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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

go ahead, make my day!

três filmes, um ingresso

A luta para manter as coisas no lugar e a reflexão dos valores morais, contada de 3 formas diferentes, no mesmo filme.


Certos filmes tem um público solitário por si só.

Raramente vemos grupos de amigos, casais apaixonados ou pessoas com idade mais avançada, matando tempo, em filmes solitários. Os públicos dos filmes solitários são formados, em sua grande parte, por pessoas, ao menos naquele momento, solitárias também. Não é uma regra, mas é nitidamente perceptível. Filmes solitários não são recomendados para alguém levar uma companhia, recém-conhecida, ou para perder um tempo dentro de uma sala de cinema por falta de coisa melhor. Geralmente, o ritual é o mesmo: entrar, sentar, assistir e sair sem muitas palavras ou opiniões.

“O lugar onde tudo termina” é um filme solitário. São três histórias, quase estanques, mas ao mesmo tempo interligadas pelos acontecimentos trágicos e corriqueiros da condição humana.

Luke Glaton

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Um homem sem rumo.

Alguém que pode estar aqui ou em qualquer outro lugar, no momento em que quiser, sem nenhum remorso ou culpa por tudo que deixou pra trás anteriormente. E, naquele exato momento, Luke (Ryan Gosling) era “Handsome Luke”, respeitadíssima atração de um circo, pilotando sua motocicleta barulhenta em um globo da morte.

Findada uma de suas apresentações, Luke reencontra Romina (Eva Mendes). E, depois de alguns acontecimentos, descobre que agora é pai de um garoto, Jason. Munido por um senso de responsabilidade espontânea, resolve se estabelecer na cidade para ficar mais perto do filho, hoje pertencente a uma nova família formada por Romina. Em meio à falta de oportunidades que uma cidade pequena fornece aos forasteiros, transforma-se em um ladrão de bancos, desajeitado como poucos.

E é no momento em que decide se fixar na cidade, e se entrega à essa “profissão”, é que a sua vida cruza-se tragicamente com a de Avery Cross (Bradley Cooper).

Avery Cross

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Policial recém-integrado à corporação, Avery tem a normalidade de sua vida colocada em cheque depois de seu encontro com Luke. Ferido em combate, Avery enfrenta um caminhão de problemas e tensões psicológicas devido a esse encontro, e ali conhece pela primeira vez a corrupção entre as relações de poder da política. Pai de um menino da mesma idade que o filho de Luke, e enfrentando os já conhecidos problemas familiares pós-traumáticos, Avery precisa fazer escolhas. E, a partir dessas escolhas, tomar decisões desconfortáveis, que serão refletidas alguns bons anos depois.

Jason e A.J.

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Duas bombas-relógios, prestes a explodirem.

Assim podem ser definidos os filhos de Luke e Avery. A.J. (Emory Cohen), aspirante a “gângster”, vive às custas da fama do pai, ex-policial e político emergente dentro de um contexto de promotores. Determinado a morar com Avery – uma vez que seus pais aparentemente se separaram pelas decisões de Cross, após seu encontro com Luke – A.J. aceita cursar o último ano da escola na cidade natal de seu pai. E ali conhece Jason.

Jason (Dane Dehaan) é um caso perdido, um adolescente tóxico daqueles que, ao olhar pela primeira vez, você já presume certas coisas. Dorme mal, se alimenta mal, tem problemas e relacionamento, utiliza-se de drogas e de relações ilícitas. Todos os pré-requisitos para se tornar um homem sem rumo, tal qual o seu pai biológico.

Sem conhecimento do passado de seus pais, os jovens tornam-se amigos. E a mistura explosiva dessa amizade tem consequências avassaladoras para os dois, à medida que algumas revelações são feitas sobre o que se passou em um determinado dia, quinze anos antes. O tal “acerto de contas” acontece. Não da forma esperada, mas ainda assim de forma catártica, tanto para Jason, quanto para A.J.

Não é um filme sobre a subversão de valores, mas, talvez, incite a reflexão dos conceitos de moralidade dentro da trama. É claro que o crime, em todas as suas hierarquias, é algo injustificável, por melhores intenções que os criminosos possam ter. Entretanto, na película, as atitudes dos protagonistas vão se esgueirando pelos caminhos da moralidade, na tentativa de se fazer refletir sobre certas atitudes errôneas, fazendo com que, em determinados momentos do filme, você repudie as atitudes corretas ou concorde com certos erros para que a caminhada siga dentro do equilíbrio.

E isso é o que move o filme: a busca pelo equilíbrio. Mesmo sendo três histórias em uma, todas elas buscam o equilíbrio incessantemente, a fim de manter as coisas no lugar, mesmo que das piores maneiras possíveis.

Filme: O Lugar Onde Tudo Termina Título Original: The Place Beyond the Pines Especificações: EUA , 2012 - 140 minutos Direção: Derek Cianfrance Roteiro: Derek Cianfrance, Ben Coccio e Darius Marder Elenco: Ryan Gosling, Eva Mendes, Bradley Cooper, Dane DeHaan, Emory Cohen, Mahershala Ali, Rose Byrne, Ben Mendelsohn, Ray Liotta, Max Martini, Bruce Greenwood


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