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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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Amor, solidão e desespero por Spike Jonze

"Her" é um filme original como poucos de sua época. Uma peça rara, daquelas que só aparecem de tempos em tempos. Um filme sobre o amor, sim. Mas também é um filme sobre o desespero e a solidão, sob a ótica do genial Spike Jonze.


Spike Jonze parece viver em outro mundo. Sua capacidade de criar produções que fogem do senso comum é sem precedentes. Assistir aos filmes de Spike Jonze nunca foi uma tarefa das mais fáceis. É necessário suspender os juízos e embarcar sem resguardos em suas produções sempre originais.

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Jonze exige bastante de seu espectador, seja para criação de seus ambientes peculiares, seja para entendimento real de suas proposições. Ou você é absorvido pela distopia criada por Jonze, ou perderá frente à tela um tempo que poderia, facilmente, estar sendo gasto em coisas mais edificantes, como cortar as unhas ou beber chá. Spike Jonze é assim, ame ou deixe-o.

Depois de obras irretocáveis como "Quero ser John Malkovich" (1999), "Adaptação" (2002) – ambos em parceria com o insano roteirista Charlie Kaufman – e da releitura "from hell" do livro infantil de Maurice Sendak, "Onde Vivem os Monstros" (2009), Jonze sumiu dos chamados grandes projetos – apesar de continuar trabalhando em seus filmes de Skate, dirigindo vídeo clipes musicais e curtas-metragens.

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Eis que, em 2013, Jonze lança "Her", sua história de amor. E o amor – ou qualquer outro sentimento – visto sob a ótica de Spike Jonze extrapola quaisquer conceitos pré-concebidos levando-nos a outras perspectivas até então impensadas. O filme conta a história de Theodore Twombly (Joaquin Phoenix), um homem solitário, amargurado e praticamente nulo no que tange às relações pessoais. Trabalha em uma agência que redige cartas emotivas para pessoas sem muito tino sentimental: seja um pedido de casamento, seja comemoração de bodas ou singelos bilhetes apaixonados, os sentimentos são destilados nas folhas de forma mecânica, tal qual uma linha de produção de envasamento de vinhos, por exemplo. Jonze – ajudado pelas feições perturbadas e a ótima atuação de Phoenix – mostra que é possível manipular os sentimentos dos outros, mesmo quando você está vazio de boas perspectivas. Produção em série de sentimentos vazios, esse é o trabalho de Theodore.

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No ambiente futurístico e assustadoramente viável idealizado por Jonze – e perfeitamente realizado por K.K. Barrett e Gene Serdena, responsáveis pelo design da produção e decoração dos sets –, as pessoas estão cada vez mais dependentes da tecnologia. As relações sociais são poucas e superficiais – quando não nulas –, uma vez que todos estão cada vez mais conectados em seus modernos sistemas operacionais controlados por voz. Atento às novas tecnologias e utilizando-as para preencher sua vida solitária, Theodore se interessa pelo "OS1", o primeiro “Sistema Operacional com Inteligência Artificial” do mercado, capaz de adequar suas funcionalidades às expectativas de seu dono. Ao configurar seu novo sistema e optando que seu avatar tenha uma voz feminina, Theodore cria Samantha (Scarlett Johansson).

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Ainda sem conseguir assimilar o golpe sofrido pelo seu divórcio e sofrendo inconscientemente de solidão crônica, Theodore se apaixona por Samantha. Sim, Theodore se apaixona por uma voz. Theodore se apaixona pela voz de seu sistema operacional.

Estranho? Não para Spike Jonze.

Jonze suaviza toda essa estranheza em sua distopia amorosa, a ponto de seu espectador encontrar argumentos plausíveis para um romance sem nexo. "Her" é um filme sobre o amor, mas também é um filme sobre o desespero e a solidão.

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Ainda sobre o arquétipo de sociedade futura, Jonze extrapola sem inviabilizar. Em seu futuro, não existem carros voadores e robôs dançarinos. Os conceitos atuais de tecnologia, convívio social e amor são elevados até o ponto máximo de racionalização e entendimento para um ser humano médio, não sendo necessárias grandes explicações sobre seu cenário. Uma breve pesquisa sobre as últimas novidades tecnológicas aliadas à experiência visual proporcionada por "Her", faz-nos perceber que estamos muito mais próximos da proposta de futuro criada por Jonze do que quaisquer outras perspectivas futurísticas do cinema contemporâneo.

"Her" é um filme original como poucos de sua época. Uma peça rara, daquelas que só aparecem de tempos em tempos, e, quando aparecem, são desprezadas em prol de filmes com orçamentos milionários e roteiros capengas, fruto da ignorância do espectador/consumidor médio de cinema, despreparado para suspender os juízos e se deixar levar pelas experiências sensoriais e sentimentais que pequenas obras-primas como essa podem causar.

"Her" definitivamente é um filme para poucos. Assim como o cinema de Spike Jonze sempre será.

Filme: Ela

Título Original: Her

EUA, Drama/Romance/Sci-fi, 126’, 2013

Diretor: Spike Jonze

Roteiro: Spike Jonze

Elenco: Joaquin Phoenix, Amy Adams, Scarlett Johansson e outros.


Guilherme Fernandes

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