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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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Trapero, Seu Jorge e Abutres

O que o suspense policial de Pablo Trapero e o samba-rock do Seu Jorge têm em comum? Para alguns, nada. Para outros, muita coisa.


Falar sobre o cinema argentino sem citar Pablo Trapero é um pecado.

Se da mesma forma que, ao falarmos de futebol mundial, precisamos falar sobre, sei lá, Romário, falar do cinema sul-americano sem citar Trapero é uma heresia das mais pesadas que possa ter. Ele é responsável por grande parte da produção intelectual relevante para o cinema latino da ultima década. Filmes como “Leonera”, “Mundo Grúa” e o seu mais recente “Elefante Branco” são peças de indiscutível qualidade, capazes de colocar caraminholas na cabeça do mais cético apreciador de cinema.

Se você ainda não sabe do que – ou de quem – estou falando, corra atrás desses filmes, e depois volte para continuar a ler este texto.

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Apresentações feitas, vamos ao motivo desse texto: “Os Abutres”.

O suspense policial, dirigido por Trapero, expõe de forma crua uma realidade dolorosa do aspecto moral de alguns povos latinos: a necessidade de se levar vantagem em tudo, de todas as formas. O filme conta a história de Sosa, vivido por Ricardo Darín, advogado que teve sua licença cassada, e, para sobreviver, transformou-se em um “carancho”, um dos muitos advogados que rodeiam emergências de hospitais atrás de vítimas de acidentes de trânsito, a fim de representá-los perante as companhias de seguros, arrancando assim uma fatia generosa das indenizações.

Não é novidade para ninguém que existe uma espécie de “máfia das indenizações” em vários lugares. Os números, mostrados no início do filme, são alarmantes. O que Trapero faz é mostrar como funcionam as engrenagens disso tudo: escritórios decadentes, constantes brigas pelo poder, chantagens morais e financeiras, e a estruturação de golpes no transito de Buenos Aires. E Sosa é uma peça fundamental de toda essa engrenagem. Ele tem o know-how perfeito para abordar as vítimas e esquematizar os trambiques.

Amargurado e com semblante cansado, Sosa é essencial em toda a estrutura dos abutres. Até que do outro lado da história está Luján – interpretada pela maravilhosa Martina Gusman – enfermeira recém-integrada ao plantão noturno, onde acontecem os acidentes, e, claro, os golpes. O enlace romântico de Luján e Sosa é nítido desde o primeiro encontro dos dois, e seus ideais divergentes só incrementam mais a história.

A partir do estranho relacionamento do casal, é desencadeada uma sequencia frenética de situações, onde o conceito de controle é posto à prova até a parte final da película, explodindo nossos miolos, e remetendo às ótimas tramas, como o excelente “Os Infiltrados”, de Scorsese e o polêmico “Tudo pelo poder”, de George Clooney, por exemplo.

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E então você pergunta: o que o Seu Jorge tem a ver com isso tudo.

Nada de mais. É que eu não conseguia parar de pensar, nas cenas finais do filme, em frases de sua canção “Pequinês e Pitbull”: “Papagaio que acompanha João-de-Barro, se enrola, vira ajudante de pedreiro” / “Pequinês que quer brincar com pitbull, pirou de vez, vira pic-nic de urubu”. É uma referência estranha, eu sei. Mas acredito que, quem conhece um pouco dos sucessos radiofônicos brasileiros, principalmente os hits de Seu Jorge, possivelmente vai se lembrar de sua canção, por mais assustador que isso seja.

Filme: Os Abutres (Argentina , 2010 - 107 minutos) Título Original: Carancho Direção: Pablo Trapero Roteiro: Alejandro Fadel, Martín Mauregui, Santiago Mitre, Pablo Trapero Elenco: Ricardo Darin, Martina Gusman, Carlos Weber, José Luis Arias, Loren Acuña, Gabriel Almirón, José Manuel Espeche Trailer:


Guilherme Fernandes

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