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Guilherme Fernandes

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A Trapaça de David O. Russell

David O. Russell está enganando você, a academia e a quem mais estiver a frente, mantendo o 'hype' criado em torno de seu nome! Em "Trapaça", filma igual Scorsese, mantém o clímax morno como Spielberg e abusa de uma fotografia já consagrada nos filmes antigos de Soderbergh.


David O. Russell, mesmo dirigindo dois projetos antes, surgiu para o cinema com seu ótimo "Três Reis" (1999). Com uma direção segura, promissora e sóbria, foi acumulando uma boa reputação até que a glória chegou. Glória essa que atende pelo nome de "O Vencedor" (2010), indicado em cinco categorias, ganhador de duas estatuetas no Oscar, de melhor ator e atriz coadjuvante. Nas graças da academia, Russell filma "O lado bom da vida" (2012) e se consagra: com uma chuva de indicações, foi o primeiro filme desde "Reds" (1981) a ser indicado em todas as quatro categorias de atuação do Oscar (melhor ator e atriz, melhor ator e atriz coadjuvante). Além disso, o longa foi indicado em melhor filme, diretor, roteiro adaptado e melhor edição.

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Desde então, se alguém esperava algo diferente em seus próximos projetos, estava pedindo para ser enganado. E enganação por enganação, eis que David O. Russell apresenta seu novo projeto, "American Hustle", traduzido – providencialmente, diga-se – para o ótimo e autoexplicativo nome "Trapaça".

Russell parece ter levado à risca tal tradução e tratou de trapacear seu espectador. Munido de uma história muxoxa, cheia de lugares-comuns dentro de um gênero que pouco tem a acrescentar atualmente – os chamados "filmes de golpe" – David cercou-se de ótimos atores, todos eles sendo lembrados pela academia recentemente por causa de seus trabalhos com o diretor, e correu para o abraço, mais uma vez para as graças da academia. No entanto, leitor, David O. Russell está enganando você, enganando a academia e quem mais estiver a frente, ludibriando e mantendo o hype criado em torno de seu nome. "Trapaça" conta a história de um casal de golpistas, que, descobertos, são forçados a trabalharem para um agente do FBI, envolvendo-se no perigoso mundo da máfia e da política. Até ai, sem muitas surpresas. E assim é o resto do filme. Num esforço terrível para plagiar – ou seria uma espécie de homenagem? – a veia "omertá" de Scorsese, David O. Russell mantém o filme glamoroso, num trabalho de fotografia inspirado e competente de Linus Sandgren, que lembra – mais uma homenagem? – as fotografias de Soderbergh antigas, da época de seu premiado "Traffic" (2000). Junte tudo isso a um filme morno, típico das tramas de Steven Spielberg – Jesus Cristo, mais uma homenagem! –, onde se mantém a tensão sempre fora dos momentos de clímax, deixando até mesmo as atmosferas mais tensas (a cena única com a “participação” de um De Niro caricato é um belo exemplo) suavizadas na tela.

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Com uma trama previsível, onde mais Russell conseguiria se apoiar e manter o hype? Nas atuações, é claro. Bingo! E é aqui que "Trapaça" tem o seu diferencial. Com um Christian Bale (Irving Rosenfeld) estupendo atuando "no fino da bossa" e uma Amy Adams (Sydney Prosser) maravilhosa, Russel ainda conta com um esforçado Bradley Cooper (Richie DiMaso) e uma perfeita Jennifer Lawrence (Rosalyn Rosenfeld) como suportes, sem contar a surpresa de vermos Jeremy Renner (Carmine Polito) desempenhando um bom papel que não precise de tiros, estratégias, arco e flechas ou correlatos. Mesmo com uma série impressionante de equívocos e uma direção covarde, Russell não erra a mão na escolha do elenco, que segura o filme em suas cansativas 2h17min de pura enrolação.

Não há nada de errado em "Trapaça". Sua trama é algo comumente utilizado em Hollywood, e não há nada de errado em poder contar com ótimos atores quando possível. O que complica o meio de campo é ver David O. Russell focado apenas em indicações e estatuetas douradas, ao invés de utilizar seu notório talento para entregar boas produções. Não é de hoje que o Oscar deixou de ser um medidor de qualidade – mesmo que, uma simples indicação seja suficiente para explodir as vendas de DVDs nos EUA –, mas, ao que parece, deixaram de avisar para Russell e seus produtores.

O resumo da triste ópera é o seguinte: Em "Trapaça", David O. Russell filma igual Scorsese, mantém o clímax morno como Spielberg e fotografa tal qual um Soderbergh antigo. É triste ver um gajo tão talentoso copiando seus ídolos apenas para conseguir indicações e estatuetas no Oscar. Independente disso, sim "Trapaça" é um filme correto, com Christian Bale (quem diria!?) arrasando e Jennifer Lawrence, sem surpresas, correndo soberana para se consolidar como uma das principais atrizes de seu tempo, rumo a sua segunda estatueta.

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Na dúvida entre assistir uma cópia de Scorsese e o original, não pense duas vezes: veja (ou reveja) "O Lobo de Wall Street". Escolha sempre o original, por mais que tentem lhe vender uma cópia fajuta com louros e benefícios "melhores". Para perder duas horas com fórmulas gastas, é melhor que percamos com quem soube se utilizar delas. Não aceite imitações ou trapaças. Fuja das bijuterias!

Filme: Trapaça

Título Original: American Hustle

EUA, 2013, 138’

Direção: David O. Russell

Roteiro: Eric Singer e David O. Russell

Elenco: Christian Bale, Bradley Cooper, Amy Adams, Jeremy Renner, Jennifer Lawrence, Louis C.K., Jack Huston, Michael Peña, Shea Whigham, Alessandro Nivola, Elisabeth Röhm, Paul Herman e outros.


Guilherme Fernandes

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