réu confesso

Filmes, livros e discos que fizeram a minha cabeça

Rafael Monteiro

Sou o que soa. Eu não douro pílula

Os melhores filmes de 2012

O ano só começa depois do Carnaval. O clichê faz todo o sentido para o Réu Confesso, que só conseguiu agora escolher as melhores filmes do ano passado. Tudo por causa do excesso de grandes trabalhos. 2012 foi tão bom para o cinema que bom mesmo seria que ele não terminasse


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Com muito atraso, finalmente lanço aqui no Obvious a minha lista de filmes favoritos de 2012. A demora serviu para que eu pudesse ver mais filmes e aproveitasse, enquanto moldava a relação, para embaralhar todo o meu conceito de ano. Descobri que sou incapaz de respeitar o calendário. Como você pode ver abaixo, nem todos os selecionados foram lançados no Brasil ano passado. Fui ver Django, por exemplo, só em janeiro. Como o novo do Tarantino foi lançado mundialmente no ano passado, acabei relacionando. Mas nem assim consegui ser coerente. Você pode consultar o IMDB e me dizer que Um Verão Escaldante estreou na Europa há dois anos, não em 2012. Neste caso, valeu o lançamento nacional no ano passado, quando eu passei meses com vontade de vê-lo no cinema, mas, sem um trocado no bolso, tive que esperar um download que só saiu em... 2013. Por via das dúvidas, criei a justificativa que o meu novo ano só começa agora. De janeiro de 2012 até ontem, todos os filmes que passaram nas salas de cinema do mundo inteiro poderiam estar aqui. Apenas os dez relacionados abaixo sobreviveram na memória de um ano que só termina de verdade para mim no ponto final da última linha. Menções honrosas: Rust and Bone Detalhe: não consegui ver o coreano Ha Ha Ha, O Mestre e O Homem da Máfia. Talvez eles apareçam aqui futuramente, caso a lista for atualizada. 10° Shame

