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Guilherme Fernandes

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8º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo: "Barroco!" Crônica + Entrevista

Exibido no 8º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, o longa-metragem de estréia de Estanislao Buisel impressiona até aos mais preguiçosos.


Não, eu não fui assistir a esse filme.

Tampouco sabia do que se tratava, mesmo com o catálogo do festival em mãos. Meus olhares estavam direcionados para o uruguaio "Tanta Água", de Ana Guevara, tido como um dos destaques do evento que participava.

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O CineSesc, na rua Augusta, é localizado em uma ladeira, sem cafeterias ou ambientes mais intimistas próximos, ou seja, qualquer lugar que pensasse, teria que fazer um considerável esforço. Na mais pura e confessa preguiça entrei na sala sem saber do que se tratava aquele filme nomeado com um estilo literário de complicada assimilação, em grande parte por culpa da grade curricular e desleixo com o fomento da intelectualidade ministrada no ensino fundamental de nosso país.

Por sorte – e para coroar o meu sedentarismo crônico – "Barroco!", de Estanislao Buisel, é uma grata surpresa advinda do sempre prolifero cinema argentino. As fotonovelas, bem famosas aqui no Brasil entre 1950 e 70, são um dos motes do filme, exibido no 8º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, que também fala sobre música, livros, mentiras e roubos.

O filme impressiona pelo seu roteiro dinâmico, e pela inconsequência pueril de seus personagens. O filme narra a história de Julio, recém-empregado em uma livraria, enamorado de uma flautista de música barroca e confeccionando, junto de seu amigo, uma fotonovela. Tudo normal, até o momento em que as consequências de seus atos impensados começam a cobrar o seu preço. Na livraria, inicia uma rotina de pequenos roubos, a principio inocentes, mas que logo tornam-se coisas maiores.

Buisel hierarquiza os roubos no filme. O primeiro, de forma pueril, imitando o que seus outros colegas de trabalho fazem. O segundo, movido por ciúmes. E o terceiro, maior, porém atrapalhado pelas inconsequências do segundo roubo. E entre as trapalhadas de Julio, aprende-se um pouco (ou se relembra) sobre esse universo tão interessante que são as fotonovelas. A historieta vai tomando corpo entre um e outro click, enquanto o protagonista vai complicando a sua vida.

Ao final do filme, vemos a fotonovela completa, fruto de suas atrapalhadas atitudes e de alto teor cômico. Sua história gira em torno de uma Buenos Aires sem gás, onde coincidentemente é formado um esquema para o roubo de aquecedores e alguns triângulos amorosos.

Além da comicidade dos textos e cenas, a fotonovela é praticamente um novo filme com os mesmos personagens da história principal. Ponto para o roteiro assinado por Buisel e Walter Jakob, que confirma a originalidade do cinema argentino, sempre revelando gratas surpresas.

Por fim, “Tanta Água”, filme que realmente tinha ido assistir, me decepcionou. Achei morno e cinza demais, além de um roteiro magro de personagens pouco sedutores. Conclusão: fui salvo pela minha preguiça, mais uma vez. Que nos próximos festivais eu tenha mais empenho em ler os programas antes de sair de casa, e não seja pego de surpresa. Nesse caso, felizmente, a “surpresa” foi ótima. Mas nem sempre teremos flores e nuvens limpas pelos nossos caminhos.

ENTREVISTA COM ESTANISLAO BUISEL

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“Barroco” é seu primeiro longa metragem. Conte-me um pouco sobre a historia (do filme) e as reflexões que o filme traz aos expectadores?

Depois de fazer dois curta metragens com muito esforço, pensei: “faço um longa, não pode ser nem muito mais difícil nem muito mais trabalhoso que fazer um curta. À parte, tem mais difusão e mais gente o vê”. Então decidi fazê-lo. E me dei conta de que estava enganado (ou equivocado) e passei os últimos três anos imersos neste projeto. A primeira coisa que fiz foi buscar um companheiro para escrever e comecei a trabalhar com Walter Jacob.

