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Guilherme Fernandes

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Robocop e Tropa de Elite são dois filmes diferentes

José Padilha faz um bom trabalho e mantém o respeito conquistado pelos seus filmes anteriores. Talvez não seja o "Robocop" dos sonhos dos apreciadores da franquia, mas para a carreira de Padilha é um passo a frente.


José Padilha é responsável por mostrar que o cinema brasileiro pode, sim, produzir filmes relevantes e blockbusters ao mesmo tempo. Seus dois "Tropas de Elite" são ótimos exemplos que se pode criar boas histórias utilizando-se o mesmo pano de fundo que é instrumento de fetiche dos cineastas brasileiros. Os dois longas nada mais são do que recortes dos famigerados "favela-movies" que funcionam muito bem.

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Pena que a crítica especializada brasileira não tenha colhões suficiente para separar seus posicionamentos políticos de seus trabalhos. O primeiro "Tropa" foi chamado de fascista, direitista e estava cheio de violência gratuita.

É um sucesso fora do Brasil.

O segundo, mais comedido, entretanto bem mais inteligente que o primeiro, foi chamado de covarde, dizendo que o cineasta freou seus impulsos fascistas por causa das diversas empresas que financiaram o filme.

Manteve o sucesso da franquia fora do Brasil.

Um bom conselho para reviews produções brasileiras? Não leve os críticos a sério.

Agora, com seu "Robocop", é a mesma história: tentam diminuir sua ascensão à Hollywood, reduzindo o remake à uma espécie de "Tropa de Elite 3" e fazendo comparações aos filmes do Paul Verhoeven, entre outras crimes intelectuais.

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Três coisas precisam ser ditas:

1 – O "Robocop" de José Padilha tem vida própria, é interessante, mesmo que fique muito dependente dos maneirismos de sua direção "fujona". É um bom filme. Não entrará para história, mas é um bom filme.

2 – Comparar o filme de Padilha com o de Verhoeven é, para dizer algo sem ofender ninguém, um desserviço. É um remake? Sim, é! Terão comparações? É evidente que sim! Mas será que dá para escrever algo mais consistente que "o filme de Padilha não faz sombra aos filmes de Verhoeven"?

3 – Não, eu não gosto de José Padilha. Entendo sua importância para o cinema nacional, mas não gosto de seu estilo de direção. Não gosto da forma que seus coadjuvantes levam o filme, dos muitos "tiros" que dá em questões sociais e da falta de uma possível resolução dentro de suas tramas e, por fim, não gosto de seus maneirismos.

Dito isso, sigamos.

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A história que perpassa em "Robocop" é a mesma de sempre. Isso, claro, não tem como fugir: o policial Alex Murphy sofre um atentado e é mantido vivo como máquina, combatendo o crime de forma implacável.

O que muda são as abordagens que Padilha dá ao filme. Temos um inspirado Gary Oldman como o médico que mantém Murphy vivo e dá vida ao Robocop; um âncora televisivo completamente reacionário (impossível não lembrar do Deputado Fortunato, apresentador do programa de televisão no segundo "Tropa"), interpretado corretamente por Samuel L. Jackson; temos um vilão, que só é tido como tal na última parte do filme, que utiliza de seu dinheiro e de um marketing poderosíssimo para influenciar o povo. Nessas abordagens vemos que Padilha, em Hollywood ou no Brasil, consegue tratar dos mesmos assuntos, sempre. E isso é que tira todo o tesão do filme.

É sempre "quem é o culpado?", sempre "o que o povo pensa?", sempre "podemos fazer isso, mas terá consequências". Padilha caiu em sua própria teia de interesses e deixou o filme refém de seus maneirismos. Não que isso seja ruim para a trama. No entanto, tira o fôlego para possíveis continuações – que, com certeza, é o desejo dos estúdios e produtores que o contrataram – uma vez que vários arcos são abertos e mantidos até os últimos minutos do longa, sendo fechados com perguntas recheadas de autoafirmações patriotas, tal qual seus dois maiores sucessos.

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Ainda assim é um bom filme. As cenas de ação impressionam, a direção é segura, assim como o desenvolvimento dos personagens. Padilha leva quase meio filme desenvolvendo os principais pontos de conversão de suas teorias, o que talvez explique a "broxada" pela falta de resoluções – ou pela suposta resolução apresentada por ele – da trama.

José Padilha faz um bom trabalho e mantém o respeito conquistado pelos seus filmes anteriores. Talvez não seja o "Robocop" dos sonhos dos apreciadores da franquia, mas para a carreira de Padilha é um passo a frente. Então, é melhor ou pior que o "Robocop" de Paul Verhoeven? Assista ao filme, suspenda os juízos pré-concebidos e tire suas conclusões.

Filme: Robocop

Título Original: Robocop

EUA , 2014 - 117 minutos

Direção: José Padilha

Roteiro: Joshua Zetumer

Elenco: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Samuel L. Jackson, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, Marianne Jean-Baptiste, John Paul Ruttan


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