réu confesso

Filmes, livros e discos que fizeram a minha cabeça

Rafael Monteiro

Sou o que soa. Eu não douro pílula

"O Mestre": a religião, o cinema e a hipnose

"O Mestre" não é um filme religioso. É uma história sobre as relações humanas e o que elas provocam. Uma trama concentrada em dois: criador e criatura, admiração e inveja, equilíbrio e raiva, ou, se assim preferir, apenas Freddie Queel e Lancaster Dodd.


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É um erro qualificar "O Mestre" como um filme sobre a criação da cientologia. A religião que virou moda entre alguns artistas em decadência (leia-se Tom Cruise e o seus amigos) sequer aparece com esse nome no longa, mas sim com o apelido pomposo "A Causa". Há alguma crítica, sim, mas, acertadamente, o ótimo diretor Paul Thomas Anderson preferiu se concentrar no que realmente importa em qualquer história: as pessoas. E, convenhamos, em um mundo cada vez mais politizado, religioso - e chato, cada vez mais chato - nenhuma outra abordagem cairia tão bem.

Assim definindo, podemos cravar que o longa é, na verdade, sobre o criador e uma criatura da tal A Causa. Para consertar a vida de um homem (o bêbado Freddie Queel, interpretado brilhantemente por Joaquin Phoenix), completamente fodido na vida desde o fim da Segunda Guerra, um líder religioso (Lancaster Dodd, vivido pelo carismático Philip Seymour Hoffman) praticamente o adota como um filho, contra a vontade da própria família. A relação de dois homens tão diferentes é o que conduz a trama.

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Quando os dois se encontram pela primeira vez, percebe-se um interesse enorme de Dodd pelo bêbado que surge em seu cruzeiro. O motivo de tamanha curiosidade? Não sabemos. Uma das interpretações leva à atração sexual por parte do religioso, mas, apesar de alguns indícios dados durante a trama, não é possível garantir a bissexualidade da personagem de Philip Seymour Hoffman– como, aliás, tudo no filme.

Freddie Queel, por sua vez, encara o religioso com certa curiosidade (afinal, quem não teria pelo menos um pouco? Em pleno ano de 1950, um sujeito carismático diz que é capaz de resolver os seus problemas do passado utilizando o método da hipnose regressiva pede ao menos um minuto de atenção), porém não muita. A hipótese de que Queel só quer um lugar para morar está sempre presente de forma implícita.

O grande mérito da atuação de Phoenix é fazer com que cada sensação da personagem seja uma atração a mais do filme. O seu sorriso torto embriagado, o seu olhar curvado que antecipa os ataque de raiva e, principalmente, a forma enrolada de dizer o próprio nome ficam marcados em uma atuação que não deve em nada a de Daniel Day-Lewis, o vencedor do último Oscar de melhor ator.

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Mas o filme não é só de um ator, e sim de três: se, no início os dois são bem diferentes (a cena da cela representa de forma genial tal disparidade), depois é interessante reparar (atenção ao simbolismo de um reencontro dos dois em frente à sede de A Causa, enquanto uma menina brinca com seu velocípede) como os atores se transformam para adequar os seus personagens em desenvolvimento: é fascinante reparar o religioso incorporando, aos poucos, a raiva súbita da sua “criatura”. Enquanto isso, Freddie Queel continua arredio, mas passa a ser incrivelmente fiel à grande Causa, mesmo tendo que encarar a antipatia da gelada matriarca da família, Peggy Dodd, interpretada com muita convicção pela talentosa Amy Adams, que completa a trinca de grandes atores que marcam o filme.

Mesmo hipnotizando em mais de duas horas de filme, como fazia Dodd com seus fiéis, a amizade dos dois não é esclarecida por completo em nenhum momento. O que poderia ser um defeito, acaba se tornando no grande atrativo de um filme que se propõe principalmente a intrigar o expectador, mesmo que algumas respostas sejam deixadas de lado. Não é apenas o final de “O Mestre” que é aberto, mas também todas as perguntas levantadas na história. Como são explicadas as relações humanas? Por que o homem recorre à religião? É possível reparar os erros do passado? Com a complexidade que um grande filme deve ter, Paul Thoman Anderson responde humildemente: nós jamais saberemos.


Rafael Monteiro

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