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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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argentinos americanizados

“Tese sobre um homicídio”, de Hernán Goldfrid, é um filme fraco. Um belo entretenimento, mas fraco. É uma tentativa válida de fugir do consagrado ar intimista das produções argentinas. Válida, embora frustrante.


Tese sobre um homicídio é um filme fraco.

Argumento pobre, roteiro previsível e com alguns erros crassos de continuidade. Qualquer pessoa que estiver procurando um suspense intrigante deve passar longe das salas que estejam passando o novo longa de Hernán Goldfrid.

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E que fique claro, antes de qualquer coisa: filme fraco não é filme ruim!

O conceito de filme ruim é um. O de fraco é outro. Filmes ruins geralmente te fazem sair da sala – ou se remoer de ódio até que os créditos subam –, não prendem sua atenção e esbarram em atuações sofríveis ou histórias insossas. O remake de Cavaleiro Solitário é um filme ruim. Tese sobre um homicídio é um filme fraco, apenas.

Esclarecimentos feitos, sigamos.

Roberto Bermudez (Ricardo Darín, excelente sempre!) é um advogado aposentado, especialista em direito criminal. Renomado, Bermudez ministra um curso bastante famoso na Faculdade de Direito de Buenos Aires, atraindo alunos de todos os cantos do mundo. Em sua próxima turma está Gonzalo (Alberto Ammann, surpreendente), filho de um velho amigo, que o trata como um ídolo.

O brilhantismo de seu aluno por vezes incomoda Bermudez, que, por insistência de Gonzalo, inicia uma complexa relação a partir de um assassinato brutal que ocorre no pátio da Faculdade, enquanto o curso é ministrado. Perspicaz e com a ajuda de algumas dicas dadas pelo próprio aluno, Roberto desconfia que o crime cometido nada mais é do que um desafio lançado por Gonzalo, a fim de destituir – ou corroborar – algumas teses expressas em seu livro recém-lançado sobre direito criminal.

A partir dessa exposição, o filme toma ares típicos dos blockbusters hollywoodianos de sábado à noite. Não fosse o idioma, os mais desatentos duvidariam que o que está passando frente aos seus olhos é algo proveniente do cinema argentino. Tomadas genéricas e grosserias na continuidade das cenas (como quando Bermudez ajeita o presente dado por Gonzalo, e, na cena seguinte, em que o ápice deveria ser o sumiço do artefato, os planos médios das câmeras denunciam antes o que irá acontecer) tiram o brilho do interessante duelo psicológico travado pelos protagonistas.

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Falando em protagonismo, quem rouba a cena é Ammann. Sua atuação é praticamente irretocável, mostrando momentos de calma e frieza que beiram a psicopatia, por mais que suas atitudes sejam contrárias a isso. Darín, por sua vez, nos entrega mais uma atuação soberba, utilizando-se sabiamente de suas nuances faciais de Gato Persa para dar vida ao arrogante e paranoico professor.

O final clichê frustra aos que esperavam uma resolução mais elaborada do duelo travado pelo professor renomado e seu aluno brilhante. A simplicidade e a falta de consequências mais bruscas com que Goldfrid encerra seu suspense prejudica bastante o saldo final da película, que até apresenta bons momentos, como o desenvolvimento dos principais personagens e, mesmo clichês, as minucias na investigação do homicídio, relacionando-o com outros crimes ocorridos e idênticos ao mote de seu longa-metragem.

Tese sobre um homicídio é um filme fraco. Um belo entretenimento, mas fraco. Prende sua atenção até o exato momento em que, sem a necessidade de grandes raciocínios, consegue-se imaginar os possíveis finais de sua trama. Entretanto, o desfecho apresentado é morno e frustrante. O filme é uma tentativa válida de fugir do consagrado ar intimista das produções argentinas. O problema dessa tentativa é que, ao invés de tentar apenas seguir um caminho diferente do comum, Hernán Goldfrid americanizou demais a sua história.

E de suspenses americanizados, já bastam os próprios americanos.

Filme: Tese Sobre um Homicídio Nome Original: Tesis Sobre un Homicidio Diretor: Hernán Goldfrid Elenco: Ricardo Darín, Alberto Ammann, Calu Rivero, Arturo Puig, Fabián Arenillas, Mara Bestelli, Mateo Chiarino, Antonio Ugo, Natalia Santiago e Cecília Atán, José Luis Mazza e Ezequiel de Almeida Produção: Diego Dubcovsky, Daniel Burman e Daniela Alvarado Roteiro: Hernán Goldfrid Fotografia: Rolo Pulpeiro Trilha Sonora: Sergio Moure Duração: 106 min. Ano: 2013 País: Argentina Trailer:


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