tumblr_mhmgziN9691rd3bv1o1_r2_500.jpg A câmera de Steve McQueen mostra o sexo como doença e não se desvia em nenhum momento. Faltou apenas um pouco mais de reflexão no final. As pontas soltas da história da família de Brandon (Michael Fassbender) e Sussy Sullivan (Carey Mulligan) nos deixam muitas dúvidas e quase nenhuma reflexão sobre o problema. Funciona bem como retrato. Nem tanto como diagnóstico. 9º 007 Skyfall tumblr_mcyseu3yVG1qd3dyzo1_500 (1).jpg As luzes de Xangai ainda me hipnotizam na memória. Sam Mendes fez um filme de 007 virar cinema de autor. Sem deixar de citar as referências clássicas do espião, Skyfall conseguiu fazer história dentro da série ao cravar o James Bond de Daniel Craig definitivamente como um humano: se ele já sentia medo e sofria com a morte da namorada, aqui ele até brinca com a morte e o homossexualidade. Mesmo sem ter conseguido superar Moscou contra 007, fica um prêmio de consolação: nunca houve na série um vilão tão bom quanto Silva, de Javier Bardem. Mais um acerto de um dos grandes atores do nosso tempo. 8º Django Unchained tumblr_mgdl3rXyqK1qksuq5o1_500.png Quando eu digo que é o pior filme de Quentin Tarantino não é por mal. No fundo, acreditem, é um elogio. Quem me dera que o meu pior texto fosse nota 8. Porque até os fãs (eu também faço parte deste grupo) sabem que Django não merece nota máxima. O diretor não está em grande forma (o filme tem problemas de ritmo e não conta com nenhum diálogo acima da média) e nem soube usar muito bem a fórmula de faroeste (Tarantino não sabe lidar com emoções, já que nunca precisou delas em seus trabalhos. O casal, razão de viver da história, não comove em nenhum momento, mesmo com um trilha sonora espetacular de fundo). Em compensação, absolutamente tudo o que acontece em cena quando Leonardo DiCaprio e Samuel L Jackson entram na história (depois de muitos bocejos, é verdade) apaga todos os erros. São minutos de um cinema brilhante, dirigidos por quem sabe mais que a maioria. Uma pena que sejam apenas 40 minutos dentro de um filme de inexplicáveis 165. 7ºAmour tumblr_mejdoiiuM01qcd6r7o1_500.jpg Afinal, Haneke pesou a mão ou não? A discussão é recorrente – e é óbvio que ela não deixaria de existir agora que o diretor tem o seu trabalho concorrendo ao Oscar. Para mim, em “Amour”, ele mais acertou do que errou. Não me arrependo nem um pouco de ter usado o adjetivo "lindo" para qualificá-lo logo depois de vê-lo. É emocionante ver Georges (Jean-Louis Trintignant) cantar junto com a esposa, Anne (Emmanuelle Riva), mesmo quando ela não consegue mais dizer uma frase completa. Também é encantador o diálogo sobre um filme antigo que surge um pouco antes do derrame de Anne. Mas é verdade que o que realmente fica na memória são as cenas chocantes do estágio final da vida de um deles. Muitos dizem ser uma violência gratuita. Não concordo. Sem os momentos mencionados, não teríamos um filme tão forte sobre tantas questões levantadas, como amor, morte e velhice. Alguns até disseram que é impossível ver o filme duas vezes. Eu sofreria tudo de novo. 6º Heleno tumblr_m87nayvMYV1r9uoamo1_500.jpg Fotografia de alto nível, preto e branco, futebol, Alinne Moraes, Angie Cepeda, a inspiração em Touro Indomável, de Martin Scorsese. Heleno é um filme sobre o meu mundo. Não tinha como dar errado - pelo menos comigo. A narrativa não linear expõe a todo instante, sem tecer qualquer julgamento, que a maior capacidade do protagonista não era matar no peito ou empurrar a bola para as redes, mas sim extrapolar todos os limites. Ao misturar fatos da linha cronológica do ídolo do Botafogo, vemos o quanto ser Heleno podia ser confuso. Doente, sedutor, artilheiro, encrenqueiro, amoroso. Não se sabe ao certo que homem ele foi e se a vida desregrada o fez ou não perder o rumo. O belo final acerta ao terminar a história sem nenhuma conclusão. Observação: se ainda não viu, preste atenção também na doçura da atuação de Maurício Tizumba como o enfermeiro que cuida do ex-atleta em um hospício em Barbacena. 5º Um Verão Escaldante tumblr_lxnpye6oOt1qzkyblo1_r1_500.png Um herdeiro da Nouvelle Vague no nosso tempo. O diretor Philippe Garrel, pai do protagonista Louis, é um sobrevivente do gênero e não abre mão das conversas existenciais de casais confusos na cama, dos takes silenciosos e da intertextualidade entre a o cinema e a vida real. O resultado é primoroso. O melhor momento do filme é certamente a cena da dança da personagem de Monica Bellucci numa festa. O momento não só antecipa traços da personalidade da mulher infeliz, casada com o pintor metido a moderno vivido por Garrel, o filho, como também usa a música como se fosse um grito de socorro de uma mulher que não suporta mais toda a sua beleza (estonteante) reprimida dentro do casamento. 4° Moonrise Kingdom HaroldAndMaudePodcast.jpg Mais do que um filme fofinho, Moonrise Kingdom representa uma grande evolução na carreira de Wes Anderson. Por mais que eu goste bastante de Royal e Steve Zissou, é preciso reconhecer que os filmes do cineasta preferido dos hipsters sempre foram muito arrastados – às vezes, até demais, como em Viagem a Darjeeling. Dessa vez, no entanto, Anderson traz um filme ágil, relativamente curto e de um humor menos blasé. Com a sua imensa capacidade de criar personagens marcantes (vale muito analisar como ele usa as cores quentes no figurino), o diretor usa a fuga de um romance infantil para nos mostrar o quanto podemos ser infelizes, fracassados e maldosos por não sabermos lidar com a condição de adultos. Se passar na Sessão da Tarde, vira clássico (para mim, já é). 3° Holy Motors tumblr_mfhom7esWE1qbk9s5o1_500.png Há muito tempo eu não via um protagonista tão engenhoso no cinema. Ele, Oscar, que ganha a vida interpretando inúmeros papeis por dia na vida de diferentes pessoas, é a maior homenagem que o cinema poderia receber. A paternidade, a velhice, o amor, o monstro: todos são ele. Ao mesmo tempo que nenhum deles é. O pouco que sabemos de Oscar de verdade é mostrado dentro de uma limusine, em cenas de muita naturalidade com a grande atriz Edith Scob. Por conta dessa fuga de realidade num filme que brinca o tempo inteiro com o mundo de mentira, é genial que os carros ganhem vida em certo momento da história. Quando terminei de ver Holy Motors, senti, na ocasião, falta de algum significado para tanta informação. Agora, pensando melhor, vejo que nem era preciso. 1º O Som ao Redor/Um Alguém Apaixonado Não há um melhor entre os dois. Ambos, porém, se aproximam da realidade de forma assombrosa. O primeiro (foto que abre o post) é o filme mais próximo de mim que eu já vi. Não à toa se tornou o meu favorito entre todas as obras concebidas aqui no Brasil. Eu, que fui conhecer a classe média apenas de uns dois anos para cá, fiquei assustado ao ver tanta realidade no cinema. Até o humor retratado é o mesmo que nos faz rir diariamente, sem diferença alguma na forma coloquial de conversa. É impossível ver O Som ao Redor e não se colocar naquele meio, mesmo não sendo de Recife. As personagens são como nossos vizinhos de rua/prédio: parecem conhecidos, mas a gente não sabe o nome. E é justamente essa uma das mensagens que o filme traz, refletida na classe enclausurada, mediana e apavorada de Pernambuco, que vive aos mofos mesmo a poucos passos do mar: estamos presos dentro das nossas casas, sobrevivendo ao tédio e aos medos - que só gritam em pesadelos para não acordar a vizinhança.

like-someone-in-love_japanese-poster.jpg O segundo é uma das experiências mais prazerosas que eu já tive no cinema. É fascinante como Abbas Kiarostami nos joga dentro de uma história que já está em andamento, lá do outro lado do mundo, e ainda assim nos cativa com personagens simples, altamente críveis, que nós também não sabemos quem são. Parece o tempo todo que se trata da vida real. E a gente vai descobrindo tudo aos poucos, surpreendendo-se a todo momento com a queda das aparências. É um filme para se ver sem ter lido a sinopse. Quando termina, até bate uma tristeza, uma vontade de voltar ao início do filme e acompanhar tudo aquilo de novo. Muitos reclamam do vazio que a história deixa quando surgem os créditos. Não existe um final. Leva um tempo para entender que a genialidade do filme está justamente neste ponto: não havia como preencher melhor um conto no qual praticamente nada importa, a não ser a descoberta, do que o susto das luzes da sala de cinema, nos obrigando a voltar para a casa. De tão real que é Um Alguém Apaixonado, nenhum outro desfecho poderia ser mais surpreendente.


Rafael Monteiro

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