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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

go ahead, make my day!

Gary Clark Jr. é a salvação do blues?

Um garoto e sua guitarra. Será ele a salvação do Blues? Ou tudo não passa de mais um daqueles pastiches inventados pela crítica especializada? Especulações e reflexões sobre as "salvações" do mundo musical.


Gary Clark Jr. não é a salvação do Blues. Primeiro porque o Blues não precisa ser salvo.

O Blues não é um estilo morto, que não desperta interesse em ninguém, que não seduz mais um jovem que deseja empunhar uma guitarra e salvar o mundo. O Blues tem alma própria, muito mais emocional que o Rock n’ Roll, e tão criativa quanto o jazz.

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Decerto que seu talento impar somado à eletricidade de suas apresentações, onde mescla, de forma sempre coerente e eficaz, blues, rock e soul music, é um convite para endeusarmos esse texano de 27 anos que esteve recentemente por aqui, no festival Lollapalooza.

É inegável o talento de Gary Clark Jr., já reconhecido por mestres da guitarra como Eric Clapton (de quem abriu os shows de sua última turnê em terras brasileiras), Steve Winwood e B.B. King. Entretanto, isso não quer dizer que Gary seja mais nova esperança do Blues. Novas promessas, salvações dos estilos e gênios de pouca idade aparecem todos os dias em todos os cantos do mundo.

Ou ninguém se lembra mais do turbilhão de elogios que Jonny Lang recebeu, quando surgiu? E o Jonh Mayer? E quando Lang “sumiu” por causa da má administração de sua carreira, mesclados com seus sucessivos abusos químicos, alguém se lembrou? Em 2010 fomos presenteados com o poderosíssimo “Live At Ryman”, e ninguém deu a mínima.

E Mayer, que, com problemas na voz e um montão festas para aparecer, se perdeu em sua carreira, ficando recluso por alguns bons anos, voltando agora com o seu ótimo “Born & Raised”? Alguém deu importância?

Eles também eram salvações do Blues, gênios, meninos prodígios.

Veja bem, o objetivo aqui não é denegrir a imagem de Gary e outros jovens de talento impar. Longe disso. O que precisamos pensar é como acabar de uma vez por todas com essa responsabilidade que se colocam em cima deles, fazendo com que os próprios não consigam administrar.

Se as coisas continuarem assim, logo teremos uma série de bons músicos fazendo Blues pasteurizados, com solos sem nenhum feeling e carregando em seus ombros uma responsabilidade desnecessária de agradarem uma crítica medíocre, em cada lançamento medíocre.

Deixem os meninos trabalharem!

Não podemos jogar toda mediocridade de uma era em cima de garotos com suas guitarras. Não podemos pedir para que meninos talentosos consertem o que nós mesmos destruímos. Não podemos apressar o processo de formação deles por causa da nossa falta de ídolos.

Confesso que me arrepiei – e ainda me arrepio – quando escutei “Bright Lights” pela primeira vez, assim como sei que, se deixarem Gary trabalhar em paz, sem lengalengas de “o novo mestre depois de Hendrix”, com certeza ainda seremos brindados com grandes lançamentos e ótimas apresentações deste texano.

Esqueça essa coisa de salvação do Blues, e divirta-se!


Guilherme Fernandes

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