réu confesso

Filmes, livros e discos que fizeram a minha cabeça

Rafael Monteiro

Sou o que soa. Eu não douro pílula

Os 12 melhores álbuns do meu ano - Final

Ao menos para mim, "Tramp" é o melhor disco de 2012. Repleto de dor, o álbum de Sharon Van Etten parece uma seleção de enigmas, encontrados em versos cortantes, feitos para serem solucionados a cada audição. Não é uma obra fácil. Por isso, talvez, valha tanto a pena


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1º - Sharon Van Etten – Tramp

Sharon Van Etten só começou a existir para mim em 2012. Em janeiro, um dos meus blogs favoritos, o aparentemente extinto Superoito, havia apontado o disco como candidato a melhor do ano. Não cheguei a ouvir na época, mas fiquei em alerta. Meses depois, a Rolling Stone brasileira a indicou como uma grande revelação do folk. Era o que faltava para conhecê-la, mesmo que fosse só para desmentir os elogios.

A primeira audição de “Tramp” me causou estranhamento. Só a voz do vocalista do Beirut, Zach Condon, era familiar em “We are fine”, a música mais radiofônica do álbum. Ainda assim, o fato não era bem um alívio: Beirut, para mim, ficou no passado. Nem tenho mais os discos e o EP no computador. Parecia que o disco de Van Etten teria o mesmo destino.

Fui pesquisar sobre o álbum, para dar uma chance para a moça. Havia pouca coisa em português na internet. O melhor link era exatamente o antigo post do Superoito. Lendo novamente, descobri a história por trás dos versos conflitantes: Sharon passou 14 meses perambulando por Nova York, fazendo shows e gravando em estúdios aleatórios. Não dava tempo para ter uma residência fixa. O lugar que lhe aconchegou melhor foi o estúdio de Aaron Dessner, guitarrista do (excelente) The National, onde gravou a maior parte de “Tramp”.

“Eu queria que'Tramp’ expressasse o sentimento de falta de um teto e de uma vida bagunçada. Eu queria que o título soasse feminino sem soar fofinho. Quando eu estava fazendo minha pesquisa, descobri que ‘tramp’ originalmente significa não ter uma casa”, disse Van Etten, em uma matéria que eu só fui descobrir depois.

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A história explicava muita coisa. As músicas causam estranhamento na primeira vez justamente por ser essa sensação que Sharon sentia quando as gravou. “Tramp” é um disco desconfortável, genuinamente novo, capaz de mostrar ambientes totalmente diferentes do convencional. Como aqueles em que a cantora se abrigava sem saber se podia ficar por muito tempo.

A diferença é que o álbum finca raízes na nossa mente e sobrevive. A cada audição, “Tramp” crescia de maneira surpreendente. Cada vez mais eu queria ouvir os versos vingativos de “Serpents” (You'll stay frozen in time/ Collaging girls/Controlling minds/You hold the mirror well/ to everybody else) ou o karma repetitivo de “Magic Chords” (You got to lose. you got to lose. You got to lose sometime).

O disco, porém, só foi se tornar o melhor do ano para mim quando eu decidi ouvir os dois anteriores, o belíssimo “Because I was in Love” e o elegante “Epic”. Desde então, todo o trabalho de Sharon não só ganhou significado, como passou a representar muito para mim.

“Ask” (It's not that I don't cry/ It's that i have to hide/ But if it hurts too much ask), “Joke or a lie”(Tell me to leave the next time i'm in front of you) e “Warsaw” (Pull me over you arms are over you/ I want to show you/I love you silently) falam de uma mulher que, mesmo após ter seguido a vida e obtido sucesso, ainda não se recuperou totalmente da tristeza do fim do antigo relacionamento.

Então, o mistério estava aparentemente explicado: todo desconforto é acentuado quando você se sente sozinho, como cantam as músicas. Sharon, durante o disco, estava vivendo o novo, mas somente pela fuga. O resultado foi “Tramp”, um caminho difícil, tortuoso, cheio de enigmas, que me mostrou muito mais do que podia imaginar, como se fosse um espelho na minha frente.

Ouça primeiro: Magic Chords

As melhores: Ask, Joke or a lie, Serpents

Restante da lista: parte 1, parte 2 e parte 3

Ranking completo: 1º - Sharon Van Etten – Tramp 2º - Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than The Driver Of The Screw & Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do 3º - Patti Smith – Banga 4º - Bruce Springsteen - Wrecking Ball 5º - Kendrick Lamar - Good Kid, M.A.A.D City 6º - Bob Dylan – Tempest 7º - Leonard Cohen - Old Ideas 8º - Frank Ocean - Channel Orange 9º - Michael Kiwanuka - Home Again 10º - Jack White – Blunderbuss 11º - Norah Jones - Little Broken Hearts 12º - Tame Impala - Lonerism


Rafael Monteiro

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