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Guilherme Fernandes

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12 Anos de Escravidão: Enfim, um vencedor!

"12 Anos de Escravidão" não é um dramalhão e sim uma pérola da arte dramática. É um daqueles filmes necessários que aparecem de tempos em tempos. Bonito, feito de forma apaixonada, com perfeito equilíbrio entre a dor e a realidade, atuações que beiram a perfeição e cenas memoráveis típicas de um vencedor.


Steve McQueen é dono de seus projetos. Em tempos aonde a indústria cinematográfica vem sendo dominada por produtores e grandes estúdios, McQueen continua dono de sua estrada. Do bombástico "Hunger" (2008) ao esquisito "Shame" (2011), McQueen tem a mão segura na direção, filmando de forma que a verdade transpareça em seus personagens sutilmente, até que entendam – ou não – que fazem parte de um pífio recorte social, onde aceitam suas verdades ou sofrem as consequências de suas escolhas.

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Em "12 Anos de Escravidão", seu novo projeto, McQueen amplia seu ponto de visão. Não esquecendo suas características, extrapola corretamente a vitimização de seus personagens sem soar panfletário ou apelativo. O filme é baseado na autobiografia publicada em 1853 por Solomon Northup, violonista negro e livre de Nova York, que, aceitando uma suspeita proposta de emprego, é sequestrado e vendido como escravo na Louisiana, vivendo as agruras do chicote racista por 12 anos.

Logo no início do longa, Northup (Chiwetel Ejiofor) aprende a regra fundamental para que possa sobreviver no mundo escravagista: o silêncio. Mesmo sendo alfabetizado, aceita sua condição calado, sabendo se portar como um típico negro subserviente daquela época, sempre a espera de um milagre que possa liberta-lo do cativeiro físico e emocional, fruto de um violento equívoco, causado, em tese, por ele mesmo.

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Independente da descrição, em momento algum o longa de McQueen soa apelativo. É impossível contar histórias sob o prisma escravista sem elencar vitimas ou mártires. Steve assume a condição realista – que tanto deu certo em seus dois filmes anteriores – e mostra, sem nenhum receio, o sofrimento dos escravos e a mente doentia de seus senhores.

O elenco é um paragrafo a parte. Além de Ejiofor, McQueen conseguiu reunir feras como Benedict Cumberbatch, Paul Giamatti, Brad Pitt, Paul Dano e Michael Fassbender com destaque especial para os dois últimos.

Dano tem se consolidado como um dos melhores atores de sua geração. Visceral, consegue mostrar perfeitamente como funciona a mente de um jovem senhor de escravos. Já Fassbender, em sua terceira colaboração com McQueen, nos entrega o insano Sr. Epps, dono da fazenda em que Northup trabalha a maior parte do período.

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Destaque também para a pequena Lupita Nyong'o, que vive a destemida Patsey, principal vítima dos atos indeléveis do casal Epps (interpretado por Fassbender e Sarah Paulson). Estreante, a jovem atriz é responsável direta pelas cenas de maior impacto dentro da trama, onde atribui a veracidade necessária – e assustadoramente real – para que a história escravagista de McQueen funcione corretamente.

"12 Anos de Escravidão" é um daqueles filmes necessários que aparecem de tempos em tempos. Apesar de retratar um assunto que, vez ou outra, aparece com força no cinema, consegue se diferenciar do todo, se equilibrando na verdade, que, é bom frisar, nada tem de bonita ou romântica. É praticamente impossível separar o sofrimento do andamento da trama. No entanto, não é um dramalhão e sim uma pérola da arte dramática.

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Um filme bonito, feito de forma apaixonada – McQueen, que é negro, não se deixou levar por nenhum outro sentimento que não fosse à necessidade de entregar uma pequena obra de arte – com perfeito equilíbrio entre a dor e a realidade, atuações que beiram a perfeição e cenas memoráveis típicas de um vencedor.

Indicado ao Oscar de melhor filme, "12 Anos de Escravidão" é, junto com "Gravidade" (Alfonso Cuarón) e "Trapaça" (David O. Russell) um dos favoritos na categoria. No entanto, seus adversários reais, por mais envoltos na euforia dos críticos e nas bilheterias megalômanas, estão facilmente dois degraus abaixo. Que a academia tenha bom senso dessa vez e saiba reconhecer um verdadeiro vencedor.

Filme: 12 Anos de Escravidão

Título Original: 12 Years a Slave

EUA , 2013 - 133 min.

Direção: Steve McQueen

Roteiro: John Ridley

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Michael Fassbender, Paul Dano, Quvenzhané Wallis, Sarah Paulson, Paul Giamatti, Garret Dillahunt, Michael K. Williams, Taran Killam, Alfre Woodard, Lupita Nyong'o


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