re.verb lounge

reverberando cultura, com calma

Flora Pinotti Sano

It takes two to tango, but one to rock

Pedaço de Céu

Com seu canto de sereia, Céu mostra, como poucas, a reverência ao som agradável – e isso não é pouco.


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De nada adianta esconder que ela é, para mim, a mais interessante das cantoras brasileiras recentes. Não tem a potência de Karina Buhr, tampouco a fofurice de Tulipa Ruiz e Tiê, mas mostra, como poucas, a reverência ao som agradável – e isso não é pouco. Ela é Céu.

E Céu não é música para o esquenta da balada; não é o melhor som para empolgar uma aula de bike… é música em si só; música para se ouvir.

Há poucos dias, lançou seu mais recente álbum, Caravana Sereia Bloom (sim, este é o nome; nonsense e delicado assim).

Falando em maluquices (no melhor dos sentidos), a faixa que abre o disco, “Falta de Ar”, é basicamente a seqüência de “Espaçonave”, o fecho de seu último álbum, Vagarosa. Se, na última, Céu propunha “voltar pra nave-mãe, pra despressurizar”, agora critica delicadamente o crescimento desenfreado do mundo e desabafa “esse papo que gira aí, que o mundo tem que crescer, cresci até tocar a lua e em marte eu vou descer/ Mesmo que eu tenha criado um traje especial, que me permita viagens em modo espacial…ainda não vou, foguete é osso (…)”.

Falando, então, de amor – algo que ela faz tão bem – “Amor de Antigos” exemplifica como Céu é capaz de criar música brasileira para o mundo: o som é inclassificável – flerta com rock antigo e ritmos latinos, sem deixar de lado elementos do jazz e barulhinhos eletrônicos – lançando mão, ao mesmo tempo, de letras que refletem sua habilidade em transformar seu apreço pela língua falada em música: “nhonhô bebeu um gole de cada poro meu, e feito vinho de caju amarrei-lhe a boca” (não é lindo?).

Nesta toada, lembro-me de Céu falando, em vários dos shows a que assisti, sobre seu fascínio pelo coloquial, pelas expressões locais (como na gostosa “Bubuia” de seu último álbum). Céu é popular por ser acessível, não por ser simplória.

“Retrovisor”, a primeira música divulgada, remete mais explicitamente ao clima que permeou a elaboração do álbum: a estrada – daí a presença de influências ainda mais diversas, além dos já familiares jazz, reggae e MPB. Naquela faixa, os vocais, um tanto distantes, quase opacos, remetem à imagem de uma Céu no carro, com os vidros abertos, cabelos ao vento, cantando “pois não pense que isso vai ficar assim, meu batom vermelho vai me enfeitar, não preciso do espelho do retrovisor pra não borrar”.

Dentro dessa miscelânea boa, há também um grande clássico “Palhaço”, de Nelson Cavaquinho, e faixas pequeninas – “vinhetas”, como ela chama esses “flashes musicais” – como “Sereia”, que tem menos de um minuto e é tão bonita…um canto da sereia no mar, oscilante, com barulho de ondas indo e vindo, de lá para cá. Nas palavras da moça, tais pedacinhos “seriam como um rascunho. Queria mostrar como as músicas vão se formando, aproximar as pessoas do processo criativo”.

Céu tem o raro dom de acertar na dose: ser delicada sem ser menininha; de ser sofisticada, porém simples. Veja o exemplo de seu mergulho no rock – ritmo mais presente do que nunca – de “Baile da Ilusão”: ali, tangencia a cafonice, mas ainda assim é finíssima: “me colori para lembrar o que vivi, me colori para contar o que chorei (…)meu coração em preto e branco hoje quer se rebelar”.

A última faixa, “Chegar em Mim” é uma bênção para os ouvidos. (Sem exagero, é a melhor música que ouvi até agora em 2012.) A forma como a voz doce que canta a letra – doce, direta – se embrenha em meio às guitarras, ritmando cada palavra, é um bálsamo: “acendendo no meu peito, a fagulha dando um jeito, que o coração sempre pediu. Eu me enfeito nesse ensejo e atiço o teu desejo, perfume chega pra dizer (…) se eu fosse você, já tinha chegado em mim”.

É, enfim, um álbum daqueles de aquecer o coração, tamanha sua graça. Falar o quê mais? Talvez isso baste: ah, Céu, obrigada.


Flora Pinotti Sano

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