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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

go ahead, make my day!

Dono de sua própria estrada

Com Sábado, Cícero mostrou que tem muito mais a oferecer do que esperam dele. Mostrou que não foi apenas um sucesso instantâneo e sim um artista, ainda em formação, que busca se afirmar dentro de uma normalidade que ele mesmo definiu para si como certa.


Cícero dispensa apresentações.

O cantor e compositor carioca, talvez último fenômeno musical gerado pela internet – e claro, por seu talento – está de disco novo. Sucessor do ótimo Canções de Apartamento, Sábado confirma o que, quem já presenciou uma de suas apresentações, já havia constatado: Cícero é avesso à fama. Sua postura de palco é um misto de vergonha com afobação, misturado com uma musicalidade e entrega sem tamanho, emocionando até o coração mais petrificado.

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Para os fãs mais histéricos, um jeito "bonitinho" de fazer música. Para observadores do meio musical, um comportamento típico das anti-estrelas.

O talento de Cícero catapultou-o para o estrelato. Canções... é um dos poucos discos dessa década a ter, entre dez músicas, dez possíveis hits. Caso raro. Em seu apartamento, Cícero criou um pequeno clássico da música contemporânea. Cantando "pra dentro", introspectivo, quase melancólico segundo seus detratores – sim, eles existem! – Cícero e suas dez canções foram relevantes dentro de um cenário saturado de pseudo-estrelas.

Ao perceber toda essa afobação da mídia especializada, Cícero, que de bobo não tem nada, se fechou. Bem ativo nas redes sociais, virou um ser intermitente. Enquanto seus fãs e detratores divulgavam sua obra, sumiu do mapa. Entre prêmios de artista revelação e discos em falta no estoque das megastores, Cícero era cada vez menos visto. Não se embasbacou com a fama repentina, e manteve-se em suas verdades. Parecia contemplar todos os erros cometidos por celebridades instantâneas, alçadas à fama pela internet, e decidiu seguir um caminho diferente.

Faltou, apenas, gritar em alto e bom tom. E o seu grito chama-se Sábado.

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Nem o mais otimista fã do Canções... poderia imaginar o resultado final de seu segundo álbum. Por mais que tentem fazer alguma correlação, Sábado em nada lembra seu primeiro registro solo. Cícero canta mais baixo, declama letras diminutas, melodias mais ensolaradas, fugindo do status quo e rasgando as regras de manutenção de um estilo que ele mesmo criou. Sua relação com bandas "modernosas" da década passada desapareceu tão rápido quanto se dá a audição da bolacha. Sábado é a forma que Cícero encontrou para dizer que não faz parte dos rótulos que lhe impuseram anteriormente.

Inventivo, premeditavelmente não compôs nenhum hit. O disco não tem refrões e a maioria das canções não ultrapassa os três minutos de duração. As letras e vocalizações, mais introspectivas, parecem ter sido criadas apenas para completar a sua equação musical de aversão à fama. Sem medo de ousar, passou fácil pela prova do segundo disco.

Com Sábado, Cícero mostrou que tem muito mais a oferecer do que esperam dele. Mostrou que não foi apenas um sucesso instantâneo e sim um artista, ainda em formação, que busca se afirmar dentro de uma normalidade que ele mesmo definiu para si como certa. Mostrou que pode ser tudo, menos "fogo de palha".

Nem de longe é um produto gerado pelo histerismo e falta de ídolos relevantes da nossa atual juventude. Cícero é uma realidade. Aproveitem, antes que a plasticidade da nossa época o engula.


Guilherme Fernandes

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