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Guilherme Fernandes

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O Lobo de Wall Street: Insano!

Se grande parte do cinema contemporâneo é uma Ópera, com suas câmeras multiângulos e explosões computadorizadas, "O Lobo de Wall Street" é o mais puro Punk Rock. Recheado de palavrões, drogas, nudez e sexo, consegue ser grandioso sem soar megalômano, mostrando os excessos de seus personagens sem apelar para exageros gratuitos.


Scorsese é rei. O resto são apenas imitações. Bijuterias brilhantes até a página 2.

Não, isso não é um desabafo. É apenas uma constatação. É claro que existem outros bons diretores, boas histórias e alguns filmes ótimos. Fora isso, ainda existem Eastwoods, Allens, Kubricks, Lumets e outros monstros sagrados da cinematografia. Porém apenas Scorsese é rei. E que fique dito. Você pode ou não concordar comigo. Independente das discordâncias, Scorsese não deixará de manter-se no trono por causa isso. Lide com essa verdade.

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Aos 71 anos, Scorsese nos entrega mais um diamante. "O Lobo de Wall Street" é a sua mais nova empreitada, onde reproduz a história de Jordan Belfort (Di Caprio), um corretor de ações endiabrado, que, seguindo uma espécie de manual politicamente incorreto – regado a drogas, prostitutas e ilegalidades – ergue seu império do nada, e, claro, sofre as consequências de sua megalomania.

Filmes subversivos são bons e ruins ao mesmo tempo. Bons pelo simples fato de serem subversivos. Ruins pelas discussões infundadas e completamente desnecessárias que geram. E é claro que "O Lobo de Wall Street" não ficaria de fora dessa roda de boteco de beira de encruzilhada que é a imprensa especializada. Assim que foi lançado nos EUA, o filme já foi achincalhado de todas as formas possíveis. O argumento das críticas? É um filme que mostra de forma aberta toda opulência e desmedida do sistema financeiro, onde todos querem conquistar riquezas e não se envergonham de burlar os regulamentos para conseguir tais objetivos.

Imbecilidades a parte, "O Lobo de Wall Street" tem o selo Scorsese de qualidade. E só isso, amigo, já vale o ingresso. Some isso à atuação impecável de Leonardo Di Caprio, em sua quinta colaboração com o diretor – uma espécie de “Robert De Niro: Parte 2”. E, tal como aqueles vendedores de quinquilharias que tentam enganar os retardados, digo: "E não é só isso". Ainda tem um alucinado Matthew McConaughey – que mostra, em uma participação de apenas 5 minutos, porque já passou da hora de ganhar um careca dourado –, um Jonah Hill ultra caricato – se mostrando um dos melhores sidekicks contemporâneos – e um clímax de 1h:30min.

Sim, você leu certo: um clímax de 90 minutos!

O filme inicia mostrando os primeiros passos de Belfort no mercado de ações, sendo batizado pelo louco de pedra Mark Hanna (McConaughey). Com a crise do mercado financeiro dos anos 80, Wall Street sucumbiu, e grandes empresas foram à falência, inclusive a que Belfort trabalhava. Após a demissão, Scorsese mostra Belfort sentado, com um jornal em mãos, procurando se recolocar no mercado de ações. A partir daí, pelos próximos 90 minutos, "O Lobo de Wall Street" torna-se um insano trem de freios.

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Scorsese consegue capturar de forma maravilhosa e tresloucada todas as atitudes desregradas de Belfort na criação de seu próprio escritório. Di Caprio, que faz o filme de sua vida, dá um show de interpretação, seja em seus momentos mais desmedidos – todas as cenas em que está com o microfone em mãos, à frente de seus comandados, são soberbas –, seja explorando sua pouco utilizada faceta cômica, aliadas às ótimas intervenções de Jonah Hill.

Como nem tudo são flores nos reinos da fantasia, o FBI, na figura do incorruptível Agente Denham (Kyle Chandler), começa a investigar o enriquecimento meteórico de Belfort. E, com isso, a explosão climática do filme também dá uma murchada. Outros diretores possivelmente tentariam manter o clímax anterior, talvez transformando seu filme em um thriller policial, perdendo-se dentro da proposta inicial, que é contar a história de ascensão e queda de seu protagonista.

Outros diretores poderiam errar. Não Scorsese.

Scorsese assume essa premissa mais branda e anticlimática de bom grado, preparando o espectador para a derrocada de seu protagonista, diminuindo a quantidade de momentos cômicos e criando uma interessante tensão entre Belfort e a sua própria vida. E aqui o filme fica um pouco cansativo, porém não menos interessante.

Suas quase 3 horas de duração conseguem mostrar de forma perfeita, sem correrias desnecessárias, a luxúria e a decrepitude do estilo de vida de Belfort. Recheado de palavrões, drogas, nudez e sexo, "O Lobo de Wall Street" consegue ser grandioso sem soar megalômano, mostrando os excessos de seus personagens sem apelar para exageros gratuitos. É claro que esse filme não é o mais recomendado para se assistido pela sua família, entre a missa e o almoço de domingo, No entanto, não é um filme ofensivo. É um filme subversivo, que vale o ingresso, sem maiores problemas.

Se grande parte do cinema contemporâneo é uma Ópera, com suas câmeras multiângulos e explosões computadorizadas, "O Lobo de Wall Street" é o mais puro Punk Rock. Insano e despudorado, irá agradar tanto aos fãs de Scorsese e Di Caprio quanto aos espectadores que forem aos cinemas atrás de uma boa história.

Filme: O Lobo de Wall Street

Título Original: The Wolf Of Wall Street

EUA, 180’, 2013

Diretor: Martin Scorsese

Roteiro: Terence Winter

Elenco: Leonardo Di Caprio, Jonah Hill, Margot Robbie, Matthew McConaughey, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Jon Favreau, Jean Dujardin, Joanna Lumley


Guilherme Fernandes

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