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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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Doidão por encomenda

Em “I Still Here”, Joaquin Phoenix choca até os mais descrentes de sua loucura. Um retrato visceral e verossímil de um sujeito que decidiu jogar o seu próprio jogo.


Joaquin Phoenix por Joaquin Phoenix.

Um dos melhores atores de sua geração, indicado ao Oscar, aprovado pelo próprio Jonny Cash para vivê-lo em sua cinebiografia, Phoenix sempre foi avesso à fama e deixou isso bem claro. Em I Still Here (2010), leva sua loucura e ojeriza até às ultimas consequências, quando, ao ser entrevistado por um repórter, confidencia que estaria se retirando, que não iria mais atuar.

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Pura enganação? Piada? Uma farsa, para se retirar e ser protagonista de seu próprio mockumentary? Talvez sim. Entretanto, desde o começo da película, Joaquin deixa claro seus motivos:

“Acho que por isso aceitei fazer este documentário, porque eu não quero interpretar o personagem de Joaquin. Quero ser o que sou. E a minha produção artística até agora, quando sou realmente honesto comigo mesmo, tem sido sumamente fraudulenta. Agora, pela primeira vez, estou fazendo algo que, goste ou não, realmente me representa.” E o que representa Joaquin Phoenix? Ora, deixar de atuar e se concentrar na produção e composição de um disco de hip-hop. Patético? Confuso? Com toda certeza. Com sua fala atordoada pelos inúmeros baseados que fuma durante o filme, Joaquin tenta, em frangalhos, explicar a Sean “P.Diddy” Combs, que, tão atônito quanto o espectador, não entende sua ligação com o rap. Mesmo assim, trabalha incessantemente em suas composições. Não desiste, afinal, o plano é esse: compor suas músicas, se afastar da carreira artística, e, porque não, autodestruir-se.

O que poucos notam, se deixando levar pelos seus desvarios, são as duras críticas à indústria cinematográfica atual. Joaquin (aqui J.P., o rapper) destila suas opiniões sobre atores, diretores, encarregados e todos os envolvidos do show business que movimenta milhões, em alto e bom tom, aproveitando-se do salvo-conduto recebido pelas poucas e complexas aparições públicas. Em certo momento, desabafa, em um de seus longos monólogos ao longo do filme:

“Eu adoro esses raros e puros momentos entre a ação e o corte, mas todo o resto era uma absoluta miséria para mim. Falamos de ser esta expressão criativa, e realmente somos malditos fantoches. Você é um maldito cão estúpido, que fica como alguém diz que fique, estaciona onde alguém diz que pare, fala o que alguém quer o que você diga. Isso não é expressão. Não é criatividade. E tenho mais que isso para oferecer.”

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O documentário – que não é um documentário, entenda – mostra a catarse de Phoenix. Não, ele não enganou o show bussines quando disse que iria se retirar. Ele se retirou e decidiu encarnar “ele mesmo” como personagem. Ele não enganou seus admiradores quando disse que iria se dedicar a música. Ele se dedicou (sim, sua música é sofrível, entretanto, se dedicou). Ele não enganou ninguém. Apenas, de saco-cheio, decidiu fazer as coisas do seu jeito. E assim fez.

I’m Still Here é um retrato visceral e verossímil – e, porque não, genial? – de um sujeito que decidiu jogar o seu próprio jogo. Phoenix foi ao fundo do poço por diversão. E se você, espectador, se sentiu enganado, essa era a intenção.

Estupendo, escatológico, defenestrador, o mockumentary dirigido por Casey Affleck é a declaração de guerra de um ator. Phoenix, que tantas vezes foi “quem mandaram ele ser”, decidiu – seja por marketing, seja por piração – ser “ele mesmo”. Por mais que ser ele mesmo choque o show business e gere factoides em cima de factoides, nocivos à sua persona.

Com o atestado de “doidão” em mãos, sua crítica foi feita. E, convenhamos, da melhor forma possível.

“Todos na vida já disseram, num momento: Não gosto do meu trabalho. Não gosto de quem eu sou. Não gosto das pessoas que me rodeiam. Quero algo melhor para mim mesmo, eu tenho um sonho... Mas não quero ser. Sabe, pense o que for de mim. Odeie-me ou me ame, só não me entenda mal. Isso é tudo.”

Título Original / Internacional: : I'm Still Here Ano de Produção: 2010 País: Estados Unidos Género: Longa-metragem/Documentário Duração: 107´ Produção: Casey Affleck/Joaquin Phoenix Trailer:


Guilherme Fernandes

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