça primeiro: Darkness As melhores: Going Home, Darkness, Crazy to Love You

6º - Bob Dylan – Tempest Bob_Dylan-Tempestcolor.jpgBob Dylan nunca mais deixou de fazer um disco que não fosse ótimo desde o excelente “Time out of the mind” (não incluo o simpático natalino “Christmas in the heart” na discografia). A excelência do velho Dylan banaliza todos os nossos adjetivos. Por isso, eu roubo os versos confusamente doces de Soon After Midnight (I'm searching for phrases to sing your praises/I need to tell someone) para dizer o quanto é difícil elogiar um compositor, por exemplo, capaz de segurar a atenção do ouvinte com uma história que todos já conhecem de cor (Titanic, cantada na faixa-título). Mas talvez a minha faixa favorita do disco seja mesmo a já citada Soon After Midnight, com Dylan dizendo que é capaz de arrastar um cadáver pelo chão se for para ficar ao lado da sua amada. Fúria e poesia a serviço de outro disco brilhante. Mais um da fila.

Por outro lado: a voz de Dylan está melhor hoje do que na época do “Modern Times”, mas ainda assim assusta os fãs menos assíduos. Em algumas músicas, é preciso admitir: parece que o grande compositor do século passado vai engasgar com o pigarro a qualquer momento.

Ouça primeiro: Duquesne Whistle As melhores: Soon After Midnight, Tempest, Pay in blood

5º - Kendrick Lamar - Good Kid, M.A.A.D City ken-1024x1024.jpgKendrick Lamar não tem a mesma ambição de Frank Ocean. Seu som é direto, seco, vindo do rap old school. Se você gosta do gênero, certamente não vai ter dificuldade em gostar do álbum logo de cara. O projeto, de certa forma bastante simples, ganhou uma força absurda graças à habilidade de Lamar em tornar interessante qualquer passagem da sua vida, como um dia de bebedeira (Swimming Pools) ou um plano de invadir uma casa - e a consecutiva culpa que surge antes mesmo do crime na dúvida: aproveitar-se dos pecados do mundo ou viver seguindo as normas da igreja (representada no brilhante verso “Halle Berry or Hallelujah?”, que puxa o refrão de Money Trees)? “Good Kid, M.A.A.D City” é um livro de memórias criativo de um artista que só está começando. O futuro do rap está mais do que garantido.

Por outro lado: Kendrick Lamar parece um artista pronto, confortável com a sua posição, que vive um ápice criativo. Mal comparando, Kendrick Lamar é o Emicida deles. Frank Ocean lembra mais o Criolo. É mais provável que o artista que se dedique a um estilo fechado de música tenha mais regularidade na carreira e não caia em algumas roubadas artísticas, como as que o autor do “Nó na Orelha” anda flertando e vai fazer parte (anote aí) logo, logo.

Ouça primeiro: Swimming Pools As melhores: Money Trees, Sing About Me, I’m Dying of Thirst, Sherane a.k.a Master Splinter’s Daughter


Rafael Monteiro

Sou o que soa. Eu não douro pílula .
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