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música, cinema e vírgulas

Guilherme Fernandes

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Convívio social e histeria coletiva

Indicado a melhor filme estrangeiro, a grande jogada de "A Caça" é mostrar o que não é proposto pela sinopse. O que parece ser um filme sobre a pedofilia e seus males, na verdade é uma história sobre a instabilidade das relações sociais.


O convívio social é um frágil castelo de cartas. Vizinhos, companheiros de trabalho, parceiros sexuais podem ser maravilhosos até que uma simples brisa sopre de forma diferente do usual. Quantas vezes não convidamos nossos vizinhos para um churrasco, e, tempos depois, sequer cumprimentamo-los na fila da padaria? E o nosso amigo inseparável dos happy-hours que, de uma hora para outra, passa a ser a pessoa mais repulsiva de todo o departamento? A fragilidade da confiança dos seres humanos, quase nunca destacada, é evidenciada nesse maravilhoso longa-metragem de Thomas Vinterberg.

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"A Caça" (Jagten, 2012) conta a história de Lucas (Mads Mikkelsen), divorciado, professor do jardim de infância, que encara problemas referentes à guarda de seu filho. Por mais estranho que pareça, a imagem de um quarentão como professor de crianças de 4 a 8 anos não incomoda. Pelo contrário, no decorrer da película vemos o amor que Lucas tem pela profissão, independente de sua vida, que desmorona em outras frentes.

A amizade também é retratada de uma forma bela, porém mórbida. Lucas faz parte de um grupo de companheiros que são amigos desde a infância. A cena inicial do filme, altamente cômica, mostra bem a intima relação entre os personagens. E, normal dentro de pequenas comunidades, mesmo crescidos, os companheiros moram na mesma vizinhança e compartilham dos mesmos entretenimentos. No entanto, o convívio social sempre será um frágil castelo de cartas. E ele desaba quando uma aluna, Klara (Annika Wedderkopp), filha de seu melhor amigo, acusa Lucas de abuso sexual.

Por mais que o roteiro de Vinterberg mostre de forma transparente a inocência de Lucas, o filme trata de outro ponto de vista. A trama mostra o ostracismo e ódio social à qual o protagonista foi exposto pela sua vizinhança, criando situações avassaladoras e desconfortáveis – num show de atuação de Mikkelsen, premiado em Cannes pelo papel.

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Após a acusação, Lucas passou de "amigo" a um ser deplorável, uma criatura desprezível dentro daquela comunidade, gerando ódio dos que outrora o amavam e compartilhavam momentos de lazer. Impedido de fazer compras no supermercado local, visto como um herege ao entrar na igreja, em nenhum momento da trama lhe é dado o benefício da dúvida, ou levado em conta à diagnósticos científicos, como, por exemplo, a realização de exames médicos para aferir a veracidade da afirmação de Klara.

A grande jogada de "A Caça" é mostrar o que não é proposto pela sinopse. O que parece ser um filme sobre a pedofilia e seus males, na verdade é uma história sobre a instabilidade das relações sociais, onde a cegueira da razão – muito utilizado no antigo teatro grego – faz com que a falta de uma análise mais apurada do caso, que em nenhum momento é julgado de forma parcial, prejudique um inocente, causando situações claustrofóbicas e bastante incomodas no decorrer da trama, chocando os mais desavisados.

Indicado a melhor filme estrangeiro no Oscar 2014, “A Caça” é uma ótima pedida para os amantes das reflexões sociais contemporâneas e apreciadores de uma história forte e chocante.

Filme: A Caça

Título Original: Jagten

Dinamarca , 2012, 115'

Direção: Thomas Vinterberg

Roteiro: Thomas Vinterberg

Elenco: Mads Mikkelsen, Thomas Bo Larsen, Annika Wedderkopp, Lasse Fogelstrøm, Susse Wold, Anne Louise Hassing, Lars Ranthe, Alexandra Rapaport, Ole Dupont


Guilherme Fernandes

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