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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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De Zé-Ninguém a Ativista

O tal "clube de compras de Dallas" era um contraponto à política do FDA, órgão regulador do governo americano, responsável pela realização de testes e liberação dos medicamentos comercializados. Se, de acordo com o FDA, a droga experimental AZT estava obtendo bons resultados, para Woodroof a realidade não era bem aceita dessa forma.


Um Oscar para Matthew McConaughey, por favor!

Desde que deixou de lado à rentável carreira dos filmes adocicados e comerciais, McConaughey não decepcionou em nenhuma de suas novas empreitadas. Seja como Dallas, o ex-stripper de "Magic Mike" (2012), seja como Joe Cooper, o insano matador de aluguel de "Killer Joe" (2011).

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Em "Dallas Buyers Club", McConaughey é Ron Woodroof, um simples eletricista caloteiro que vive de pequenos trabalhos – e golpes. Típico texano dos meados da década de 80, Woodroof era um homem sem perspectivas. Seus objetivos resumiam-se em sobreviver de roubos aplicados numa fictícia bolsa de apostas da arena de rodeios do local, consertos elétricos em obras, drogas e sexo fácil.

Até que, em uma de suas várias noites desregradas, adquire o vírus HIV, até então associado pela grande massa apenas a atividades homossexuais.

Entre o ostracismo à que foi relegado pelos seus amigos por causa do [pré] conceito inconsciente de "apenas homossexuais poderia contrair AIDS", e um deadline de 30 dias de vida dado pelos médicos, Woodroof precisa escolher entre se acomodar em sua doença e esperar o inevitável, ou tentar fazer algo útil por ele mesmo, que possa prolongar sua estadia na Terra.

Fatalmente, Woodroof escolhe a segunda alternativa. E, claro, ainda consegue lucrar com ela. Esse é o mote de "Dallas Buyers Club", novo longa de Jean-Marc Vallée.

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O tal "clube de compras de Dallas" – título traduzido porcamente, por mais que seja o mais próximo da literalidade – era um contraponto à política do FDA, órgão regulador do governo americano, responsável pela realização de testes e liberação dos medicamentos comercializados. Se, de acordo com o FDA, a droga experimental AZT estava obtendo bons resultados – por mais que o remédio tivesse efeitos colaterais devastadores –, para Woodroof a realidade não era bem aceita dessa forma.

Intrigado pelo novo vírus e, lógico, munido de um instinto de sobrevivência fora do comum, Woodroof passou a estudar sobre todas as possibilidades de medicações alternativas – e ilegais nos EUA – para o tratamento do HIV, e montou uma rede de tráfico dessas substâncias, onde disponibilizava para outros doentes relegados pelo governo, que ainda tentavam controlar a ferocidade dos efeitos colaterais do AZT ou o esquecimento por parte das políticas e saúde da época. É interessante notar que os mesmos medicamentos disponibilizados por Woodroof foram, tempos depois, a base para a criação do já conhecido coquetel antirretroviral, utilizado até hoje no tratamento de pacientes soropositivos.

Como já divulgado incessantemente pela mídia, as atuações são o ponto alto do filme. McConaughey dá um show de personalidade, a despeito de sua feição esquelética, que nem de longe é a questão mais interessante da película. Jared Leto na pele do travesti Rayon – tão esquelético quanto Matthew – também surpreende frente às câmeras, por mais que o seu personagem demore um pouco para criar empatia com o espectador.

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No entanto, da dupla, mesmo que tenham sido indicados com honras, é Leto que chega forte para conseguir a estatueta de melhor ator coadjuvante. McConaughey, por sua vez, briga contra feras como Leonardo DiCaprio (O Lobo de Wall Street) e Bruce Dern (Nebraska), enquanto o caminho de Leto é mais fácil, tendo “apenas” Jonah Hill (O Lobo de Wall Street) e um Michael Fassbender (12 Anos de Escravidão) no piloto automático.

"Dallas Buyers Club" foi indicado também à melhor filme, mas, nessa categoria, acredito que teremos poucas surpresas. Dos nove escolhidos, apenas três deles tem chance real de conquistar a estatueta: "Gravidade", de Alfonso Cuarón, "12 anos de Escravidão", de Steve McQueen e o já citado “O Lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese. "Trapaça" de David O. Russell e "Nebraska" de Alexander Payne correm por fora, com mais chances do primeiro surpreender. Isso, é claro, deixando de lado a possível zebra de Paul Greengrass, “Capitão Phillips”.

Independente das especulações, "Dallas Buyers Club" é um bom filme. Trata de um assunto sério sem soar panfletário, tem bons diálogos – por mais que tenha algumas "barrigas" incômodas no roteiro – e atuações impecáveis. Uma ótima oportunidade de constatar sem equívocos o renascimento de Matthew McConaughey como um ator de ponta. O caminho do Oscar está esquentando para ele. Talvez não nessa edição, mas está próximo. Basta que selecione melhor seus trabalhos, atitude que, ao que parece, tem acontecido com frequência de 2009 pra cá.

Filme: Clube de Compras Dallas

Título Original: Dallas Buyers Club

EUA , 2013 - 117 min, Drama

Direção: Jean-Marc Vallée

Roteiro: Craig Borten, Melisa Wallack

Elenco: Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve ZahnDallas Roberts, Kevin Rankin, Denis O'Hare


Guilherme Fernandes

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