A escritura parte de quatro elementos: um é música: uma suíte para órgão solo de John Blow. Outro é um mundo que conhecia: a livraria Hernández, na Rua Corrientes. Um amigo é filho dos donos e quando éramos estudantes passávamos muito tempo ali. Em terceiro lugar, assim como os protagonistas do filme, imaginei um roubo em uma fábrica, no meio (centro) da cidade. E o quarto era a vontade de filmar o fogo.

Tudo o que acontece no filme se relaciona com esses elementos. Comecei a escrever sem saber muito para onde ia. O primeiro que surgiu foi o personagem de Julio e a decisão de que o ponto de vista se limite estritamente sobre ele. Tornamo-lo um pouco piromaníaco, inventamos para ele uma namorada música para possibilitar o universo da música barroca e o fizemos trabalhar em uma livraria. Restava-nos resolver o tema do roubo à fábrica. E aí havia um inconveniente. Esse roubo implicava criar um personagem, uma trama e uma maneira de falar que o tornasse verossímil e não queríamos ir por esse lado. Então nos ocorreu que os personagens fizessem uma fotonovela onde esse roubo ocorreria. E aí surgiu o último dos elementos do filme, se organizou o resto e entendemos do quê tinha que tratar o filme: sobre a relação entre a vida cotidiana, a ficção e suas formas.

No filme, os primeiros roubos de Júlio são pueris, muitas vezes até justificáveis na película. Como foi pensada a intensidade dos roubos, e suas consequências diferenciadas?

Há três roubos no filme. O da “música barroca”, o do “O quark e a onça” e o “grade roubo”. O primeiro e o último são crimes perfeitos. No primeiro, Julio imita seu companheiro de trabalho e faz o que faz todo empregado de livraria: rouba livros. E com o terceiro roubo tem uma grande possibilidade. Já conhece bem o funcionamento interno de seu trabalho e sabe que é muito difícil que o peguem. Encontra-se frente a uma grande oportunidade e se põe à altura das circunstâncias. Esse roubo também é perfeito. Mas tem um grande problema que é o roubo do “quark”. Há algo que o cega: o ciúme. Que faz Oscar na Livraria? Julio responde a isso jogando com ele. E esse jogo de fazê-lo desejar um livro ou menti-lhe na cara é mais importante que o roubo em si e não pode ver que está cometendo um erro que arruína o “grande roubo”. E ao arruinar o grande roubo põe em perigo sua historia de amor e a fotonovela.

Tem uma licenciatura em Psicologia. Quais são as influências de seus estudos na produção de seus filmes?

Graduei-me como psicólogo muito jovem. Logo comecei a estudar cinema. Sem dúvidas tenho formação de psicólogo. E isso me influenciou muito. Aprendi a não interpretar a partir de teorias, mas a realizar uma teoria específica para cada pessoa. Isso é o que fazia Freud, para cada caso clínico lhe ocorria uma idéia distinta. Ou seja, dizer que alguém é obsessivo é reduzi-lo a uma característica de sua pessoa. Todo ser humano é complexo e eu trato meus personagens como se não os conhecesse de todo. Porque isso seria impossível.

Seu primeiro trabalho, o curta-metragem “Porteros” foi em 2007. Que coincidências há na produção de “Porteros” e de “barroco”?

A forma de produção de Barroco e Porteros são similares. Nas duas produções trabalhei com amigos, ou com amigos de amigos que tinham talento e vontade de fazer cinema. Agora, para Barroco, necessitei conseguir algum dinheiro para pagar as pessoas. Nas duas produções ninguém trabalhou somente pelo dinheiro (ainda que recebessem), mas pela vontade de fazer cinema.

Filme: Barroco Direção: Estanislao Buisel Argentina, 2013, Formato: DCP, Color Duração: 85 minutos Elenco: Julián Larquier, Julián Tello, Walter Jakob, William Prociuk, Julia Martínez Rubio Roteiro: Estanislao Buisel, Walter Jakob Fotografia: Soledad Rodríguez Edição: Ignacio Masllorens Direção de arte: Fabiana Gallegos Som: Tomás Fronthot Música: Gabriel Chwojnik Produção: Agustín Gagliardi Produção Executiva: Agustín Gagliardi, Estanislao Buisel Produtora: El Rayo Verde Trailer:


Guilherme Fernandes

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