réu confesso

Filmes, livros e discos que fizeram a minha cabeça

Rafael Monteiro

Sou o que soa. Eu não douro pílula

Os 12 melhores álbuns do meu ano - Parte 3

Bruce Springsteen superou a morte do amigo e ex-companheiro de banda Clarence Clemons com um disco inspirado como os seus antecessores; Patti Smith voltou para a música sem deixar a literatura; Fiona Apple surpreendeu a todos com uma doce loucura cantada ao piano. Veja a terceira e penúltima parte do ranking de melhores discos do Réu Confesso


BRUCE_WRECKING_BALL_5x5_20120118_150631.jpg4º - Bruce Springsteen - Wrecking Ball

Mesmo sendo do meu artista favorito do ranking, “Wrecking Ball” deve ter sido o álbum que mais me surpreendeu positivamente no ano. Tudo levava a crer que o disco não manteria o ritmo da irrepreensível década passada. O velho parceiro Clarence Clemons, responsável pelo saxofone marcante das músicas do Boss durante todos esse anos, falecera antes do fechamento do disco. O single de apoio aos EUA, “We Take Care Of Our Own”, não é ruim, mas soava como mais do mesmo. E a capa do disco, disponibilizada antes da estreia, me parecia poluída. Por todos esses fatores, não havia como imaginar que aquelas letras grandes do encarte escondiam um Bruce fortalecido. Sem Clarence, The Street Band trocou o destaque dado ao sax pelo som das guitarras. As músicas ficaram mais vigorosas (o resultado mexeu tanto com Bruce, que os seus shows passaram a ter mais tempo de duração, chegando a incrível marca de quatro horas em algumas arenas), sem esconder a emoção de um combalido Springsteen, demonstrada na confessional “This Depression”, no solo de guitarra de Tom Morello em "Jack of All Trades" e no som do sax deixado por Clarence Clemons em "Land of Hope and Dreams". A bola de demolição, citada na faixa-título, não poderia simbolizar melhor a mensagem que Bruce deseja passar ao seu país, em processo de recuperação: é possível retornar ainda melhor depois do baque.

Por outro lado: “Wrecking Ball” é o disco do ano para a Rolling Stone americana. Em muitos sites mais jovens de música, o trabalho não ficou nem entre os 50 melhores. Das bandas novas, apenas o Arcade Fire demonstra gostar do chefe (muitos dizem que o single “We Take Care of Our Own” é uma prova de reciprocidade de admiração). Springsteen ainda faz, para muita gente, música de tiozão americano.

Ouça primeiro: Land of hope and Dream As melhores: Rocky Ground, Land of hope and Dream e Easy Money

3º - Patti Smith – Banga

Patti_Smith-Banga.jpgO disco agregador de conteúdo de 2012. Patti Smith, que passou os últimos oito anos longe da música, voltou aos estúdios sem abandonar a literatura. A autora do elogiado livro “Just Kids” espalhou referências por “Banga". Nikolai Gogol é lembrado no single “April Fool”. Mikhail Bulgákov foi homenageado na faixa-título, na qual Smith narra a história do cachorro ortodoxo de Pôncio Pilatos, que está prestes a ser crucificado (não bastasse a excentricidade da letra, a música é tocada inteiramente pelo ator Johnny Depp no primeiro minuto). Mas ainda há muitas outras menções à arte no álbum: o cineasta Tarkovsky ficaria honrado ao saber que ganhou uma faixa com o seu nome; Amy Winehouse choraria ao ouvir o seu retrato cantado em “This Is The Girl”; e, para terminar entre os mais famosos, é certo que a atriz Maria Scheider se sentiria lisonjeada de servir de referência para o saudosismo da cantora (In a little Narcissus pool drawn by its spell /We saw ourselves /Raw excitable/ I knew you/When we were young). É uma pena que estes e os outros citados (o pintor Piero della Francesca e o desbravador Cristóvão Colombo estão entre eles) estejam mortos. Por tudo o que fizeram, eles mereciam ouvir “Banga”.

Por outro lado: a discografia de Patti Smith é lotada de intervalos gigantes entre um disco e outro. Talvez seja por isso que a obra dela fique tão “esquecida” de tempos em tempos. Depois de “Banga”, é capaz que a poetisa volte a escrever e deixe lado o microfone por alguns anos. E o álbum, consequentemente, pode sumir da nossa memória com a sua autora.

Ouça primeiro: April Fool As melhores: This is the girl, Banga e Amerigo

2º - Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than The Driver Of The Screw & Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do the_idler_wheel_is_wiser_than_the_driver_of_the_screw.jpgFoi o Woody Allen que disse: conhecer uma mulher louca é como ganhar na loteria. Fiona Apple, com o seu disco de título quilométrico, mostra como o cineasta americano estava certo. “The Idler Whell...” – pelo bem de todos, vamos chamá-lo assim - é um guia completo de como lidar com uma neurótica. Não importa o quão maluca ela seja (If she's part of/ The reason you are how you are /She's alright with me/ Just tolerate my little fist/Tugging on your forest chest), para tudo há uma explicação (And I could liken you to a lot of things/ But I always come around/Cause in the end I'm a sensible girl). Apple mistura letras pesadas (como a da linda Valentine: You didn't see my valentine/ I sent it via pantomime/While you were watching someone else/I stared at you and cut myself/It's all i do cause i'm not free) com melodias pop de forma diferente: mesmo sendo comerciais, as músicas não seguem uma estrutura convencional, como é possível ver na extensão do verso Every single night's a fight with my brain, do single “Every Single Night”. Tudo soa como o piano que acompanha grande parte das músicas: suave, confuso, imprevisível, e, por tudo isso, apaixonante. Como as mulheres loucas de Woody Allen.

Por outro lado: dosar loucura é uma arte. E Fiona Apple está demonstrando que a domina. De exagero, só consta a quantidade de caracteres do título do seu álbum. Uns gritos a mais, o disco podia ter sido um desastre. Não foi. Ouça tranquilamente.

Ouça primeiro: Every Single Night As melhores: Valentine, Werewolf e Regret.


Rafael Monteiro

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