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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

go ahead, make my day!

a mobília envelheceu?

O Móveis Coloniais de Acaju tirou o pé do freio. Com um número excessivo de baladas, letras mais diretas e sentimentalismo à flor da pele, a big band de Brasília parece querer se distanciar dos caminhos que os levaram ao estrelado underground.


Ir a um show do Móveis Coloniais de Acaju é uma experiência inesquecível.

A explosão catártica proporcionada em seus espetáculos é de uma intensidade única. É praticamente impossível manter-se parado ao ver todos os nove integrantes movimentando-se tresloucadamente em cima do palco. Seja o palco de grandes proporções, como o Auditório Ibirapuera (onde foi gravado seu primeiro e único DVD), seja no minúsculo Circo Voador, onde os assisti pela primeira vez.

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Seus dois primeiros álbuns são clássicos instantâneos da nossa música contemporânea. A improvável fusão entre ska, rock, soul, punk, polka, ritmos latinos e mais um caminhão e outros estilos impressiona. Ao vivo, basta o contar das baquetas para a bomba explodir.

Ir a um show da Mobília (apelido carinhoso dado pelos fãs à banda) e passar ileso a uma nova audição de seus dois primeiros discos é uma árdua tarefa. Sempre, em alguma canção, terá uma história, uma lembrança, uma saudade. Geralmente, após um show, ouve-se a música e relembra-se como ela soou ao vivo.

Com De Lá Até Aqui o caminho é inverso. Ouve-se o disco e o primeiro questionamento que aparece é como essas canções irão soar ao vivo, mescladas com seu repertório antigo, inteligente e matador? Não que o novo lançamento da big band de Brasília seja um disco ruim. Longe disso. Só que a energia e o caos de seus registros anteriores ficaram para trás. MOVEIS-delaateaqui-Banda-Foto-de-Diego-Bresani-Estudio-California1.jpg

Uns falam sobre evolução. Outros, sobre redirecionamento da carreira. Eu, por enquanto, gosto de desgosto de bastante coisa.

Gostei da suave inovação trazida por faixas como “Sede de Chuva”, “Longe é um Lugar”, “Nova Suinguera” e da faixa-título. Trata-se de uma inovação comedida, sem grandes modificações, mantendo a identidade e os elementos que fizeram do Móveis Coloniais de Acaju a grande – em todos os sentidos – banda que é hoje, talvez uma das mais originais do Brasil, guardadas as proporções.

Não gostei da melancolia de quermesse de faixas como “Sem Fim” e “Amanhã Acorda Cedo”. Certas letras também decepcionam bastante, como “Saionara” e “Amor é Tradução”. As metáforas inteligentes de clássicos recentes como “Aluga-se, Vende-se” e “Descomplica” foram trocadas pelo marasmo de baladas como “Não chora” e da animada “Melodrama”.

Ao final de sua audição, De Lá Até Aqui mantém o seguinte questionamento: Como será o setlist da banda daqui pra frente? Os excessos de músicas mais calmas e reflexivas, juntamente com as novas canções mais animadas que, mesmo boas, estão com o freio de mão puxado, trará mudanças significativas às apresentações da Mobília? Certamente.

Resta saber se tais mudanças foram premeditadas pela banda. O tempo, como sempre, dirá. Com todos os seus clichês.


Guilherme Fernandes

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