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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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A loucura genial de uma mente provocadora

Um breve passeio pela obra (e pela mente) do provocador Aaron Sorkin


Escrever roteiros é uma tarefa complexa.

Sem um bom roteiro, não teríamos bons filmes. Unir bons diálogos com imagens e situações interessantes por meio das palavras é uma arte instigante, digno de reconhecimento por apreciadores de cinema. E o que seriam dos filmes sem bons roteiros? Talvez existissem boas histórias, mas, sem a sagacidade necessária para contá-las, com certeza o cinema não seria o que é hoje.

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Pouco se ouve falar sobre roteiristas. Geralmente, quando escutamos, é para justificarem algum fracasso de bilheteria. A regra é essa: quando o filme é um sucesso, ponto para o estúdio. Quando é uma porcaria, jogam na conta dos roteiristas. É complicado apontar os culpados pelos fracassos cinematográficos, entretanto, culpar unicamente os roteiristas é uma forma de reduzir o debate a uma solução inócua. Eu mesmo já li ótimos roteiros que, quando transpostos para as telas, ficaram horríveis.

Enfim, conjecturas e especulações.

Nos dias de hoje, é impossível falar de bons roteiristas sem falar sobre Aaron Sorkin. Nascido em 1961, Sorkin talvez seja o primeiro nome que figura em algumas listas imaginárias, quando falamos sobre roteiristas provocadores. Vinte minutos de um roteiro seu, transposto para as telas, podem mesmerizar ou perturbar, mesmo que você não queira.

Seus diálogos, rápidos e questionadores, prendem a atenção de qualquer espectador. Até porque, assistir algo escrito por Aaron Sorkin sem prestar atenção é assinar um atestado de que “alguma coisa você irá deixar passar”. Foi assim comigo, em minha primeira experiência, com o filme A Rede Social.

Em outro de seus filmes, Moneyball, estrelado por Brad Pitt, ali está a sua marca, mais uma vez, explicando complexos sistemas e proporcionalidades em cenas ininterruptas e de uma fluidez verbal impressionante. O filme, se não é um dos melhores de 2011, talvez mereça uma atenção especial, uma vez que, por se tratar de um esporte pouco conhecido aqui no Brasil, o basebol, passou bem despercebido pelas salas de cinema daqui.

Mas são em suas séries televisivas que Sorkin reverbera suas provocações. Sua obsessão pelos bastidores das relações de poder impressionam, e transformam cada episódio em uma espécie de catarse coletiva, quando suas personagens vociferam verdades que há muito foram escondidas do grande público, como a relação dos jornalistas com a audiência, entre os governantes e o controle de danos e as cisões das relações interpessoais dentro dos ambientes de trabalho.

Suas provocações atingem violentamente o conceito de moralidade e acomodação de seus telespectadores. É praticamente impossível assistir à declaração dada por Will McAvoy, interpretado por Jeff Daniels, na cena inicial de sua nova série, The Newsroom, e ficar imune a suas reflexões.

Veja:

Sua obra é um belo achado em meio a tantas criações recentes, tão plásticas que precisamos engolir arbitrariamente, e fingir sorrisos verdadeiros, ao final de cada dose.

Para muitos, Sorkin é apenas mais um roteirista doentio, aditivado pelo abuso de drogas – admitido por ele mesmo – e que se utiliza das polêmicas criadas a partir de seu nome para angariar novos projetos. Para outros, um gênio capaz de condensar toda ferocidade de suas criticas pessoais ao sistema moral e social contemporâneo, em seus simples personagens.

Simples, porém nunca simplórios.


Guilherme Fernandes

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