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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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Sidney Lumet em ótima forma

"Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto" é um filme muito interessante. De fácil digestão para os apreciadores de narrativas não lineares. Uma ótima oportunidade de ver como um ótimo diretor, munido de um bom roteiro, ainda consegue ser relevante no cinema atual.


Para uns, Sidney Lumet é um diretor ultrapassado, que “perdeu a mão”, que fez a sua glória cinematográfica em ótimos filmes como "Doze Homens e uma Sentença" (1957), "Um Dia de Cão" (1975) e "Rede de Intrigas" (1976). Para outros – eu incluso – um gênio subvalorizado, engolido pela impaciência crônica que acometeu os espectadores nas salas de cinema nos últimos tempos.

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Sidney Lumet tinha 83 anos em 2007 e precisava de um "Grand Finale" para coroar a sua obra, tão incompreendida pelos "botocudos da sétima arte". Junto ao roteirista iniciante – e ex-padre – Kelly Masterson, conseguiu parir um de seus melhores filmes, o intenso "Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto".

Na sinopse, nada de mais: Andrew "Andy" Hanson (Philip Seymour Hoffman) é um executivo cuja carreira de executivo está desmoronando. Viciado em drogas e com graves problemas para se livrar de uma auditoria que pode destruir sua reputação, convence o irmão Hank (Ethan Hawke), que também tem problemas financeiros, a assaltar uma joalheria. O plano, fácil demais, dá errado, e os irmãos precisarão lidar com as repercussões de suas desmedidas atitudes.

Na ação, entretanto, boas surpresas: a narrativa entrecortada vai esmiuçando a vida dos três personagens principais – sim, na história ainda existe o pai dos irmãos Hanson, Charles, interpretado de forma soberba por Albert Finney –, explicando e confundindo-se entre datas e fatos. Se em uma determinada cena é explicado o que acontece 3 dias antes do crime, a tomada seguinte já mostra o que aconteceu tempos depois da tentativa de assalto.

Philip Seymour Hoffman mantém o padrão e brilha em suas cenas, por mais que a sua história seja, de longe, a menos interessante. A história de Hank, sozinha, daria um bom filme, visto que é a com maiores possibilidades de um desenvolvimento mais elaborado. Hawke consegue captar todos os transtornos de autoestima que o seu personagem sofre, conseguindo transpor o clima de tensão de sua vida para o espectador. Finney, que praticamente só aparece ao fim da primeira metade da película, apesar de sua história apenas complementar as outras, atua de forma vigorosa e conduz o seu personagem a redenção, depois de muitos arroubos psicóticos.

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Lumet consegue unificar dois grandes gêneros, muito revisitados em sua obra: os filmes de família e os filmes de crime. Para quem conhece a obra do diretor, é inegável não pensar em uma fusão de "Um Dia de Cão" e "Negócios de Família" (1989). Além da direção eficaz, Lumet modificou pragmaticamente o roteiro de Masterson, excluindo o filho de Gina (Marisa Tomei) da trama – que realmente não acrescentaria muita coisa – e fazendo de Andrew e Hank irmãos, unificando-os por um laço familiar para incrementar a história.

"Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto" é um filme muito interessante. De fácil digestão para os apreciadores de narrativas não lineares, talvez seu maior pecado seja ser "não linear" demais, o que afasta o grande publico. Nada que tire o brilho do filme. Não irá salvar o mundo, nem mesmo reinventar a roda. No entanto, é uma ótima oportunidade de ver como um ótimo diretor, munido de um bom roteiro, ainda consegue ser relevante no cinema atual.

Filme: Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto

Título Original: Before the Devil Knows You’re Dead

Direção: Sidney Lumet.

Elenco: Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Albert Finney, Marisa Tomei, Rosemary Harris, Sarah Livingston.

Especificações: 2007, EUA, 114'

Trailer:


Guilherme Fernandes

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