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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

go ahead, make my day!

rodrigo morcego: café preto, jornal velho

Diferente de outros artistas, Rodrigo Morcego consegue transpor toda a efervescência do Blues-Rock para o cotidiano nordestino. É Blues feito com alma, vigor, tesão e tempero brasileiro. O primeiro registro solo de Rodrigo Morcego é visceral, acompanhado com farinha e temperado com pimenta.


Rodrigo Morcego é um dos muitos casos em que a baixa expectativa lhe gera boas surpresas. Quando ouvi falar sobre "mais um brasileiro fazendo blues com pitadas de rock" já imaginei um cenário batido, que sempre passa pelos meus olhos (e ouvidos): um cara, com sotaque americanizado, bons riffs e nenhuma identidade musical.

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Em alguns casos, a questão da "influência" abre um precedente para uma imitação descarada, o que acaba por me desmotivar um pouco de procurar coisas boas sobre esse estilo em nossas terras.

Existem bons nomes cantando Blues em inglês? É claro que sim! Felipe Cazaux e Rodrigo Nézio estão ai para provar isso. No entanto, apesar de boas coisas, ainda sofre-se bastante com um cenário de blues genérico. E sempre, quem sai perdendo é o publico, com uma gama de lançamentos "perfeitinhos demais", com arranjos elaborados e bem tocados, entretanto, sem alma. E, convenhamos, Blues sem alma não é Blues. Nem aqui, nem no Mississipi.

Por essas e outras que recebi o trabalho de Rodrigo com desconfiança. Desconfiança essa que, após o primeiro minuto de "Irmão Blues", foi categoricamente chutada para longe.

Diferente de outros artistas, Rodrigo Morcego consegue transpor toda a efervescência do Blues-Rock para o cotidiano nordestino. Alguns reviews falam que "Café Preto, Jornal Velho" é bom porque é algo original, reduzindo o trabalho a um “Blues com sotaque”. Na opinião deste que vos fala, o álbum é muito mais que um álbum de Blues com sotaque. É Blues feito com alma, vigor, tesão e tempero brasileiro. O primeiro registro solo de Rodrigo Morcego é visceral, acompanhado com farinha e temperado com pimenta.

Se em "Irmão Blues" a desconfiança foi chutada, em "Carrego do Satanás" é a vez de acender um cigarro e completar o copo de Bourbon. De refrão fácil, levada maliciosa, o tema seduz logo de cara, fazendo aqueles longos 6 minutos passarem rapidinho. Não passei para a canção seguinte enquanto não fiquei "enjoado" dessas duas. Assim, fiquei durante uma semana ouvindo apenas as duas primeiras faixas do álbum.

Passado isso, me apaixonei por "Ladjane", a guria bêbada que foi encontrada trocando as pernas em praça pública. Emocionei-me a historia da Socialite internada após tentativa de suicídio, em “Os punhos ao espinho”. Chacoalhei o esqueleto em "Hey Mama". E completei a viagem com “Outro lugar”, celebrando a volta do filho pródigo.

Falar que Rodrigo é um ótimo guitarrista é chover no molhado, assim como falar da qualidade de suas composições. Entretanto, é necessário que se faça justiça em duas frentes: sua banda de apoio e a produção do disco. Formada pelo baixista Gilson ‘Biu’ Jr e pelo baterista Jô Pinto, a banda segura às pontas nas bases, e não perde a pegada nem mesmo nas canções mais lentas.

Já a produção do álbum, feita por Iuri Freiberger, deixa tudo bem na cara, com timbres limpos e sujos convivendo em perfeita harmonia, agradando tanto aos mais blueseiros quanto aos roqueiros, qualificando ainda mais um trabalho que, por si só, já tem muito a dizer no que tange à relevância dentro de um gênero clássico como o Blues.

Vida longa ao Blues Nacional!


Guilherme Fernandes

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