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Guilherme Fernandes

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Nebraska: a dura e deliciosa verdade

"Nebraska" não é o melhor concorrente do Oscar. Tampouco um dos favoritos. No entanto, é de longe o mais tocante. De uma sensibilidade absurda, humor seco e tristeza verossímil, Alexander Payne entrega um filme tão "na cara" que é impossível ficar imune à realidade de certas situações presentes no longa.


Os filmes de Alexander Payne sempre querem dizer alguma coisa. Pode parecer redundante, visto que, em tese, todo diretor quer sempre dizer algo. No entanto, Payne sempre quer dizer mais que os outros diretores. Seus filmes, recheados de clichês e situações que beiram o mais extremo humor negro, estão sempre em movimento, indo de um lugar para o outro, seja mostrando uma reavaliação de perspectivas – Os Descendentes, 2011 –, seja uma fuga de estereótipos – Sideways, 2004.

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Em "Nebraska", sua mais nova empreitada, Payne teima em querer dizer algo maior que ele. Quer porque quer passar uma mensagem que, desde o início da película, parece estar sufocada entre as loucuras de Woody Grant (Bruce Dern), seu protagonista. Grant, um velho alcóolatra e teimoso, acredita ter ganhado – ou ganho, para não ter ‘mimimis’ gramaticais – US$ 1 milhão. Munido de sua teimosia misturada com uma penosa ingenuidade, tenta de todas as formas deixar Billings, Montana, para resgatar seu suposto prêmio em Lincoln, Nebraska.

Sempre a pé.

Incomodado em ter que buscar seu pai todas as vezes que sai para suas "caminhadas em busca do tesouro", David Grant (Will Forte) decide comprar a ideia do pai – por mais que saiba que não existe prêmio nenhum – e leva-lo a Nebraska.

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No entanto, após alguns acontecimentos, a dupla precisa passar alguns dias em Hawthorne, cidade onde seu pai morou durante alguns anos. Levado pela empolgação de ser um suposto novo milionário, Woody torna-se uma celebridade em seu retorno à cidade, gerando orgulho de uns e inveja de outros, sentimento que o faz entrar em algumas confusões e acertos de contas tardios.

Payne dá tiros curtos para vários lados. Retrata com perfeição a dura relação pai/filho que tanto perpassa alguns filmes – muitos deles, sem sucesso; mostra uma cidade parada no tempo, fruto da falta de oportunidades geradas pela crise econômica que assola – por mais que jurem de pés juntos que não – o país; mostra, sem rodeios, as relações dos familiares, que, ao acreditarem que o prêmio existe, passam a tratar o "parente louco" com carinho, de olho na inexistente fortuna de Woody, óbvio.

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Sem querer alcançar muito, Payne acerta todas as suas tentativas, e ainda nos entrega atuações inspiradas de Bruce Dern e June Squibb, a esposa de Woody que, por mais que passe o dia inteiro criticando-o, defende-o na mesma intensidade, quando necessário.

"Nebraska" é um filme sobre os acertos de contas que a vida faz-nos ter com nossa própria história. É o filho que tenta, comprando uma ideia maluca, se reaproximar do pai em seus últimos momentos de lucidez. É a família que se fortalece nos momentos de angústias. São os parentes que aparecem quando as notícias são boas, e somem na mesma velocidade que as nuvens ficam cinzas. É o sonho que, por mais esdruxulo que pareça, tem que ser perseguido até o final.

Por mais que o final seja apenas uma caminhonete nova e um compressor de ar, tal qual resmunga Woody durante o filme inteiro.

Filme: Nebraska

Título Original: Nebraska

EUA , 2013 - 115 minutos

Direção: Alexander Payne

Roteiro: Bob Nelson

Elenco: Bruce Dern, Will Forte, June Squibb, Bob Odenkirk, Stacy Keach, Kevin Kunkel, Rance Howard, Devin Ratray, Angela McEwan


Guilherme Fernandes

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