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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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De punho cerrado e peito aberto

Em "O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui", Emicida conseguiu reunir com precisão todas as experiências adquiridas nos últimos anos em que o seu nome foi o mais falado desse "ressurgimento" do rap nacional para o mainstream.


Gostem ou não, Emicida é um fenômeno.

Fenômeno gerado pela própria decadência dos meios formais da indústria musical. Enquanto pensavam em novas formas de distribuição, Emicida cortou os intermediários das majores e, junto com seu selo Laboratório Fantasma, fez o rap vendável novamente para o mainstream.

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Emicida deu espaço ao rap nacional, criou tendências, apresentou novos nomes da cena – tão talentosos quanto – e criou um modelo de auto-gestão de sua carreira que, segundo um de seus próprios versos, "se o [Roberto] Justus partisse daqui, teria desistido". Ou melhor, no mínimo, teria inveja.

Distribuindo suas mixtapes primeiramente em shows e espaços undergrounds da cena rap paulistana, seu modelo de gestão e facilidade funcional dobrou as maiores cadeias de entretenimento, que precisaram correr atrás dele para ter seus lançamentos em suas bancas. E, convenhamos, entrar na FNAC e comprar um produto de alta qualidade gráfica, bem gravado e com 18 músicas pela bagatela de R$5,00 (preço estampado na própria arte da capa da mixtapes Emicídio), chega a ser libertador.

Não só seu tino para o business foi percebido. Exponencial também foi o seu crescimento musical, com inúmeras participações especiais, com variados nomes da música contemporânea. De NX Zero à Aline Calixto, do punk ao samba, todos queriam uma fatia das rimas cortantes de Leandro Roque de Oliveira, vulgo Emicida.

Depois de algumas mixtapes, um elogiado EP produzido pela dupla norte-americana K-Salaam & Beatnick e uma bem-sucedida turnê com Criolo, Emicida lança o seu primeiro álbum, "O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui", onde conseguiu reunir com precisão – que não quer dizer perfeição – todas as experiências adquiridas nos últimos anos em que o seu nome foi o mais falado desse "ressurgimento" do rap nacional para o mainstream.

Com participações especiais em praticamente todas as faixas, Emicida prova porque todo o burburinho causado por seu trabalho é verídico. Faixas como "Levanta e Anda" e "Nóiz" resgatam seu passado na Rinha dos Mc's, com rimas consistentes e viscerais, onde exalta seu passado, seus sonhos e todas as pessoas que acreditaram em seu talento. E por falar em rimas consistentes, são elas que pautam o trabalho. Por incrível que pareça, até mesmo quando Emicida derrapa, seus versos merecem ser ouvidos.

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E onde o Emicida derrapou? Ora, simplesmente quando tenta fazer algo que não combina com o seu trabalho. "Alma Gêmea", com a participação de Rafa Kabelo, tentou invocar os vocais à la Boys II Men e Sampa Crew, mas, superficial e insossa, não passou de uma balada pseudo-romantica onde um rapper famoso pela violência de sua voz tenta sussurrar versos doces. Completamente dispensável.

O disco ainda tem alguns momentos abaixo da qualidade corriqueira do rapper. Músicas como "Gueto" (com a participação do Mc Guimê) e "Zóião" são musicas mornas. Não ruins, apenas mornas. Não acrescentam nada, comparado aos petardos restantes no álbum.

"Hoje Cedo", com a participação de Pitty, é a prova mais veemente de como Emicida é o mais mainstream do underground. Sincera, violenta e com os vocais pontuais da cantora baiana, a música talvez, junto com "Bang", "Trepadeira" e "Samba do Fim do Mundo", sejam os maiores destaques do full-lengh de estreia de Leandro.

"Sol de Giz de Cera", com participação de sua filha Estela Vergílio e da cantora Tulipa Ruiz consegue o que "Alma Gêmea" não conseguiu: ser doce. A canção torna-se mais uma no meio da maçaroca sonora, entretanto, ainda consegue gerar alguns sorrisos infantis em sua audição. "Crisântemo", com participação de sua mãe, Dona Jacira, é uma canção triste, pesada, soturna. Os versos declamados por Dona Jacira dão a impressão de um noticiário, onde o morador in loco narra os fatos ocorridos.

E "Trepadeira"? A polêmica canção, com participação de Wilson das Neves, é uma das melhores do disco, resgatando as historietas do samba antigo, a boemia com pandeiros que toda periferia/morro/favela tem. Ponto final. Tentar explicar, pela enésima vez, à pequenos grupos que "merecer uma surra de Espada de São Jorge" é um palavreado corriqueiro nas áreas mais pobres do Brasil é, com perdão dos clichês, dar murro em ponta de faca.

Vivemos a época do ódio virtual. Não se pode falar ou escrever nada sem ser patrulhado. Então, continuem patrulhando, enquanto continuo escutando boa música.

Aos detratores de "Trepadeira", do lirismo sacana e engraçado causado pela audição da música, Emicida, inteligente como só, responde mais a frente, na canção "Bang": "Não quer ouvir 'groselha', maior boi, tio, não prospera!”.

E que fique dito. Gostem ou não, Emicida é um fenômeno.


Guilherme Fernandes

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